Guia contra o assédio: a diferença entre o assédio sexual e a paquera no Carnaval

Criado em parceria com diversos movimentos, #CarnavalSemAssédio – Para você não ser um canalha nesse Carnaval tem criado discussão na internet

“Na próxima vez que estiver em uma situação de risco, observe: do seu lado pode estar outra mulher passando pela mesma insegurança. Que tal irem juntas?”. Esta frase pertence ao movimento contra o assédio sexual, “Vamos juntas”, criado no Rio Grande do Sul. 

Assédio sexual foi um dos assuntos em destaque no ano de 2015. Ele veio à tona por meio de redes sociais, campanhas e movimentos, como o Chega de Fiufiu, Sai Pra Lá e o #PrimeiroAssédio, que mostravam mulheres se movimentando para dar um basta nas atitudes machistas com seus corpos. Foi motivo de discussão também ao ser tema da redação do Enem de 2015: “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. Com o Carnaval, as roupas curtas e a bebida alcoólica na cabeça, a maioria das mulheres sabe que é quase impossível fugir de uma “gracinha” masculina.

Inclusive, uma parceria entre a revista “AzMina”, o Catraca Livre, os movimentos #AgoraÉQueSãoElas, “Vamos Juntas?” e “Bloco das Mulheres Rodadas”, criou um guia que busca mostrar às mulheres e homens a diferença entre paquera e assédio – este, que ilustramos em parte nesta página. Ai vem o questionamento e a discussão: afinal, qual é o limite?

Rosane Lima/ND

Cris Isaia, Sofia Cardoso e Andrea Viana, do grupo “Vamos Juntas à Praia?”

Para a florianopolitana Sofia Cardoso, 26, uma das criadoras do movimento “Vamos juntas à praia?”, inspirado no “Vamos juntas?”, do Rio Grande do Sul, o limite deve ser imposto por cada um. “A partir do momento em que a pessoa não se sente bem, não está correspondendo e que é ofensivo, passa a ser assédio”, diz. O movimento foi criado em outubro de 2015 e tem 660 mulheres em um grupo secreto do Facebook e mais um grupo de Whatsapp. A ação incentiva que elas se unam para se deslocar por ruas escuras, ao descer de um ônibus à noite, em festas, e porque não para ir à praia? “A gente se sente mais segura em saber que quem está ali do nosso lado no ponto de ônibus ou andando atrás da gente, por exemplo, é uma mulher, e não um homem. Pelo simples fato que sabemos que não temos direitos iguais e, por isso, nos sentimos ameaçadas”, explica Sofia. 

O grupo afirma que diversas histórias de assédio, estupro, cantada e nudismo acontecem na cidade. “Aqui [Florianópolis], principalmente fora da temporada, as praias não são muito frequentadas, e acaba acontecendo isso. A maioria deles [homens] não tem noção de que essas atitudes são ofensivas, e que nos sentimos acuadas ”, pontua.

De acordo com a delegada Patrícia Maria Zimermann D’Ávila, da coordenadoria estadual da Delegacia de Proteção a Criança, Adolescente, Mulher e Idoso, há estatísticas quanto ao assédio e estupro na Grande Florianópolis, o problema é que a maioria das pessoas que o sofrem não registram Boletim de Ocorrência, e isso dificulta todo o trabalho da delegacia, e deixa a estatística vaga. Segundo a Polícia Civil, só em 2015 foram 120 registros de assédio sexual, 52 de estupro a mulher, 48 a adolescente, 88 contra criança e cinco contra homens. “É importantíssimo que a vítima registre o BO, só assim poderemos ter o controle de quem e onde acontecem os crimes. Denúncias anônimas acabam não entrando nas estatísticas, por isso é importante o registro nominal”, garante a delegada Patrícia.  

Apesar de toda a união das mulheres com o movimento na Capital do Estado, que por fim tem ampliado o grupo de amizade, elas deixam claro que sabem que isso não é certo, que todas as mulheres têm o direito de ir e vir sozinhas, com a roupa que quiserem e por onde desejarem. E terem ainda a sua liberdade e individualidade e serem respeitadas.

O movimento em Florianópolis vai além das praias, e sugere que as mulheres tenham um olhar diferente à próxima fazendo a diferença, empoderando o gênero, já que o judiciário, e principalmente, a questão cultural, não colaboram para a mudança na sociedade. O grupo “Vamos juntas à praia?” se mobiliza ainda a incentivar mulheres que sofreram assédio a denunciarem à polícia, e até acompanham algumas que sentem medo ou vergonha de ir a uma delegacia e relatar o fato. 

É assédio ou paquera? 

Outro caso bem divulgado nas redes sociais foi o post “Se quiser saber se sua saia está curta, veja esta foto”. Na imagem, uma nova-iorquina diz que foi assediada na rua, quando um homem passou por ela e elogiou suas pernas. O detalhe é que na foto ela aparece de casaco longo, legging e botas de cano alto, e apenas um palmo de suas pernas podem ser vistas. E ela finalizou: “A próxima vez que você quiser saber se a saia está muito curta, a próxima vez que você pedir à sua filha adolescente para trocar de roupa ou a próxima vez que você ouvir sobre regras de vestimenta em colégios nos jornais, lembre-se desta foto. Eu estava com uma droga de uma parka e botas. E isso não importa.” 

Pensando no Carnaval, e que de fato, a roupa é apenas uma tendência a um assédio, não necessariamente o motivo, a revista AzMina, fez um guia bem-humorado para a campanha #CarnavalSemAssédio – Para você não ser um canalha nesse Carnaval.  Nele, foram colocadas frases de paquera versus frases de assédio, para que as mulheres vejam bem a diferença entre uma situação e outra. Nos comentários nas redes sociais, o guia causou discussão, onde homens concordavam e discordavam de certas frases e mulheres opinavam se aquilo era ou não extrapolar os limites. Mas para Nana Queiroz, diretora executiva da revista, é bem fácil discernir. “As mulheres não precisam verbalizar o não, mas se ela se afasta, desvia o rosto e o olhar ou simplesmente parece não dar a mínima pra você, é porque ela não quer. O bom do Carnaval é que tem muita gente aí querendo paquerar: parte para a próxima com muito respeito”, afirma.

A revista AzMina nasceu em 2014, quando Nana conheceu os resultados da pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), “Tolerância social à violência contra as mulheres”, que concluiu que, para 26% dos brasileiros, mulheres que mostram o corpo merecem ser atacadas. Indignada, ela foi até o Congresso Nacional, tirou a camisa e escreveu no corpo “Eu Não Mereço Ser Estuprada”, usando a nudez política para simbolizar que, mesmo sem roupa, as mulheres merecem dignidade e proteção contra a violência sexual. 

No ano seguinte ela criou a Associação AzMina de Jornalismo Investigativo, Cultura e Empoderamento Feminino. Foi por meio dela que nasceram as campanhas de conscientização e diálogo com a grande mídia, como a #AssédioNoTrabalho e #CarnavalSemAssédio, além de apoiar e reverberar campanhas como #MeuAmigoSecreto, #PrimeiroAssédio. 

Para Sofia, do “Vamos juntas à praia?”, que é passista de uma das escolas de samba de Florianópolis, o Carnaval realmente é uma situação delicada. “Tem uma campanha da youtuber Jout Jout Prazer, chamada “Vamos fazer um escândalo”, que eu acho uma ótima opção. Os caras continuam fazendo porque a gente fica com vergonha após ser assediada, mas eu grito, aponto, e o cara fica surpreso porque está sendo exposto, e ele nunca imaginava isso”, sugere ela, além de andar em grupos e cuidar uma das outras. Outra opção que pode funcionar, que já é de grande utilidade em alguns bairros do Sul da Ilha para segurança pública pelo projeto Vizinho Solidário, é o apito Fox 40 (utilizado por árbitros), indica Andrea Viana, 40, também do “Vamos juntas à praia?”.

Atitude primitiva 

Manuela Tecchio, 21, estudante de jornalismo da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), e integrante do Coletivo de Jornalismo Sem Machismo, esteve em alta em julho de 2015 quando lançou a música “A louca”, na internet. Nela, Manuela relata o machismo sofrido pelas mulheres diariamente – inclusive ao frequentar uma mesa de bar. A música foi reproduzida mais de 123 mil vezes no aplicativo Soundclound.

Para a estudante, no Carnaval, as pessoas tem a impressão que tudo perde as regras e o código de conduta. “Mesmo no Carnaval, na rua, tem que manter o bom senso e todas as pessoas merecem respeito”, diz. Apesar das movimentações nas redes sociais sobre assédio sexual, Manuela acha que é pouco, e que já passamos da fase de conscientizar por trás de uma tela de computador. “Só essa conscientização não resolve mais. Não somos civilizado, somos muito primitivos, e acredito que só com um posicionamento de órgãos públicos, com punições reais a esses casos e investimento no assunto teremos mudanças”, afirma ela. 

Já a jornalista paulista Juliana de Faria, do projeto Chega de Fiu Fiu, criou em 2013 o movimento para levantar dados sobre como a mulher se sente com o assédio que sofre nas ruas. Por meio de pesquisa on-line sobre, feita pela jornalista Karin Hueck com 7.762 mulheres, 99% delas já sofreram algum tipo de assédio sexual ao longo da vida, enquanto 83% delas disseram não gostar desse tipo de interação, e sentem medo. Além disso, a pesquisa mostrou também que 90% delas já trocaram de roupa pensando no lugar que iriam por medo do assédio. Para o mesmo projeto, em março de 2014 foi lançado o mapa Chega de Fiu Fiu, para mapear os pontos mais críticos do Brasil inteiro por meio de denúncias. No mapa, em Florianópolis, há cerca de 50 registros de assédio físico, verbal e estupro. 

Página contra abuso sexual vira livro 

O “Vamos juntas?” do Rio Grande do Sul, que serviu de inspiração para as mulheres de Florianópolis, foi criado por Babi Souza, 25, de Porto Alegre, em julho do ano passado, e vai ser lançado como livro no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. O movimento surgiu quando Babi saia do trabalho mais tarde do que o normal, e se sentiu ameaçada. “O medo do homem na rua é que levem seus pertences, e o medo da mulher é que levem elas mesmas ou a sua dignidade”, diz.

A página no Facebook, que hoje tem mais de 290 mil curtidas, teve crescimento orgânico e nacional. Nunca foi uma ação focada exclusivamente na capital gaúcha, segundo Babi. Tanto que em primeiro lugar nas curtidas da página estão São Paulo e Rio de Janeiro, e apenas 1% das curtidas são masculinas. “Muitos, eu acho, não entendem do que se trata esse medo que as mulheres sentem em estarem sozinhas na rua. Sempre tem uma ala machista nos comentários sobre o assunto no Facebook contra o movimento. Eles me atacam afirmando que o “Vamos juntas?” diz que todos os homens são estupradores, e não entendem a ideia de sororidade [irmandade entre as mulheres]”, explica Babi. 

O livro “Vamos juntas? – O guia da sororidade entre as mulheres”, vem para tentar desconstruir a ideia de que as mulheres são rivais. “Mesmo que não sejamos, isso está naturalizado na cultura, e nós precisamos ver a próxima de outra forma”, conta a criadora da obra.

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