Dois anos sem Vitor: trauma marca família de jovem morto por PM em Florianópolis

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Enquanto caso segue sem júri devido à pandemia, família enfrenta consequências psicológicas e financeiras da morte do jovem no quintal de casa

Dois anos após a morte, falar de Vitor Henrique Xavier é difícil para a mãe Maria Vilma e a irmã Vivian Silva. Há pouco tempo elas tocam no assunto sem chorar.

A morte do jovem de 19 anos pela Polícia Militar em Florianópolis desestruturou a família. Com o processo judicial parado na pandemia, até hoje elas afirmam que não tiveram atenção das autoridades.

Enquanto o assunto cala, a casa no bairro Ingleses é memória viva da tarde de 18 de abril de 2019. Foi naquele quintal de brita que Vitor sentou em um pufe roxo e atirava em latinhas de cerveja com uma arma de pressão, quando foi surpreendido por dois policiais. O policial Guilherme Palhano disparou cinco vezes e quatro tiros acertaram Vitor.

Trauma e desamparo marcam família de jovem morto por PM de FlorianópolisVivian e Vitor vieram para Florianópolis apostando em uma vida melhor – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Guilherme Palhano e Hébert Rezende – o outro policial que acompanhava o autor dos disparos, afirmam que foram acionados por transeuntes e teriam confundido o brinquedo com uma pistola de verdade. Eles alegam que os disparos teriam sido feitos após Vitor apontar a arma para eles.

Para a irmã Vivian, a morte foi resultado de uma abordagem equivocada – os policiais usavam balaclava e já chegaram atirando, segundo ela.

Durante o episódio, a mãe estava trabalhando. A irmã tinha 21 anos na época e presenciou a morte. A dor e o trauma a impediram de trabalhar por cerca de um ano. Com o dinheiro da rescisão do trabalho como saladeira, pagou a terapia que se estendeu por 15 meses.

“Nesse tempo eu ficava deitada, tomando calmante para ficar aérea e não acreditar naquilo que vi. Hoje ainda sou muito fechada e calada. Eu não era assim”, desabafa a jovem, hoje com 23 anos.

Ela e o irmão sempre estiveram juntos, desde crianças. Seis anos antes da morte de Vitor, eles deixaram a casa do pai em Ilhéus, na Bahia, para morar com a mãe em Florianópolis. Apostavam em uma vida melhor por aqui. O sonho do jovem era fazer parte do Exército, gostava de rap e tinha admiração especial pelo rapper Djonga.

A cozinheira Maria Vilma, mãe da vítima, precisou se manter firme e segurar as pontas nos meses após a morte de Vitor. A ficha foi caindo pouco a pouco. Já Vivian passou uma semana afastada com uma tia. Não conseguia voltar para casa pelo trauma. Depois retornou e precisou “cair na real”, assumindo todos os trâmites do velório e à frente como testemunha do caso.

Guilherme Palhano também enfrentou a depressão. Na época, o soldado se afastou provisoriamente do 21º BPM (Batalhão de Polícia Militar). Ele morava na mesma rua da família – não há indícios, até então, que apontem que Vitor e ele já se conheciam -, mas mudou-se após o caso.

Os dois policiais continuam trabalhando na corporação. O inquérito militar entendeu que a ação foi “amparada pela excludente de legítima defesa putativa” – quando o autor age em legítima defesa pensando que a ameaça é real (no caso, achando que o jovem estava armado com uma pistola de verdade).

Em janeiro de 2020, o caso passou a tramitar na Vara do Tribunal do Júri da Capital. Àquela altura, os policiais haviam sido denunciados pelo Ministério Público por homicídio doloso. A Justiça colheu depoimentos das testemunhas de acusação – Vivian, vizinhos, Ministério Público e familiares.

Processo paralisou na pandemia

Em maio, seria a vez das testemunhas de defesa. Por causa da pandemia, a audiência foi adiada para setembro, depois para janeiro de 2021 e agora está marcada para o início de dezembro- mas depende da possibilidade de ser realizada presencialmente, informa o advogado da família, Diogenes Telles.

Como o primeiro julgamento foi presencial, é necessário que o segundo siga o mesmo rito, garantindo a ‘equidade’ no processo, conforme a Justiça. Após a fase instrutória, o juiz Emerson Feller Bertemes pode acolher a tese de homicídio doloso, levando o caso a júri popular. Ou decidir que o homicídio foi culposo – sem intenção.

Jovem tinha o sonho de entrar no Exército e era apaixonado por rap – Foto: RICTV/ReproduçãoJovem tinha o sonho de entrar no Exército e era apaixonado por rap – Foto: RICTV/Reprodução

Enquanto o processo não tem desfecho, não há decisão quanto à indenização para a família. O único amparo recebido  foi quando o Cras (Centro de Referência de Assistência Social) arcou com as despesas do enterro de Vitor, sepultado provisoriamente no Cemitério São Cristóvão, no bairro Estreito.

Vácuo do Estado preenchido pela igreja

“Nada mais de efetivo foi feito”, conta a irmã. O vácuo aberto pelo Estado precisou ser preenchido pela família e pela igreja Assembleia de Deus, da qual Maria Vilma é devota. A igreja ajudou com as baixas sofridas pela falta da renda de Vitor e o desemprego da irmã. Hoje, Vivian já conseguiu retomar o trabalho.

A família também ficou mais próxima. Uma tia mora na casa de Vivian e Maria Vilma desde a morte do jovem. “Hoje temos mais almoço em família, ligamos mais para saber se está tudo bem e damos mais bom dia”, conta Vivian. A lembrança dos dois anos da morte de Vitor Henrique será celebrada na igreja.

Apoio depende de julgamento, afirma PM

A reportagem do ND+ procurou a PMSC (Polícia Militar de Santa Catarina), que informou que cabe à corporação “apurar apenas os assuntos que lhe são cabíveis e de relação direta aos atos da corporação. Dessa forma, não existe esse tipo de programa assistencial para civis que não estejam ligados à instituição”.

A questão deve ser definida “após o julgamento de tal ação de acordo com os ditames da Justiça, no que ela melhor julgar”, continua a corporação. A SSP (Secretaria de Segurança Pública) também não tem programa para atender famílias vítimas de ações letais da polícia.

Em 2019, outras 73 pessoas morreram durante intervenções policiais em Santa Catarina. O número subiu para 79 em 2020.

Os advogados André Rodrigues e Claudio Gastão da Rosa Filho, que defendem Palhano e Rezende, respectivamente, ressaltam que aguardam a sessão marcada para novembro. Para Rodrigues, “tudo se encaminha para o reconhecimento da legítima defesa”. Os “autos não permitem responsabilizar criminalmente o policial”, finaliza Gastão.