Cidade de Santa Catarina já foi evacuada por acidente parecido com explosão no Líbano

Episódio ocorreu em uma empresa que armazenava fertilizantes em São Francisco do Sul, em setembro de 2013

“Quando comecei a ver as informações sobre Beirute, aquele dia em São Francisco do Sul voltou à minha mente”. Este foi o principal sentimento de César Augusto Vieira Blanski, de 34 anos, bombeiro voluntário que trabalhou no episódio da fumaça tóxica envolvendo uma empresa que armazenava fertilizantes, na cidade do Litoral Norte catarinense.

Fumaça tóxica em São Francisco do Sul causou pânico na população – Foto: Luciano Moraes/ND

O dia era 24 de setembro de 2013. Por volta das 22h30, uma combustão em uma fábrica de fertilizantes causou pânico e momentos de desespero aos moradores que viviam na região dos bairros Paulas e Iperoba, e da localidade de Portinho.

Uma fumaça tóxica tomou conta das ruas e fez com que diversas pessoas deixassem suas casas durante a madrugada. Entre elas, estava o bombeiro voluntário Amilton Diogo de Amorim Filho, de 36 anos. A casa dele fica atrás do armazém onde ocorreu a explosão. Ele conta que não ouviu o momento da combustão em si.

“Eu estava em casa. Por volta de umas 21h, a baiuca em São Francisco do Sul começou a tocar. Eu, então, fui para o Corpo de Bombeiros e, de lá, fomos para o local. Quando cheguei à corporação eles me avisaram que a fumaça era na rua da minha casa”, relata.

Ele conta que, ao chegar ao local, viu vários companheiros saindo do armazém, ao mesmo tempo que visualizava o aumento da densidade da fumaça.

Fumaça tóxica causou pânico e evacuação da cidade

Logo que chegaram, segundo Amilton, eles iniciaram a evacuação das casas na região. Entre elas, um lar de idosos que ficava próximo ao armazém.

“Porém, a gente não imaginava que tudo aquilo ia tomar esta proporção tão grande. Quando chegou a manhã e vi aquela fumaça, foi quando eu me assustei de verdade”, relembra.

O pânico tomou conta das pessoas que viviam ali na região. Segundo César, dezenas de moradores começaram a deixar suas casas para se proteger em cidades vizinhas a São Francisco do Sul. O movimento foi tanto que a BR-280 chegou a ficar congestionada.

“As primeiras informações causaram muito pânico. Principalmente de que a fumaça era muito tóxica para a população. Isso fez com que as pessoas começassem a sair”, relembra. Na época, a estimativa era de que metade da população deixou a cidade.

Fumaça tomou conta da região durante três dias – Foto: Arquivo ND/Divulgação

A família de Amilton foi uma que teve que sair do local. A mulher e os filhos deixaram a casa e se alojaram em Joinville, em parentes, onde permaneceram por cerca de seis dias.

“Enquanto ela [esposa] estava em Joinville, eu permaneci em São Francisco do Sul para ajudar. Inclusive a nossa casa serviu como base para alimentar quem trabalhava no combate”, conta Amilton.

Falta de informação foi a principal dificuldade

Segundo César, a principal dificuldade na época era a falta de informação. Ao chegar ao local, a equipe se deparou com uma fumaça muito intensa e tentou fazer combate, mas a reação aumentava cada vez mais.

“Como eles [bombeiros] não viram chamas, entramos em contato com o Centro de Toxicologia para identificar o que estava ocorrendo lá”, conta. César ainda ressalta que essa foi a primeira vez que a equipe teve que lidar com uma situação desta proporção.

“O nosso maior medo é que ocorresse uma explosão, o que por sorte não houve”, lembra.

Beirute e as lembranças

A explosão em Beirute, no Líbano, ocorreu nesta terça-feira (4), em um armazém próximo ao porto da cidade. Mais de 100 pessoas morreram e 4 mil ficaram feridas. A suspeita é de que cerca de 2.750 toneladas de nitrato de amônio tenham causado a explosão.

Uma situação semelhante à de São Francisco do Sul. Após análises do acidente, também foi constatado uma alta concentração de íons de nitrato de amônio e alto índice de salinidade na atmosfera local. Semelhanças que se juntam às lembranças que César.

“Quando as autoridades de Beirute passaram a divulgar que o acidente também foi com o nitrato de amônio, começou a bater esta memória do acidente”, conta.

Na época, cerca de 105 pessoas tiveram que ser atendidas no Hospital de São Francisco do Sul por conta da intoxicação com a fumaça. Além disso, um bombeiro teve que ser internado por conta da inalação dos gases.

O combate à fumaça demorou cerca de três dias. O município chegou a decretar situação de emergência.

Famílias tiveram que encontrar abrigo nas cidades vizinhas – Foto: Luciano Moraes/ND

Famílias foram indenizadas

Por conta dos estragos causados pela fumaça tóxica, a Justiça condenou as empresas envolvidas a promover a recuperação integral da área degradada. Além disso, foi estipulada indenização de 16 mil famílias atingidas pelo desastre ecológico, entre 2013 e 2020.

Em nota, Cláudio Santos, um dos proprietários da empresa, informou à equipe do nd+ que os produtos que causaram a fumaça de São Francisco do Sul e os da explosão de Beirute são completamente diferentes.

Segundo ele, os utilizados na cidade são aprovados pelo Ministério da Agricultura e a base de cloro, diferente da capital do Líbano, que é puro. O empresário também informou que as atividades na empresa são todas regulamentadas e não oferecem risco de explosão.

Sobre a degradação ambiental, ele disse que desde o primeiro ano a empresa tomou todas as medidas necessárias, com protocolos e laudos. Segundo o empresário, não houve degradação do meio-ambiente.

A respeito das indenizações, ele informou que menos de 10% das famílias ainda precisam receber o pagamento.

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Bombeiros