Missionários catarinenses retornam à Capital e relembram drama em Guiné-Bissau

Eles foram impedidos de voltar ao país depois de golpe de estado que fechou o tráfego aéreo

A tranquilidade, os sorrisos e a calma estampados na tarde deste domingo (22) nos olhares de Estela Mônica Gimenez Falcão Martins, 34, Isaac Martins, 40, e Eduardo Nicolau Soares, 36, contrastam com as histórias de angústia e tristeza que trouxeram da Guiné-Bissau, país situado na costa Oeste da África. Eles e outros sete missionários da igreja Assembleia de Deus, de São José, retornaram à Capital na noite de sábado (21), depois de uma semana de incertezas no país, surpreendido por um golpe militar no dia 12.

Ao lado dos filhos, familiares e amigos, os três contaram que foram bem tratados, não sofreram violência e não viram qualquer tipo de confronto – apenas queriam voltar logo para casa. Os missionários foram até o país africano levar roupas, mantimentos e dinheiro para a igreja local. “Nosso vôo estava marcado para a madrugada de segunda (16). Fomos até o aeroporto e estava tudo fechado. Os militares tinham proibido o tráfego aéreo. Não nos preocupamos no primeiro dia, mas à medida que os voos eram sucessivamente cancelados ficamos apreensivos”, contou Isaac.

A esposa dele, Estela, relatou que o clima era tranquilo nas ruas, mas que a miséria em que vive aquele povo cresceu ainda mais depois do golpe. “Tínhamos toque de recolher às 20h. Todo mundo ficava na igreja depois do culto e repartíamos o que a gente tinha para comer. Foi comovente. Fiquei admirada com a união”, contou. Convivendo com a realidade do povo, o grupo estudava uma forma de sair do país. Eles temiam novo golpe, de maiores proporções.

Depois de conversas, decidiram ir por terra até Dakar, no Senegal. “Havia rumores de guerrilhas em trechos que iríamos percorrer. Fiquei muito preocupada, e a gente tentava não demonstrar para os familiares aqui”, lembrou Estela. Para os três, o surgimento do voo horas antes da partida por terra foi um aviso divino. “Não era mesmo para termos ido. Quando estava dentro do avião eu, finalmente, liguei para minha mulher e avisei que estava indo. A gente não acreditava”, comentou Eduardo.

Débora Klempous/ND

Eduardo Nicolau Soares foi recebido pela mulher Tatiani de Lima Soares e as filhas Nicole e Maria Eduarda

Ajuda ao país deve continuar

Isaac olhava para o braço e lembrava com carinho das crianças que o abraçavam na Guiné-Bissau. “Eles são muito carentes, vulneráveis. Estamos em paz, mas o sofrimento lá continua, assim como a incerteza do amanhã”, relatou Estela, emocionada. Ela trabalhava com as crianças da igreja e ficou assustada com as condições de vida da população. De acordo com Eduardo, os moradores do país comem uma vez por dia, apenas arroz. O esgoto corre a céu aberto e banho é com água fria e só para quem tem condições financeiras. “Quando cheguei em casa e tomei banho no meu chuveiro, com água quente, foi muito bom”, brincou ele.

Para Isaac, a situação das meninas do país é a mais crítica. “Elas são vendidas por um saco de arroz ou vodca. Vamos ajudar a construir uma casa de abrigo para elas”, afirmou. Ele e Estela não têm intenção de voltar ao país, querem, no entanto, ajudar financeiramente. Mas Eduardo garantiu que vai esperar os problemas políticos esfriarem para retornar. “Quero rever aquelas pessoas. Eles agora fazem parte da nossa família. Quero poder ajudar”, concluiu, abraçado com a filha Maria Eduarda, 2.

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