O que fazer quando uma criança presencia violência dentro de casa

Somente em Chapecó, de janeiro a agosto deste ano, foram registradas 2.903 denúncias de violência doméstica. Crianças que convivem em ambientes violentos sofrem traumas que podem perdurar a vida toda

A violência doméstica afeta não apenas as mulheres, mas todas as pessoas do círculo familiar, especialmente os filhos pequenos. Dois casos de feminicídio, em que as mães foram mortas pelos companheiros na frentes das filhas chamaram a atenção no Oeste de Santa Catarina.

A jovem Gisele Ramos, moradora de Xaxim, teve sua vida abreviada aos 24 anos, com um tiro na cabeça, dentro da própria casa. O assassino foi o companheiro da jovem, de 37 anos, que foi preso, no dia 7 de agosto, no interior de São Lourenço do Oeste e encaminhado ao Presídio Regional de Xanxerê, onde permanece à disposição da Justiça.  

Não bastasse a brutalidade do crime, a filha do casal de apenas 4 anos foi encontrada ao lado do corpo da mãe. O Conselho Tutelar de Xaxim informou que a menina está bem e sendo acompanhada. Outras informações sobre a criança são sigilosas. 

Violência doméstica – Foto: Marcos Santos/USP Imagens/Divulgação/ND

Um mês depois, em 30 de agosto, Patrícia Fernandes, 19 anos, moradora de Xanxerê, também no Oeste, foi assassinada dentro de casa. Ela foi morta a facadas. O ex-namorado é o principal suspeito.

A filha da vítima, de 4 anos, foi encontrada escondida dentro do quarto. A pequena ficou aos cuidados do Conselho Tutelar, que não repassou mais informações sobre a atual situação da criança em respeito ao sigilo judicial.

Na ocasião, o irmão e a cunhada de Patrícia também foram agredidos e precisaram de atendimento médico. Ambos receberam alta hospitalar e prestaram depoimento à Polícia Civil. O ex-companheiro e outras duas pessoas suspeitas foram ouvidas. A investigação do caso segue em aberto e, segundo o delegado responsável, Vinícius Iunes, deve ser concluído antes do prazo de 30 dias.

Traumas 

Viver em um ambiente seguro e livre de violência é um direito garantido pelo ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e, mais do que isso, é um dever do Estado. Porém, essa não é a realidade enfrentada por muitas crianças que vivem em ambientes conturbados de violência.

Embora, muitas vezes, as crianças não sejam o alvo das agressões, elas acabam expostas às mais variadas situações e sofrem com os traumas provocados por presenciarem a violência.

Crianças que vivem em ambiente ameaçador tendem a ter vários problemas de desenvolvimento. Segundo Bárbara Almeida da Silva, especialista em psicologia clínica, a principal emoção que fica evidente nesses casos é o medo.

“Isso pode ser demonstrado na escola com o medo do desconhecido, por exemplo. Geralmente, elas têm problemas de falta de auto-confiança, medo de conflitos e de tentar coisas novas”, explica. 

A psicóloga Bárbara Almeida da Silva fala dos traumas carregados por crianças que convivem com a violência – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Além de conviver com o medo, a criança que presencia a violência pode criar a fantasia de que ela é responsável pelo que está acontecendo de errado no ambiente familiar.

“Alguns chegam a acreditar que podem salvar a situação e reestabelecer a harmonia da casa. Colocam-se como a solução para o problema que a mãe está enfrentando”, afirmou a psicóloga.

“Essa é uma carga muito grande para lidar e faz com que a criança viva em ambiguidade. Ao mesmo tempo em que a família é uma referência social, também traz dor. Essa situação pode prevalecer por muito tempo se não for tratada”, completou Bárbara.

De acordo com a psicóloga, as crianças não têm uma linguagem bem desenvolvida e demonstram o que estão vivendo em desenhos, por exemplo.

Além disso, criam comportamentos como o de tentar salvar a mãe que está sendo abusada.

“Se essa criança não for ouvida, isso vai se cronificando e ela passa a se anular. No futuro, provavelmente, terá dificuldade de fazer escolhas por si própria, terá medo de ser abandonada, de destruir a família e de que a violência seja repetida. Não saberá como se defender de uma forma adequada”, apontou.

Reflexos em relações futuras

A vivência em um lar violento pode levar a pessoa a escolher relacionamentos também violentos ou abusivos no futuro por uma repetição de comportamento até mesmo inconsciente.

“As necessidade de amor continuarão ao longo da vida e serão sempre incoerentes com o modelo de família que a criança conhece. Isso pode levá-la a procurar relações que não são saudáveis”, destacou Bárbara. 

Sinais

Alguns dos possíveis sinais que indicam que algo não vai bem com a criança são a queda no rendimento escolar, dificuldade de socialização e reprodução da violência com irmãos e colegas, uma vez que a criança passa a entender que o corpo do outro pode ser violado.

“É preciso educar as famílias de que a violência não é um modo de resolução de conflitos. É importante trabalhar com as crianças para que entendam que as pessoas sentem raiva, mas que jamais podem violentar o outro”, sugeriu Bárbara.

A psicóloga orienta as famílias a procurarem novas possibilidades de resolver conflitos, promovendo uma cultura de paz e respeito com relação ao outro. 

Pandemia prejudica denúncia

Somente em Chapecó, a maior cidade da região Oeste, de janeiro a agosto deste ano, foram registradas 2.903 denúncias de violência doméstica. O número, no entanto, é 12,6% inferior ao que foi contabilizado no mesmo período do ano anterior – 3.322 casos.

Para o delegado José Airton Stang, da Dpcami (Delegacia da Criança, Adolescente, Mulher e Idoso da Polícia Civil) de Chapecó, a pandemia pode ter contribuído para a redução dos números, o que não quer dizer que a violência tenha reduzido. 

“Isso se dá em decorrência do isolamento social e da suspensão de eventos públicos, onde ocorria o foco de embriaguez e consumo de drogas, situações que potencializam casos de violência doméstica. Com a redução desses eventos, ocorreu também um menor número de situações de violência”, avaliou. 

Delegado da DPCAMI de Chapecó, José Airton Stange – Foto: Reprodução/NDTV

Ameaça é o crime campeão de denúncia

A maioria dos registros de violência doméstica em Chapecó foi por ameaça (1.396), seguida de lesão corporal leve (651), injúria (249), vias de fato (153), dano (102), descumprimento de medida protetiva (120) e difamação (72). 

Boa parte das ocorrências foi registrada no período noturno (37,64%). Os dias da semana em que as violências mais ocorreram foram no domingo (20,92%) e no sábado (16,43%). Os dados da Polícia Civil indicam ainda que uma parcela considerável das vítimas tinha entre 25 a 34 anos (26,94%).

Denúncia pela internet

Ao mesmo tempo em que a circulação ficou restrita e, consequentemente, as mulheres precisaram conviver mais tempo com seus companheiros dentro de casa, canais virtuais de denúncia foram criados para facilitar o pedido de ajuda.

Uma das opções é a Delegacia da Mulher Virtual em que a vítima registra o boletim de ocorrência de onde estiver, desde que tenha acesso à internet.

Abrigo

O delegado Stang reforça ainda que em casos de risco, é possível encaminhar a vítima para um abrigo. Os filhos também podem ser incluídos no abrigamento.

“É uma forma de preservação da integridade física e da vida dela e dos filhos. Os números estão diminuindo e isso demonstra a efetividade das medidas protetivas. Acabar com a violência contra mulher ainda é uma utopia, mas estamos trabalhando para que haja uma gradativa redução dos índices”.

Crianças em situação de violência

Uma das possibilidades de acolhimento para as crianças é viabilizada pelo Conselho Tutelar. Entre janeiro a abril deste ano, os conselhos de Chapecó registraram 803 situações de direitos violados.

Nesses casos, cabe aos conselheiros atender e aconselhar os pais ou responsáveis. A partir do atendimento, o profissional aplica medidas de proteção.

Conselheira Tutelar Eliane Saugo fala da importância do aconselhamento às famílias. – Foto: Arquivo Pessoal/ND

De acordo com a conselheira Eliane Saugo, as denúncias são acompanhadas caso a caso e incluem orientações aos familiares.

“Nós não aplicamos medidas judiciais, mas aconselhamos, acompanhamos com visitas domiciliares e encaminhamos para a rede de atendimento”, explicou.

Quando as crianças são expostas a situações de violência, por exemplo, o acolhimento ocorre somente em casos extremos”, completou.

O acolhimento da criança em abrigo é a última opção, uma vez que o órgão procura uma alternativa dentro da família.  

Além do Conselho Tutelar, outras entidades atuam na defesa dos direitos das crianças e adolescentes, como o CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), o CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) e o CAPSI (Centro de Atendimento Psicológico).

Conselheiras do Conselho Tutelar Sul de Chapecó Eliane Saugo, Adriele Bentz Pereira, Camila Campagnaro e Giovana Sanches, fazem o acompanhamento e aconselhamento das famílias. – Foto: Caroline Figueiredo/ND

Canais de denúncia

Além da Delegacia da Mulher Virtual, outros canais estão disponíveis para denúncia. Confira:

  • 190 Polícia Militar
  • 180 Central de Atendimento à Mulher
  • 197 Disque Denúncia
  • Ouvidoria do Ministério Público e da Defensoria Pública
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