Você conhece o sítio que ‘planta amor e colhe saúde’?

Consumir orgânicos é tendência, e cultura do preço é substituída pela cultura do apreço, com valor justo por uma alimentação saudável

Ora-Pro-Nóbis é uma planta PANC – Planta Alimentícia Não Convencional – Foto: Artur Bezerra

“A alimentação é cura. Ela nos traz cura. Então eu preciso consumir alimentos que vão proporcionar isso e me trazer alegria, vontade de viver, paz no coração, harmonia e muito equilíbrio. ” Noeli Pinheiro

Hoje em dia, muitos estão parando para pensar melhor em sua saúde e, especialmente, na alimentação saudável. Neste período de pandemia, os números mostraram que aumentou em 50% o consumo de produtos orgânicos.

Afinal, a Covid-19 vem para mostrar o quanto é preciso cuidar da vida. É dentro desta ideia que os produtos orgânicos ganham mais atenção do público a cada dia. Não é novidade e há muitas provas científicas de que alimentos plantados com agrotóxicos provocam males à saúde do consumidor e dos produtores.

Um exemplo bem-sucedido de produção de orgânicos em Santa Catarina é o Sítio Flora Bioativas, localizado na comunidade do Sertão do Valongo, em Porto Belo. Atualmente, são cultivadas 58 espécies de plantas em escala comercial, com a certificação de Produto Orgânico do Brasil e da Ecovida (certificação participativa).

Vendas online e entregas pré-agendadas

Edemir Martinhago, proprietário do sítio, trabalhando com o Tupinambor, uma planta rara – Foto: Artur Bezerra

O Sítio Flora Bioativas é referência no cultivo de plantas bioativas e nutracêuticas, incluindo plantas raras como o Tupinambor. Com a pandemia do novo coronavírus, foi necessária uma mudança na logística, e hoje, há entregas pré-agendadas nos locais solicitados pelos clientes e também as vendas online estão ocorrendo no site com preços competitivos.

“Na busca de cumprirmos com nossa missão de produzir e entregar alimentos orgânicos diferenciados e de alta qualidade e para melhor atendimento a todos, organizamos o acesso à comercialização dos produtos”, afirma Noeli Pinheiro, uma das proprietárias do sítio.

Uma história de amor pela natureza

Noeli Pinheiro e Edemir Martinhago, proprietários do Sítio Flora Bioativas – Foto: Artur Bezerra

Segundo o casal Edemir Martinhago e Noeli Pinheiro, proprietários do sítio, o que antes parecia um sonho quase utópico, hoje se transformou em realidade. Acompanhados de sua família, começaram a delinear o projeto de promover a saúde, utilizando plantas. Isso ocorreu há cerca de 10 anos.

Hoje, o Sítio Flora Bioativas é membro do Projeto Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA), para o qual entrega, semanalmente, cotas de produtos orgânicos às famílias dos municípios de Itapema, Tijucas e São João Batista, Itajaí, Balneário Camboriú e Brusque.

A importância da comunidade na produção

A CSA, ou Comunidade que Sustenta a Agricultura, é um modelo de agricultura solidária que existe há pelo menos 50 anos em vários países. Nele, o agricultor deixa de vender seus produtos por intermediários e grandes comerciantes e conta com membros consumidores (você) para financiar a sua produção de alimentos orgânicos, colaborando para o desenvolvimento sustentável da região e estimulando preços justos.

Dessa forma, o produtor pode se dedicar de forma livre a sua produção, sem a pressão do mercado, e os membros consumidores recebem produtos de qualidade, direto do sítio, sabendo quem os produz e onde são produzidos. Existem diversas iniciativas de CSA no Brasil. Acesse csabrasil.org e procure a mais próxima de você para entrar em contato.

Mais saúde, menos agrotóxicos

Plantação de couve do Sítio Flora Bioativas – Foto: Artur Bezerra

Quem prestigia iniciativas como a do Sítio Flora Bioativas deixa de contribuir para a cultura do agrotóxico. Eles são utilizados na produção da maioria dos alimentos no Brasil causam danos ao meio ambiente e à saúde do produtor rural e do consumidor.

“Sempre que possível, dê preferência aos alimentos agroecológicos ou orgânicos”, defende dona Noeli, que repete: ‘Troque o preço pelo apreço, plantando com amor e colhendo saúde! ”.

Veja alguns benefícios de consumir e produzir orgânicos:

  • Alimentos orgânicos são frescos, provenientes de uma agricultura local e sustentável.
  • Você sabe de onde, como e por quem os alimentos são cultivados.
  • Alimentos orgânicos são produzidos com apreço, e podem sim, ter preços mais acessíveis. Confira no site.
  • Outra oportunidade neste processo é que você pode se tornar parte tornando-se, um Co-agricultor.
  • Esta iniciativa valoriza a profissão de agricultor.
  • Consumir e cultivar orgânicos é algo que colabora para a manutenção da biodiversidade e preservação do meio ambiente.

ENTREVISTA – Noeli Pinheiro

Noeli Pinheiro segura na mão uma Valeriana, chá calmante. Sítio Flora Bioativas – Foto: Artur Bezerra

A produtora rural Noeli Pinheiro fala ao ND Mais sobre as mudanças no negócio, advindas da pandemia do novo coronavírus e da importância da rede CSA neste processo, para que o trabalho prossiga no campo.

Ela também comenta sobre a importância de divulgar as PANCs – Plantas Alimentícias Não Convencionais, que têm potencial alimentício e desenvolvimento espontâneo, porém não são consumidas em larga escala e poucas pessoas conhecem.

Noeli Pinheiro ressalta que há um mito de que os produtos orgânicos são muito caros e orienta as pessoas a prestigiarem a agricultura familiar, onde há preços justos e alimentos saudáveis, direto do campo. Ela também conta um pouco sobre os planos de ampliação do negócio e da importância de as pessoas terem os orgânicos na sua mesa.

1 – O que mudou no trabalho de vocês com a pandemia? Como se adaptaram?

Em nosso trabalho, como somos agricultura familiar, perante a pandemia, tivemos de fazer algumas adequações. Trabalhamos na terra, gostamos disso, amamos o que fazemos. E a gente sempre diz que planta amor e colhe saúde. Então, a nossa adaptação foi de buscar outros meios de incremento de renda para que a gente pudesse se manter nela.

Nós fazíamos alimentação escolar em 4 municípios, e com a pandemia, a gente teve de parar. Abrimos uma feira em BC, que já não fazíamos mais, na rua 1926, e estamos incrementando um projeto que temos no sítio, que é ideal para a agricultura familiar.

Já tínhamos o projeto antes da pandemia, só que estamos intensificando ele. E tivemos de nos adaptar, nos reinventar, porque o sistema não deixa que fiquemos parados, por motivo de já haver investimentos do ano passado. A agricultura familiar nos dá essa condição. Buscamos feira, delivery, para levar até as pessoas, os alimentos devem chegar às casas. E estamos atendendo pelo site do Sítio Flora Bioativas.

2 – Qual a importância da rede CSA?

O CSA é um projeto que dá sustentabilidade ao agricultor para permanecer na terra. É a Comunidade que Sustenta a Agricultura. São famílias que pagam mensalmente para que nós possamos plantar e fazer todo o trabalho de campo, para que eles recebam alimento orgânico de verdade.

Já trabalhamos isto há 3 anos, temos as nutricionistas que são colaboradoras em cada cidade, e isso faz crescer a credibilidade e que possamos fazer esse projeto com uma clareza maior. A CSA, nesta época de pandemia, foi o que nos deixou na terra, nos deu condição de ficar plantando. Se não fosse a CSA, teríamos de voltar a nossos antigos empregos, fora do campo. Fazer gestão, outros trabalhos que já largamos pelo fato de querermos morar num lugar tranquilo e fazer algo que fosse notório na saúde humana.

3 – O que são as PANCs?

Popularmente chamado de Peixinho, Stachys Byzantina também é uma PANC – Foto: Artur Bezerra

Nós trabalhamos com as PANCs – Plantas Alimentícias Não Convencionais, porque eu acredito muito numa planta que realmente vá dar uma nutrição, porque elas não são geneticamente modificadas, elas são sazonais, com seu princípio ativo aflorado, porque ela vem em épocas e a gente consome em épocas.

Hoje, já temos algumas PANCs na alimentação escolar, porque a gente acredita que as pessoas precisam de um alimento verdadeiro. E tivemos essa iniciativa com alguns nutricionistas e alguns municípios ao redor, e foi bem interessante.

Zedoária, planta gastroprotetora que ajuda a combater a bactéria que causa câncer de estômago – Foto: Artur Bezerra

Eu sempre propago e digo aos agricultores que eles devem cultivar as sazonais, por elas estarem diferenciando a alimentação e é um incremento de renda. Então, as PANCs precisam ser melhor conhecidas e difundidas entre as pessoas e devem ir para a mesa das famílias com mais frequência.

4 – Há um pensamento comum de que orgânicos são muito bons, mas são muito caros. O que a senhora tem a dizer sobre isto?

Existe um mito de que os orgânicos são muito caros. Eu diria que, se você procurar uma família que produz um orgânico legal, respeitando o princípio ativo, respeitando a terra, isso vai te dar qualidade. E o orgânico é caro se você for numa rede de supermercado comprar.

Eu vou te dizer isso porque eu vivencio isso na pele. Por exemplo, um pé de alface americana em qualquer rede atacadista, sai em torno de 6,99. No sítio, com retirada aqui, o valor é R$ 1,50. Veja a disparidade de preço. Mas é um preço justo para nós e vale a pena o consumidor comprar e consumir, porque de fato ele está consumindo uma alface diferenciada.

5 – Vocês pretendem ampliar a entrega de produtos este ano?

Nós precisamos ampliar o produto sempre. Uma questão é que nós não estamos atendendo a rede municipal de educação, a alimentação escolar, e aí precisamos girar, e por isto estamos buscando parcerias e vendas, para não ficarmos negativas e para que possamos cumprir com os nossos compromissos. Por isso, ampliamos as vendas, estamos com uma plantação razoável e pretendemos buscar mais clientela.

6 – Como foi para a família, a integração no bairro Sertão do Valongo?

Sítio Flora Bioativas, no Sertão do Valongo, Porto Belo – Foto: Foto Artur Bezerra

O Sertão do Valongo é uma comunidade Quilombola. Quando chegamos aqui, ajudamos a comunidade na questão social, de infraestrutura, escola, luz, água, transporte, então buscamos trabalhar com eles, porque não adianta eu estar inserida em uma comunidade em que estou bem e eles não.

Então quisemos fazer com que todos estivessem bem. Quisemos fazer com que as famílias com quem trabalhamos estejam bem, se alimentando de uma forma legal, com princípios ativos relevantes e que não precisem ficar doentes por motivo da alimentação. A alimentação é cura. Ela nos traz cura. Então eu preciso consumir alimentos que vão proporcionar isso e me trazer alegria, vontade de viver, paz no coração, harmonia e muito equilíbrio.

Um lugar para aprender sobre produção sustentável. Saiba chegar

Na rota das principais praias de Santa Catarina, Sítio Flora Bioativas é um local onde as pessoas buscam conhecimento sobre produção sustentável.  O sítio, no Quilombo do Valongo em Porto Belo, está no roteiro turístico da Costa Verde de Mar. A bela estrada do Sertão de Santa Luzia vai mostrando uma paisagem rural.

São 10 quilômetros desde a BR-101 até o sítio. Do lado direito da BR-101, sentido Florianópolis, se pode fazer várias descobertas. O acesso é logo depois de passar o pedágio. Uma estrada de chão batido e paisagens rurais bem diferentes das praias que estão a poucos quilômetros. O local de 282 hectares, tem cerca de 200 plantas catalogadas como comestíveis ou medicinais.

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