“Ele tirou tudo o que a gente tinha”, diz vítima de corretor de Joinville

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Novas vítimas do suposto golpe imobiliário denunciam corretor de Joinville; confira as histórias contadas pelas vítimas e como o corretor agia

Um golpe que pode chegar a R$ 10 milhões se todas as ações na esfera cível forem julgadas procedentes. Após o Grupo ND apurar e divulgar o suposto golpe imobiliário aplicado pelo corretor de imóveis Nilton Weber em Joinville, dezenas de outras vítimas procuraram o Portal ND+ e a NDTV para dizer que também foram vítimas deste mesmo corretor.

corretor nilton weber, que foi indiciado por estelionatoNilton Weber em 2019, época em que alugou uma igreja. Polícia Civil já o indiciou por estelionato – Foto: internet/Divulgação ND

Grupos de Whatsapp chegaram a ser criados com mais de 30 vítimas de Nilton Weber, que tinha duas empresas em seu nome: a Weber Imóveis e a Só Geminados. Hoje, nenhuma existe mais em Joinville.

Ao conversar com as vítimas, é possível identificar que o perfil que Nilton procurava para dar o golpe era de pessoas mais idosas e vulneráveis. E, na maioria das vezes, o modus operandi era o mesmo: ele chegava com uma conversa de boa vizinhança, se intitulava pastor (até igreja alugou) e convencia a pessoa a permutar seu terreno em troca de um geminado. Contrato de intenção de compra e venda era feito, reconhecimento de firma, idas ao cartório, tudo para dar “credibilidade” ao negócio.

Os terrenos eram passados para o nome de Nilton, que começava a construir os geminados, mas nunca terminava nem passava a escritura para o nome da pessoa que entregou o terreno até simplesmente fugir. Às vezes, Nilton até vendia o terreno para outra pessoa. Outras, nem sequer começava a construir os geminados.

“Ia enrolando as vítimas com lábia. Ele exercia muita persuasão. Até rezar ao lado da cama da vítima (já doente) ele rezava”, contou o filho de uma das vítimas.

No Tribunal de Justiça, há 64 processos contra Nilton Weber. Mas, segundo as vítimas que o Portal ND+ conversou muita gente foi lesada e acabou não procurando a Justiça por não conhecer os caminhos. Então, o número de vítimas do suspeito de estelionato pode chegar a 100 ou até mais.

corretor nilton weber estelionatárioTribunal de Justiça de Santa Catarina.
corretor nilton weberNilton Weber em 19/05/19 na igreja que alugou em Joinville. –  Foto: Divulgação ND

Relato das vítimas

O filho de uma senhora que morava no bairro Aventureiro entrou em contato com o Grupo ND  para denunciar Nilton Weber. Conta que em 2016 uma vizinha de sua mãe, que também fora vítima, havia aceitado uma negociação de permuta da casa dela com Nilton porque ele se apresentou como corretor e dono de construtora.

Como Nilton fechou negócio com a vizinha ela acabou indicando e comentando sobre o negócio com sua mãe. Na época, ela tinha uma casa grande, mas antiga, que precisava de algumas reformas.

A senhora, então, acertou com Nilton que iria passar o terreno e a casa em troca de um geminado novinho que ele havia prometido. Durante a negociação, conta o filho, Nilton informou que teria de demolir a casa da mãe. Outro filho, então, que tinha um terreno disponível acabou oferecendo a área, que também ficava no bairro Aventureiro, para Nilton no lugar da casa da mãe. E a casa da mãe passaria, então, para o filho que deu o terreno.

Nilton, então, pegou uma procuração e duas semanas depois vendeu o terreno por R$ 200 quando valia mais do que isso, segundo o filho (era avaliado em R$ 280 mil). Ao ser questionado a respeito da venda do terreno, Nilton teria informado que decidiu construir em outro terreno mais próximo porque assim ficaria melhor para ela. A senhora se convenceu e esperou.

A vítima, então, assinou o contrato de permuta com Nilton em setembro de 2016. O prazo de entrega do geminado na rua Antônio Pedro Marcelino era 2018. Quando chegou 2018, a senhora procurou Nilton e foi até o local prometido da obra. Não havia nada lá. Nilton, então, disse que o prazo de entrega seria até o fim de 2018. Mais uma vez, o corretor conseguiu convencer a vítima, que foi para casa esperançosa de que no final de 2018 teria o tão sonhado geminado.

Foto: reprodução documentosFoto: reprodução documentos

Em novembro de 2018, a senhora procurou novamente Nilton para informá-lo de que não havia obra nenhuma no terreno prometido. Ele, então, alegou que havia questões de documentação do terreno, que ainda estaria aguardando a papelada ficar pronta na Prefeitura.

Nesse período, a família procurou o proprietário do terreno onde Nilton havia prometido construir o geminado e descobriu que o corretor nunca havia dado entrada em documentação nenhuma de construção na prefeitura.

Depois disso, Nilton desapareceu. A família tentou contato e em duas ocasiões conseguiu falar com Nilton, que prometeu, mais uma vez, entregar uma casa que já estaria quase pronta, porém isso nunca aconteceu, nunca apresentou imóvel nem endereço.

A família, então, se flagrou que havia caído em um golpe. Em julho de 2019, ingressou com ação cível conta Nilton Weber.  Até hoje, no entanto, a Justiça não conseguiu intimar o suspeito de estelionato Nilton Weber. A família também registrou um Boletim de Ocorrência na Polícia Civil como mostra o documento abaixo.

A senhora entrou em depressão. Ficou sem a casa, porque teve de passar para o filho e hoje está morando de aluguel.

“Acabou com a vida da minha mãe, que se isolou e está vivendo de aluguel”, lamenta um dos filhos.

A família entrou na Justiça, mas até hoje o oficial de Justiça não conseguiu localizar Nilton Weber para notificá-lo.

vítima do corretor de imóveisRua Antônio Pedro Marcelino, 26, local em que Nilton prometeu construir o geminado – Foto: Divulgação ND

“Pegou empréstimo, adoeceu”

Outra vítima é um senhor, hoje com 63 anos, que morava em sua casa, quitada na rua Cidade de Nagazaki, 74, bairro Santa Catarina. Ele queria trocar sua casa por um imóvel mais novo. Isso foi em 2019. Foi então que conheceu Nilton, que exerceu grande persuasão e conseguiu firmar mais um negócio fraudulento.

Nesta época, o corretor era conhecido como “pastor Nilton” porque havia comprado uma igreja. Nilton mostrou vários geminados para a vítima, entre eles um na rua Professor Clemens Schmidt, 210. O senhor gostou, mas ele estava inacabado, inabitável porque faltava todos os acabamentos, portas, muita coisa.

Mas como Nilton prometeu acabar e entregar o geminado 100%, o senhor passou sua casa e seu terreno para Nilton. Foi feita a intenção de compra e venda no cartório. Rapidamente, Nilton vendeu a casa para outra pessoa e já passou para o nome desta. A família, porém, ainda estava morando dentro da casa e Nilton prometeu bancar o aluguel até que o geminado ficasse pronto. Ocorre que Nilton pagou apenas seis meses e depois não pagou mais o aluguel.

A dona da casa, em seu direito, passou a exigir o imóvel. Cartas de advogado começaram a chegar cobrando a casa. “Meu pai adoeceu, entrou em depressão. Chegou a fazer um empréstimo para terminar o geminado na Clemens Schmidt”, contou o filho da vítima William Ribeiro da Silva.

Em um dos encontros com Nilton, já com o pai doente, o suspeito de estelionato chegou a rezar ao lado da cama. “Pessoas vulneráveis e ele continuava enganando”, emendou William.

Em 2020, a família se mudou para o geminado ainda inacabado para poder “garantir o bem” que havia permutado. No entanto, até hoje não há escritura do imóvel e o terreno continua no nome de Nilton Weber.

A família agora espera que a Justiça reconheça o golpe e determine que o geminado seja transferido para o nome do senhor, bem como o terreno onde há seis geminados seja desmembrado e retirado do nome do suspeito de estelionato.

Esses seis geminados, aliás, foram construídos em cima de um terreno de outro senhor enganado. Ele deu o terreno na rua Clemens Schmidt para Nilton em troca de dois geminados. Até hoje, está sem os geminados e a área cedida.

geminados inacabados vítimas do corretor de imóveisBairro Floresta, na Rua Clemens Schimidt – Foto: Carlos Júnior/Divulgação ND

“Nos tirou o único bem, nos deixou na rua e meu marido doente”

“Nilton tirou o único bem que nós tínhamos, construído com tantos anos de trabalho. Ficou com tudo, não fez os geminados, nos deixou na rua, meu marido ficou doente de cama”, relata, ainda muito indignada, a esposa de outra vítima.

A negociação começou em 2016. A vítima tinha uma casa e um terreno na rua Rua Alois Finder, no bairro Aventureiro. Nilton entrou em contato com a vítima querendo permutar o terreno por um geminado. Ele prometeu custear o inventário da casa e averbação.

Na hora de passar a casa e o terreno para o nome do Nilton, o advogado dele disse que, primeiro, a família iria receber um valor – R$ 153 mil – e só depois seria feito um segundo contrato onde a família teria direito a um geminado no bairro Iririú. A vítima, então, assinou na boa fé, confiando na palavra do advogado de Nilton Weber.

Nesse meio tempo, Nilton se prontificou a pagar o aluguel da família até que o suposto geminado ficasse pronto. Ele pagou por quase um ano. Aí, começou a atrasar os alugueis e a dona do imóvel começou a cobrar.

Em uma conversa na imobiliária, Nilton disse que ia providenciar o aluguel, o contrato. “Mas nunca vimos a cor desse segundo contrato, ele só enrolava, dizia que estava com alguns problemas na Prefeitura, mas que iria resolver, mas nunca resolveu e sumiu do mapa”, conta o filho da vítima Joel Augusto de Souza.

Nem tampouco os R$ 153 mil a família diz ter recebido. Após perder totalmente o contato com Nilton Weber – contatos foram bloqueados no Whatsapp-, a família acabou tendo de se mudar novamente.

Com o pai já bastante doente, muito por causa do desgosto do golpe que havia sofrido, a família teve de se dedicar a cuidar dele.

“Não tivemos mais forças mais para correr atrás de Nilton Weber. Ficamos cuidando do nosso pai, que, infelizmente, faleceu em outubro de 2021.

“O pai só tinha uma casa e Nilton arrancou isso dele”, esbraveja Joel Augusto de Souza, que hoje divide um apartamento com o irmão.

A esposa da vítima está morando na casa da mãe. Até hoje, nem ela nem os filhos conseguem superar o golpe.

Ficou devendo e não entregou geminado pronto

Em outro caso, Nilton Weber negociou, entre 2018 e 2019, um terreno no bairro Jardim Iririú. Em troca, iria dar para o dono do terreno um geminado no bairro Bucarein. Eles foram então ao cartório e fizeram um contrato de intenção de compra e venda.

Naquele momento, o dono do terreno lembra que, sem saber ao certo o que estava fazendo, assinou uma procuração passando para Nilton o poder de venda do terreno, o que acabou acontecendo. No entanto, segundo a vítima, o geminado do Bucarein nunca foi entrega. De tanto pressionar, Nilton prometeu dar um geminado finalizado na rua Clemens Schmidt e devolver uma diferença em dinheiro, que, segundo a vítima, era de R$ 70 mil.

Como o suspeito de estelionato não cumpriu a promessa, a vítima terminou o geminado da Clemens Schmidt com recursos próprios e foi morar dentro. Mas alega que nunca recebeu do Nilton os R$ 70 mil. De tão desgastada com essa história, a vítima prefere não se identificar. Ainda sem escritura, a vítima, agora, tenta, junto com outros vizinhos, formalizar a documentação dos geminados.

Maioria dos imóveis só na fundação

A reportagem  do ND+ teve acesso a uma lista de imóveis em que Nilton Weber seria o negociador. A maioria das obras não está executada e a informação que a reportagem recebeu das vítimas é de que ele começava a fundação apenas para “enganar” e conseguir mais dinheiro.

golpe de corretorBairro Bucarein, Rua Maranhão, 102 – Foto: Carlos Júnior/Divulgação ND

Quem é Nilton Weber e onde está?

Recentemente, Nilton Weber apareceu nas redes sociais se apresentando como Coaching, mas excluiu as páginas logo após a primeira reportagem ir ao ar. O paradeiro de Nilton hoje é desconhecido.

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Contraponto

Nilton Weber foi procurado insistentemente pela reportagem, mas não retornou às ligações nem às mensagens.

ND+ conversou com um dos últimos advogados que atuou com Nilton Weber.

“Trabalhei para ele em duas ou três ações. Um antigo advogado me transferiu umas 40 ações. Mas não recebi pelos trabalhos que fiz e logo renunciei. Não é o tipo de cliente que quero manter no escritório”, afirmou o advogado que preferiu não se identificar.

Na primeira reportagem sobre o caso, exibida no dia 28/04/2022, a reportagem conseguiu falar com o advogado Carlos Artur Erbs Sada, que defendia Nilton Weber em 2010 em um caso de estelionato. Ele confirmou que acompanhou o cliente durante o inquérito, mas cerca de três meses depois o escritório de advocacia rescindiu o contrato com Nilton Weber por falta de pagamento.