Pedro de Queiroz

Direitos do consumidor e cidadania para o dia a dia das pessoas.


O “novo cangaço” e a falência do atual modelo de segurança pública

Ações de organizações criminosas, como a que ocorreu em Criciúma, se intensificaram a partir de 2018

Ações de organizações criminosas, como a que ocorreu na terça-feira (1) em Criciúma, no Sul do Estado, denominadas por especialistas como “Novo Cangaço”, se intensificaram a partir de 2018 e já foram registradas em todas as regiões do Brasil.

Imagem de policiais civis e militares com armas e na frente deles uma mala cheia de dinheiro.O “novo cangaço” e a falência do atual modelo de segurança pública – Foto: Guilherme Hahn/Ishoot/Estadão Conteúdo

A expressão é absolutamente infeliz. O cangaço era resposta de um grupo de pessoas pobres, marginalizadas, em região de seca e dominada pelo coronelismo, que contavam com alguma simpatia da população mais pobre.

Equiparar esses grupos criminosos ao bando de Lampião é acinte à memória do nordestino revolucionário. E, pior ainda, disfarça a origem desta nova modalidade de crime, decorrente da falência do atual modelo de segurança pública.

Fácil reconhecer onde se associam as facções criminosas: nos presídios e penitenciárias, com farta mão de obra ociosa em uma das maiores populações carcerárias do mundo. Quase todos ligados ao “tráfico de drogas”, onde a maconha é a mais recorrente.

Portanto, é o Estado – e nossos impostos – que financiam essa verdadeira universidade do crime. Assim como é o Estado que se mantém silente ao enfrentamento direto da fonte principal dos recursos financeiros desses grupos: a problemática da descriminalização das drogas e a percepção desse problema como afeito à saúde pública.

Objetos encontrados em casa supostamente utilizada pelos envolvidos no assalto em Criciúma – Foto: PMSCObjetos encontrados em casa supostamente utilizada pelos envolvidos no assalto em Criciúma – Foto: PMSC

Pergunte a algum traficante se ele é a favor da descriminalização! Ele provavelmente responderá com um tiro fatal. A quem, afinal, interessa relegar à marginalidade algo que o poder público poderia controlar e arrecadar impostos?

A famosa “Lei Seca” americana é o mais claro exemplo de como o crime organizado se desenvolve a partir de mercados determinados como ilícitos pelo poder público. Por sorte, a prostituição não é crime no Brasil e o jogo do bicho não é sequer mais combatido por tratar-se de mera contravenção!

Em países em que a prostituição é proibida e combatida, o crime organizado e a disputa pelo mercado do sexo é quase sempre o mais violento de todos. No Rio de Janeiro, o jogo do bicho originou as primeiras facções. Algo que se dissolveu durante a legalização dos bingos.

A legalização dos jogos e, em especial, a descriminalização das drogas, a um só tempo, reduzirá drasticamente a oferta de mão de obra à criminalidade e alijará tais organizações de seu maior ativo financeiro. Infelizmente, a política brasileira tem mais sucesso em extinguir empregos e empresas formais com sua farta burocracia e ânsia arrecadatória do que enfrentar a descriminalização. Enquanto isso, seremos todos reféns, cedo ou tarde, deste “novo cangaço”.

E por falar em coronelismo

Enquanto as páginas policiais nos oprimem com as estatísticas da violência, não podemos deixar de mencionar que a maior de todas as organizações criminosas é formada pelos velhos coronéis representados pelos políticos corruptos e grandes corporações corruptoras.

A estes ainda lhes serve a impunidade, o tráfico de influência e a conveniência da demora da Justiça. Florianópolis tem na Operação Moeda Verde dezenas desses exemplos, onde condenados se beneficiam pela prescrição punitiva do Estado. Não ostentam as páginas policiais; sorriem com a certeza de que a Justiça não lhes alcança.

Esses “Novos Coronéis”, preferem mesmo as colunas sociais. Seus crimes são de lesa pátria, subtraem investimentos essenciais em segurança e educação, perpetuando esse “novo cangaço”. Culpa desses “novos Coronéis”!