“Cada dia estamos morrendo”, diz irmão de homem que sumiu após ser levado pela PM em SC

Após quase seis meses, Diego Bastos Scott, 39 anos, segue desaparecido e a família busca por respostas em Laguna no Sul de Santa Catarina

A família de Diego Bastos Scott, 39 anos, segue em buscas de respostas para ao sumiço dele após uma abordagem policial em Laguna no Sul de Santa Catarina. Após quase seis meses do desaparecimento, a tristeza tem sido um sentimento que a família convive diariamente.

“A família está acabada, isolada, a cada dia estamos morrendo. Chegamos em casa aqui vemos nossos pais nesse estado. Eu como professor trabalho faz 20 anos no Estado, nunca me afastei, tive que me afastar agora. Meu outro irmão professor de Educação Física também está acabado”, conta o irmão de Diego, Antônio Scott, em entrevista ao repórter da NDTV Criciúma, Juno César .

Irmão de Diego, Antônio Scott relata o sofrimento da família com a falta de respostas sobre o desaparecimento do irmão – Foto: Reprodução/NDTVIrmão de Diego, Antônio Scott relata o sofrimento da família com a falta de respostas sobre o desaparecimento do irmão – Foto: Reprodução/NDTV

O ex-jogador de futebol e pai de Diego, Edson Scotti, diante da falta de respostas e de não ter encontrado ainda o filho, acredita que existe a possibilidade de ele estar morto.

“Ele não tá mais sumido. Por isso que a gente desacreditou que ele tá desaparecido. Ele tá é morto. Mas onde? Aquele negócio se não tiver corpo não é assassinato”, lamenta Edson.

Após cansar de buscar respostas, a família de Diego procurou o advogado, Breno Schiefler Bento, para acompanhar o caso. De acordo com ele, o inquérito militar segue em andamento e os policiais teriam sido indiciados por dois crimes.

“Inquérito policial militar está em andamento e teve a primeira conclusão que levou indiciamento dos dois PMs por dois crimes: falsidade ideológica e prevaricação e segue em andamento para averiguar a prática de um crime mais grave contra o Diego”, conta ele.

Pai de Diego, o ex-jogador Edson Scott não possui esperanças de encontrar o filho com vida em Laguna – Foto: Reprodução/NDTVPai de Diego, o ex-jogador Edson Scott não possui esperanças de encontrar o filho com vida em Laguna – Foto: Reprodução/NDTV

A Polícia Militar e o Ministério Público de Santa Catarina não quiseram se manifestar sobre o caso. Na época do sumiço o subcomandante do 28º BPM de Laguna, Josias Machado Severino, falou sobre o caso. Os policiais ficaram afastados por um tempo, mas já retornaram ao trabalho em funções administrativas na corporação.

“Importante destacar que a Polícia militar ela está atenta e ela é intransigente com qualquer situação de transgressão da lei. Seja pelo público civil. Seja internamente pelos policiais. Neste sentido a apuração ela vai se dar de forma rápida, isenta e da maneira mais correta para trazer luz aos fatos que estão sendo apuradas”, falou ele na época do desaparecimento.

Sumiço ocorreu em janeiro

Segundo a família, Diego Scott era uma pessoa de boa índole. Porém tinha problemas com bebida e drogas. Por isso, as vezes, os familiares acionavam a Polícia Militar para que ele parasse de incomodá-los.

“O Diego não era uma pessoa maldosa, ele respeitava a Polícia, quando a eles abordavam ele, ele respeitava. Por isso que a gente chamava, porque daí ele baixava a bola”, conta a esposa dele, Alexandra Joaquim. “Sempre foi um Guri gente boa. Ele não tinha problema. Ele começou a jogar bola e depois a entrar nas drogas e problema de bebidas”, completa o pai.

No dia do sumiço, 15 de janeiro deste ano, Diego saiu pela manhã e foi até um posto de gasolina onde começou a beber.

“Fui ali no posto comprar cigarro para mulher e ele estava ali no posto sentado em uma cadeira. Já tinha tomado umas três latinhas. Aí eu assim para ele: ‘o Diego essa hora tu já tá tomando. Tudo não vai para casa incomodar’. Aí ele respondeu:  ‘Não pai, estou de boa”, ressaltou Edson.

Após um tempo, Diego apareceu na casa do pai e iniciou uma discussão pelo fato de ele o ter encontrado no Posto. Edson tentou explicar que ele não estava perseguindo Diego, mas que tinha ido comprar um cigarro para a esposa.

“Ele não gostou. Ele veio já dando esporro ‘Vocês vão atrás de mim, sabe que eu não gosto’. Aí bateu, aí eu: ‘Olha vou chamar a polícia porque tu já tá ficando agressivo e não tá entendendo mais nada’. Aí foi a hora que eu chamei”, lembra o pai.

Após Edson chamar a Polícia, Diego voltou ao posto, onde os policiais supostamente o abordaram e tiveram uma conversa com ele para que não voltasse para casa. Já no período da tarde, ele voltou à casa e novamente a Polícia foi acionada. A mesma viatura com os mesmos policiais do período da manhã, atenderam a ocorrência novamente.

“ Ele estava totalmente bêbado. Um dos policiais ainda falou assim: ‘Pede para ele sair que eu quero falar com ele’. Ai eu fui no banheiro, ele não conseguia nem raciocinar. Aí fui e botei a roupa nele. Ele saiu. Os policiais falaram para ele não incomodar. E ele assim ‘não não, já vou sair fora'”, relata a esposa.

Câmera de segurança registrou o momento em que Diego foi levado pelos policiais – Foto: Reprodução/NDTV RecordTVCâmera de segurança registrou o momento em que Diego foi levado pelos policiais – Foto: Reprodução/NDTV RecordTV

Um cigarro e o desaparecimento

Após isto, ele pegou um cigarro e um isqueiro e foi para a frente da residência. Ele andava de uma lado para outro. Depois de cerca de 20 minutos, os policiais novamente apareceram na casa e chamaram Alexandra.

Diego Scott, 39 anos, está desaparecido desde o dia 15 de janeiro – Foto: Arquivo Pessoal/NDDiego Scott, 39 anos, está desaparecido desde o dia 15 de janeiro – Foto: Arquivo Pessoal/ND

“A mesma viatura voltou, eu estava no quarto. Eles buzinam aqui na frente. Aí eu fui atender: ‘O que foi?’. Aí o policial assim: ‘Avisa para o teu sogro que hoje ele não incomoda mais’. Aí eu: “Porque?”. Aí ele assim: “nada, nada”. Entrou na viatura e foi.  Quando fui no portão, os vizinhos falaram para mim que eles tinham levado o Diego. Aí falei: ‘Mas eles falaram que não iam prender'”, afirma a esposa.

Os policiais chegaram a negar que haviam levado Diego, mas uma câmera de segurança flagrou o momento que eles o colocaram dentro da viatura. Após este fato, os policiais alegaram que o haviam abandonado na região de Laguna Internacional. Buscas com cães, helicóptero e com ajuda de amigos e familiares foram feitas, mas ele não foi encontrado.

“Ficamos três meses aí atrás de matagal, fomos atrás de caiaque e  mergulhamos em lagos. Fizemos, coisas que nunca imaginamos fazer na minha vida, para tentar dar esse consolo para meus pais já que a família vem sofrendo, mas chega uma hora que não tem mais força”, finaliza o irmão de Diego.

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