Como homens romperam o ciclo da violência doméstica em Santa Catarina

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Especialistas defendem que ações de conscientização são mais eficazes do que punição. Participantes de grupo no Estado não apresentaram reincidência agressiva

“Vai impedir que eu cometa novamente”.

“Hoje sou uma pessoa mais calma”.

“Tudo pode ser mudado: opiniões e ações”.

Estes são relatos de homens que conseguiram romper com o ciclo da violência doméstica em Santa Catarina através do diálogo e da reflexão.

Eles faziam parte da triste estatística da violência contra a mulher que, segundo dados do Tribunal de Justiça do Estado, somavam 37.739 processos em andamento neste âmbito até outubro de 2020.

Mas a postura de buscar ajuda os beneficiou não apenas no ambiente familiar, mas também no convívio deles em sociedade.

Grupos de homens, espalhados por todo o país, busca mudar os comportamentos agressivos – Foto: Divulgacão/JusCatarina/NDGrupos de homens, espalhados por todo o país, busca mudar os comportamentos agressivos – Foto: Divulgacão/JusCatarina/ND

São inúmeros os fatores que podem levar homens a agredirem esposas, namoradas e companheiras, conforme a psicóloga da Dpcami (Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso) de Joinville, Márcia Maria.

Entre os apontados por Márcia está a cultura enraizada no sexismo e no machismo, além de práticas discriminatórias que reforçam a ideia de dependência das mulheres dos homens.

“Crianças criadas em ambientes nocivos, por famílias imprevisíveis, abusivas, distantes, frias ou excessivamente permissivas, podem ter prejuízos em áreas específicas do cérebro e não conseguem se relacionar com sensibilidade com as pessoas”, explica a psicóloga.

Porém ela ressalta que homens que cometem violência – seja ela física ou psicológica – não necessariamente possuem danos cerebrais. “Mas os que têm esse tipo de comportamento podem ter tido prejuízo e isso precisa ser considerado”, destaca.

A discussão sobre agressão doméstica, que engloba também mães, tias, avós e filhas, já que atinge toda a convivência familiar, tem conquistado espaço na sociedade. Surge, então, a questão: é possível mudar o comportamento do agressor?

No Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência Contra as Mulheres, neste domingo (6), o ND+ traz iniciativas que buscam, por meio da conscientização, mudar a postura de homens agressivos e encorajá-los a pensar sobre os motivos que os fazem violentos.

Só a lei não é suficiente para transformar

Violência contra a mulher: todo ato que resulte em dano físico, psicológico, sexual e patrimonial, e que tenha por motivação principal o gênero. Os autores são, em sua maioria, os próprios companheiros das vítimas.

Para amparar essas mulheres, em agosto de 2006 foi implantada a lei nº 11.340, mais conhecida como Lei Maria da Penha, que criou mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica.

Conforme a legislação, o agressor pode receber pena de seis meses a três anos de prisão ao praticar atos de violência física, psicológica, sexual, patrimonial ou moral.

Porém, para a promotora de justiça Iara Klock Campos, que atuou por cerca de três anos em casos dessa natureza, a punição nem sempre é suficiente para fazer com que eles deixem de praticar violência contra mulheres.

“Eu via que os homens iam às audiências, mas não havia aquela transformação. Percebia que continuavam com a mesma postura ou iam para outras companheiras e praticavam a mesma violência. Eu vivia um sentimento de frustração, pois via que era muito empenho e dedicação para não surtir efeito”, relata. 

Ao questionar as vítimas sobre os processos, muitas respondiam que queriam apenas que os companheiros repensassem suas atitudes e mudassem o comportamento.

Foi a partir dessas vivências que a promotora de justiça teve a iniciativa de criar o Grupo Reflexivo de Gênero, em Tubarão, no Sul do Estado. O propósito do coletivo é despertar consciência de gênero em autores de violência doméstica.

Como identificar um relacionamento abusivo

Não é só a violência física que caracteriza um relacionamento abusivo. Também existem diversos outros sinais que apontam que aquela relação não é saudável. As informações são do site Não era amor

  • Abuso emocional ou psicológico: faz com que a vítima sinta que deixou de ser ela mesma e peça desculpar por algo que não fez. Este tipo de abuso pode acontecer de forma explícita ou sútil, que dificulta sua percepção;
  • Abuso Físico: apesar da pessoa nunca ter te batido, esse tipo de abuso se enquadra quando ele puxa seu braço, belisca ou usa da força física para “te acalmar”. Isto também pode ser caracterizado quando ele desconta a raiva batendo em mesas, portas e paredes, fazendo ameaças de que a próxima será você;
  • Abuso Sexual: este tipo de abuso não acontece apenas quando há o estupro. Ele também está presente quando você se sente forçada a fazer algo que não quer por meio de chantagens, ameaças, força física, manipulações e mentiras;
  • Abuso financeiro: ele é caracterizado quando o parceiro te controla por meio de presentes e dinheiro, deixando a pessoa dependente daquilo. Outro sinal é quando ele controla gastos e manipula a pessoa através do dinheiro;
  • Abuso Patrimonial: ocorre quando o homem não deixa a mulher trabalhar, oculta bens e até destrói objetos e documentos;
  • Abuso Tecnológico: este tipo de abuso vai desde o controle das redes sociais da pessoa até a insistência em obter senhas, ver conversas, curtidas e amizades. Além disso, também há a disseminação de fotos, vídeos e mensagens íntimas e/ou constrangedoras da parceira sem consentimento, ameaças e insultos nas redes sociais.

É importante que as mulheres (e homens) fiquem atentos aos sinais que identificam estes tipos de relacionamento abusivo. O site tem na informação a ferramenta de mudança e libertação das vítimas, uma vez que os sinais de abuso podem ser sutis e de difícil identificação.

Confira abaixo sinais de que você pode ser vítima de um relacionamento abusivo. Aos homens, atenção ao padrão de comportamento:

Quadro indica sinais de que a pessoa está em um relacionamento abusivo – Foto: Luana Amorim/DivulgaçãoQuadro indica sinais de que a pessoa está em um relacionamento abusivo – Foto: Luana Amorim/Divulgação

Olhar para dentro de si

O principal objetivo do projeto em Tubarão é promover a conscientização, autorresponsabilização e ressocialização de homens e mulheres envolvidos em processos de violência doméstica. Para montar o grupo, Iara levou em conta referências de outras ações no país.

Ao todo, são dez encontros que ocorrem uma vez por semana, no período da noite, em uma universidade no município, longe das salas frias e fechadas dos fóruns.

“Apesar de parecer algo imposto a eles, já no início a gente esclarece que a presença é voluntária, o desejo de reflexão é que deveria fazê-los estar ali”, salienta. 

O primeiro grupo começou em 2018 e, até o ano passado, foram mais duas turmas. Cada encontro é conduzido por facilitadores capacitados em comunicação não violenta e justiça restaurativa. São realizadas dinâmicas de reflexão sobre as atitudes agressivas praticadas pelos participantes.

“O objetivo era provocar um questionamento sobre comunicação, relacionamentos, necessidades, sentimentos, masculinidade e outros temas relevantes que eles próprios levantavam no grupo. Ou seja, a ideia era proporcionar um olhar interno”, explica a promotora.

Iara enfatiza, ainda, que nas reuniões a equipe evita usar os termos “agressor” e “vítima”, para não estigmatizar os participantes.

“No início havia resistência dos homens em participar. Mas depois, com o passar dos encontros, eles iam gostando e não queriam perder mais nenhum”, conta.

Ao fim das reuniões, o Ministério Público segue acompanhando os casos para checar possíveis novos processos de agressão contra mulher envolvendo os integrantes. O resultado é impressionante: dos 29 participantes, nenhum teve reincidência.

A transformação já é perceptível imediatamente ao fim do projeto, quando eles são convidados a responder um questionário com suas impressões sobre o projeto.

“É incrível o quanto eles saem transformados, com uma nova visão de mundo. Tanto que não voltam a reincidir. Então, a gente percebe que essa mudança é efetiva. Por isso é tão importante trabalhar com reflexão, além da punição”, reforça a promotora.

Em Joinville, encontro parecido é promovido pela DPCAMI – Foto: Divulgação/NDEm Joinville, encontro parecido é promovido pela DPCAMI – Foto: Divulgação/ND

Em Joinville, passos para a resiliência

Em Joinville, no Norte do Estado, um programa semelhante é disponibilizado a homens que apresentam padrão violento. Batizado como “Passos para resiliência: um olhar sobre o homem autor de violência doméstica”, o projeto coordenado pela Polícia Civil também tem na reflexão sua principal arma contra a violência de gênero.

A estratégia é conscientizar – por meio do diálogo, táticas cognitivas comportamentais e linguagem audiovisual – sobre as diferenças demarcadas na sociedade do que cabe ao masculino e ao feminino.

O grupo foi idealizado em 2015, mas passou a ser coordenado pela Dpcampi em 2017. Nele, os homens são encaminhados para participar de dez encontros, uma vez por semana, dentro da solicitação de medida protetiva. Ao todo, 35 pessoas já integraram o projeto.

“Durante as práticas promovidas em grupo, foi possível verificar alterações nas cognições e nos comportamentos. Ao fim dos encontros, ficou constatado, ao contatarmos as mulheres que denunciaram, que os homens pararam de persegui-las, de forçar reconciliações ou de resolver os conflitos de maneira privada”, enfatiza a psicóloga Márcia Maria, coordenadora do projeto.

Em Florianópolis, grupo de homens se reúne todo mês para discutir as formas de relacionamento – Foto: Gustavo Paitch/Divulgação/NDEm Florianópolis, grupo de homens se reúne todo mês para discutir as formas de relacionamento – Foto: Gustavo Paitch/Divulgação/ND

“Eu traía e achava normal”

“Eu traía e achava normal. Verbalmente, eu não tratava minha companheira de uma forma legal”.

É assim que Alex Ulhua Silva, de 31 anos, define seu antigo padrão de comportamento em relacionamentos afetivos. Foi em uma roda de conversa com outros homens que ele mudou sua percepção e passou a enxergar seus pares “de uma forma diferente”.

Ele é um dos integrantes do grupo Jornada Solar, iniciativa do escritor Juliano Poeta, de Florianópolis. Criado no fim do ano passado, o espaço é destinado a homens que queiram expressar seus sentimentos, livres de julgamentos.

“Em 2013, eu comecei a frequentar grupos de homens em que falávamos sobre assuntos que iam além de esportes. Foi onde conheci o co-criador do grupo e pusemos em prática a ideia de abrir um espaço seguro para que homens pudessem expressar suas emoções”, conta.

Do encontro veio a intenção de publicar um livro para ajudá-los nessa trajetória. Alinhada às reuniões, que ocorrem a cada 15 dias de forma online, a publicação ajuda os participantes a entrarem em uma jornada de autoconhecimento.

“Na publicação a gente traz um tema cada vez que o sol muda de signo. Tem um tópico relacionado à raiva, por exemplo, em que a gente trabalha essa emoção, tanto no livro, quanto na roda, para que o homem reflita a respeito e troque informações”, explica Juliano.

Encontros acontecem a cada 15 dias de forma online – Foto: Jornada Solar/DivulgaçãoEncontros acontecem a cada 15 dias de forma online – Foto: Jornada Solar/Divulgação

Alex conheceu o grupo através da namorada, após relatar que não se sentia bem com as próprias condutas. Por alguns meses, ele sentiu resistência em participar, mas agora percebe o quanto isso o ajudou no processo de transformação.

“Depois de buscar esse conhecimento, percebi como eu era tóxico. O grupo se conecta muito porque a gente sabe que a realidade fora dali não é a mesma. Hoje eu sei lidar muito melhor, não só com as pessoas, mas comigo mesmo”, finaliza Alex.

No Brasil, ao menos 311 iniciativas reúnem homens para discutir a violência doméstica

Segundo um mapeamento realizado por docentes da área de Psicologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), atualmente existem 311 iniciativas no Brasil que reúnem homens autores de violência contra a mulher que buscam entender a necessidade de reinserção no ambiente familiar.

Santa Catarina aparece como o terceiro estado com mais projetos do tipo: 31, ficando atrás apenas do Paraná (50) e do Rio Grande do Sul (45).

Passo relevante no processo de conscientização coletiva sobre o tema, em abril deste ano foi sancionada – e adicionada à Lei Maria da Penha – a norma que determina que agressores de mulheres podem ser obrigados a frequentar centros de reeducação e receber acompanhamento psicossocial.

“Notamos que, durante as investigações, o ciclo de violência em que se encontravam agressor e vítima permanecia o mesmo, quando não se agrava por conta da denúncia. Então, quando a gente inclui o comparecimento do agressor a esses grupos, já conseguimos interromper essa trajetória nas relações”, enfatiza João Luiz de Carvalho Botega, promotor do Nupia (Núcleo de Incentivo Permanente à Autocomposição) do Ministério Público de Santa Catarina. 

Violência contra a mulher também é tratada nas escolas em SC

A educação é apontada pelos especialistas como uma das principais ferramentas para coibir a violência contra a mulher. E o assunto está em pauta nas escolas da rede estadual de Santa Catarina, segundo o governo do Estado.

De acordo com a coordenadora da Educação de Direitos Humanos e Diversidade da Secretaria de Estado da Educação, Rosimari Koch Martins, as abordagens sobre a prática fazem parte do currículo escolar dos estudantes e buscam promover o respeito, diálogo e a empatia.

“O que a gente faz é prevenir e formar crianças para o exercício da cidadania, rompendo esses comportamentos rudes e machistas. Também temos trabalhado junto com a justiça para dar um basta na violência contra a mulher nas escolas”, diz.

As unidades também têm parcerias com o projeto Por Elas na Escola, da Polícia Civil, que visa trabalhar o tema por meio de atividades, rodas de conversa e palestras, além da implantação da campanha Agosto Lilás, em que o tema é discutido.