As investidas contra as universidades e a política de desmonte do Estado

Operações policiais midiáticas voltaram à cena após a tragédia da Ouvidos Moucos: objetivo é desestabilizar as instituições para justificar privatizações

Há uma convicção crescente, entre professores e servidores da UFSC (e de outras universidades federais), de que as investidas policiais sistemáticas têm o objetivo deliberado de desestabilizar as instituições, preparando o terreno para que, num futuro próximo, possam ser privatizadas – e a preço de banana, como o governo fez com o pré-sal e deve fazer com o Banco do Brasil.

“Ou nós reagimos ou eles (governantes) vão nos atropelar”, disse-me nesta sexta (8) uma professora com 15 anos de UFSC. O problema está na reação, que tem sido complexa na universidade catarinense. Não houve nenhum tipo de mobilização, de solidariedade, após a Operação Ouvidos Moucos. Quando ocorreu, era tarde demais: o reitor Luiz Cancellier havia morrido tragicamente em consequência da humilhação pública a que foi submetido.

A Sessão Fúnebre do Conselho Universitário, em 3 de outubro, e a “Aula pública contra o Estado de exceção – Resistência ao abuso de poder e ao fascismo”, no dia 27 de novembro, foram exceções nesse contexto de relativa apatia que se abateu sobre o campus da Trindade. Não há, nem mesmo entre os estudantes, um clima de defesa da instituição, atacada duas vezes este ano por operações policiais – a primeira, desastrada, em setembro; a segunda, mais discreta, na quinta-feira (7).

Admitindo-se que existam suspeitas relativas a fraudes, desvios e outras irregularidades, qual o universo humano que esses supostos fatos investigados abrange? A UFSC tem mais de 2.600 professores e mais de 3 mil servidores. Supondo-se que 100 professores e 50 técnicos possam estar sendo investigados, quanto isso representa do total de pessoal? Nem 2%. Mas o marketing das operações da Polícia Federal passa a falsa ideia de que a instituição inteira está comprometida com supostos malfeitos.

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Ainda sobre reações, a midiática operação da PF contra a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), na quarta-feira (6), foi amplamente repudiada pelos alunos, professores e servidores. E ainda pelo compositor João Bosco, autor, com Aldir Blanc, dos versos de “O Bêbado e a Equilibrista”. Da música, a PF tirou a expressão “Esperança Equilibrista” para batizar a barulhenta e ridícula operação de guerra, num tom de deboche contra o projeto investigado, o Memorial da Anistia.

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Por que o corpo acadêmico da UFMG reagiu e o da UFSC não, após a Ouvidos Moucos e a nova operação, a Torre de Marfim? Há inúmeros pontos a debater. Um dos quais relacionado ao poder de mobilização que as entidades da UFSC não têm mais. A Apfusc, histórica e combativa entidade representativa dos professores, transformou-se numa associação burocrática e assistencialista. O DCE (Diretório Central dos Estudantes), também de papel histórico relevante, parece envolto numa atmosfera de perplexidade ou paralisia política. Resta o Sintufsc, que representa os servidores, ainda combativo, mas que não se articula sozinho.

Outro ponto a considerar, que me foi observado por uma servidora antiga, é que a renovação do corpo docente chegou a 50% nos últimos anos, com esses novos professores empenhados em construir suas carreiras, grande parte deles sem qualquer paixão pela imagem da UFSC, referência nacional e internacional em ciência, pesquisa, ensino e extensão.

Um terceiro ponto: há na comunidade uma convicção velada de que as operações midiáticas da PF têm fundamento legal, mesmo que as invasões abusivas ameacem a autonomia universitária garantida pela Constituição de 1988 e os direitos e garantias individuais assegurados pela mesma Carta.

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Um passo importante para superação da crise interna é a eleição do novo reitor, que vai ocorrer no primeiro trimestre de 2018. As chapas começam a se organizar e, dependendo de quem vencer, a UFSC pode recuperar o bom astral que tinha até poucos anos atrás. Essa, pelo menos, é a esperança da massa crítica que resiste à truculência do Estado.

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