Ex-marido simula suicídio e polícia descobre crime bárbaro em SC

Iraci de Almeida Nogueira, de 57 anos, morreu com pauladas na cabeça e teve seu corpo arrastado pelo ex-companheiro até o rio Uruguai, em Palmitos, no Oeste de Santa Catarina

A morte de Iraci de Almeida Nogueira, de 57 anos, no município de Palmitos, no Oeste Catarinense, teve um desfecho surpreendente revelado nesta sexta-feira (28) pela DIC (Divisão de Investigação Criminal) da PC (Polícia Civil). O corpo da aposentada foi encontrado boiando e preso em vegetações no rio Uruguai na quinta-feira, dia 13 de janeiro de 2022, por volta das 22h30.

Homem arrastou o corpo de Iraci até o rio Uruguai — Foto: Polícia Civil/Divulgação/NDHomem arrastou o corpo de Iraci até o rio Uruguai — Foto: Polícia Civil/Divulgação/ND

Inicialmente, o caso foi registrado pela polícia como suicídio após o falso relato do ex-companheiro da mulher — a única testemunha do fato — e por conta da dificuldade da Polícia Científica em periciar o corpo diante do estado de decomposição.

Em depoimento à polícia, com bastante frieza, o homem mentiu que a aposentada estava depressiva e que ela decidiu tirar a própria vida, pulando em um barranco às margens do rio onde foi encontrada pelos policiais, já sem vida, pouco tempo depois. O corpo foi retirado do rio pelo Corpo de Bombeiros Militar com auxílio de um barco na mesma noite do crime.

Depois de intenso trabalho de investigação das delegacias de Palmitos e Maravilha, análise do local do crime, coleta de depoimentos de diversas pessoas e exames periciais, principalmente o necroscópico, a polícia concluiu com convicção que a morte de  Iraci de Almeida foi causada de forma brutal pelo ex-companheiro. O homem de 50 anos, natural do Paraná, foi preso preventivamente na manhã desta sexta-feira, 10 dias após o crime. Ele morava na região há quase 30 anos.

“Descobrimos que, na verdade, o fato não teria sido um suicídio e sim um homicídio com múltiplas qualificadoras. As investigações demonstraram que o ex-companheiro da vítima praticou o crime mediante um golpe com violência na cabeça da mulher utilizando um pedaço de madeira. Depois arrastou o corpo até às margens do rio e jogou na água”, detalhou o delegado da Polícia Civil, Rodrigo Moura, responsável pela investigação. O corpo de Iraci flutuou por alguns metros na parte rasa do rio e ficou preso na vegetação do local.

A Polícia Científica também constatou indícios de asfixia no corpo da mulher. Entretanto, a polícia acredita que ela morreu em razão da forte pancada no lado direito da cabeça, que causou lesão cerebral.  “O exame pericial constatou que a vítima não morreu em virtude de um afogamento, pois em seus pulmões não foram encontradas grandes quantidades de água, o que se deve justamente ao fato de ela ter sido jogada na água já totalmente incapacitada e sem possibilidade de resistir. Nesta condição de extrema fraqueza, o corpo sequer conseguiu realizar os movimentos necessários à respiração, o que também causou sinais de asfixia”, completou.

Local do crime, onde a vítima foi atingida pelo golpe na cabeça — Vídeo: Polícia Civil/Divulgação/ND

Há indícios de que a mulher até tentou se defender com uma das mãos, mas teve alguns dedos parcialmente amputados com a violência e uma aliança amassada. “Ficou bastante claro nas investigações que ela ficou desacordada após o golpe na cabeça e depois foi arrastada até às margens do rio sofrendo várias lesões corporais na parte da frente do corpo”, acrescentou Moura.

O que motivou tanta brutalidade?

A investigação apurou que o casal havia recentemente se separado e que o ex-companheiro dela não aceitava o fim do relacionamento. O homem já havia agredido e ameaçado Iraci de morte em outras ocasiões, mas ela optou por não registrar nenhum desses fatos, segundo informações da polícia.

Homem foi preso nesta sexta-feira no Oeste de Santa Catarina – Foto: Polícia Civil/Divulgação/NDHomem foi preso nesta sexta-feira no Oeste de Santa Catarina – Foto: Polícia Civil/Divulgação/ND

“Inclusive, conforme testemunhas ouvidas, o agressor chegou a afirmar explicitamente em uma dessas ocasiões que mataria a mulher com uma paulada na cabeça e jogaria seu corpo no rio”, contou o delegado.

Os dois trabalhavam em um camping às margens do rio Uruguai, uma região turística e conhecida pela abundância de águas termais e espaços para recreação.

Iraci de Almeida, natural de Rodeio Bonito (RS), foi agricultora por boa parte da vida e estava aposentada, mas ainda trabalhava como zeladora do camping com o ex-marido. Ela deixou filhos e um neto, do qual possuía a guarda e era a única responsável.

O homem confessou o crime à polícia e foi levado ao Presídio Regional de Chapecó.

Crimes em SC

Só neste início de 2022, oito mulheres foram vítimas de feminicídio em Santa Catarina.  Um caso recente foi registrado na quarta-feira (26), em Jaraguá do Sul, no Norte do Estado. Um homem de 54 anos foi preso após assumir ter cometido o assassinato por ciúmes da vítima de 43 anos.

Patrícia Zimmermann, delegada e coordenadora das DPCAMIs (Delegacias de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso de SC) afirma que os casos registrados neste ano apontam para crimes envolvendo mulheres em situação de violência doméstica e familiar, que é o caso da mulher morta por um companheiro, pelo filho ou até mesmo pelo neto.

“É uma questão que precisamos tratar na sociedade. Não existe amor numa relação que termina com a morte de outra pessoa. A morte de uma mulher numa dessas condições é um crime bárbaro. É um crime de ódio. É um crime em que o autor demonstra uma periculosidade muito grande, que ele mata a pessoa que está ao seu lado”, disse.

Ainda conforme a coordenadora das DPCAMIs, o número de casos deste ano já superou o registrado no mesmo período em 2021. Um índice que considerou preocupante, uma vez que entre 2020 e 2021 a tendência era de queda no número de casos.

A delegada ainda reforçou a importância dos canais de denúncia de violência contra a mulher: “O Estado precisa chegar antes. Existem mecanismos de Estado, sejam grupos reflexivos para homens autores de violência, medidas protetivas de urgência, a avaliação de risco que é feita no atendimento dessa mulher. Mas nós precisamos que a mulher comunique o Estado, que ela faça a denúncia.”

Além da própria mulher, a denúncia de violência pode ser feita por familiares e amigos. “Se você é um parente próximo ou algum amigo que tem conhecimento dessa situação de violência, ligue para o 181, mande uma mensagem pro número de Whatsapp que é (48) 9-8844-0011, que a Polícia Civil vai chegar até essa mulher. Quando o Estado intervém nos atos anteriores, a estatística não demonstra esses crimes transformando-se em feminicídio”, disse a delegada.

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