Historiador explica aumento de manifestações nazistas em SC após ato em Florianópolis

Recente caso de homem flagrado com bandeira nazista na Capital não teve indiciamento por parte da polícia; historiador acredita em "falhas no ensino"

O mais recente caso de apologia ao nazismo em Santa Catarina, flagrado no início de maio, em um vídeo que mostra um homem balançando a bandeira com a suástica em um apartamento na avenida Beira-Mar Norte, em Florianópolis, é um registro que tem se tornado cada vez mais corriqueiro no Estado.

Para o professor de história da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) João Klug, que trabalha com o assunto há mais de 40 anos, é perceptível que o assunto tem se tornado mais frequente de um curto tempo para cá.

Homem é visto em janela com bandeira nazista – Foto: Divulgação/NDHomem é visto em janela com bandeira nazista – Foto: Divulgação/ND

Não tem sido difícil encontrar casos relacionados ao nazismo em Santa Catarina. Os registros marcantes vão da suástica desenhada em uma piscina de um candidato a vereador a casos de agressões homofóbicas ou racistas por grupos.

Um estudo realizado pela antropóloga Adriana Dias, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), indica que Santa Catarina é o segundo Estado do país com mais grupos neonazistas, sendo 69 células ativas.

Onda neofascista e impunidade

Segundo Klug, a alta quantidade de manifestações e movimentos neonazistas em território catarinense – e seu eventual aumento nos últimos anos – tem com base múltiplos fatores. Um deles é a ligação desse crescimento a uma onda que ocorre em todo o mundo desde a metade da última década.

“O que eu percebo é que tem acontecido com muito mais frequência que um tempo atrás, e estou associando isso a uma visão de impunidade em relação a manifestações, atitudes violentas a imigrantes e homofobia”, explica o historiador. “É uma marca que tem acontecido em manifestações de extrema-direita no mundo todo”, diz.

Partido de SC expulsou candidato a vereador conhecido por suástica nazista na piscina – Foto: Arquivo/Reprodução/TV RecordPartido de SC expulsou candidato a vereador conhecido por suástica nazista na piscina – Foto: Arquivo/Reprodução/TV Record

Segundo ele, os casos encorajam outros grupos a se manifestar, e a impunidade dá ainda mais combustível. “Vem no reboque da onda da violência de uma forma geral”.

Klug ainda detalha a mudança de percepção do público em relação a quem pratica tais atos nazistas. “Esse pessoal não ficou assim, eles eram assim e a gente não sabia. E agora eles sentem uma liberdade em se expressar. Essas coisas são crimes, mas nada acontece”, afirma.

Inquérito encerrado

O inquérito que tratou do homem flagrado com a bandeira nazista em Florianópolis foi concluído pela Polícia Civil e encaminhado ao MPSC (Ministério Público de Santa Catarina). Não houve indiciamentos ao acusado, o que provocou manifestações nas redes sociais e duras críticas ao que seria mais um caso de impunidade.

“A lei está dando espaço, [esses casos] se repetem pela falta de uma punição que seja exemplar. O indivíduo faz e sabe que a impunidade está aí. É uma punição ridícula e que prolifera, acaba virando um modismo de alguns desequilibrados”, complementa João Klug. “Duvido que essas pessoas estejam em plena sanidade das faculdades mentais”.

Procurado pela reportagem do ND+, o MPSC esclareceu que “é muito cedo para falar em impunidade”. O órgão recebeu o inquérito no dia 19 de maio e tem até 30 dias para decidir denunciar o homem ou arquivar o caso.

“A polícia já marcou uma data para o acusado prestar depoimento. Todo o inquérito ainda está em fase de análise, e o processo ainda está em sigilo a pedido da polícia”, disse o MPSC.

A Polícia Civil não retornou ao contato até o fechamento desta matéria.

Ideia de superioridade branca: falhas no ensino?

“Vejo uma ideia de superioridade da raça branca, usada no caso dos alemães. Isso faz parte do senso comum, a imigração alemã é marcada pelo sucesso”, pondera o historiador da UFSC. “Eu estudo esse assunto há 41 anos e percebo uma falha ao ensinar história. Criou-se um estereótipo”.

Ofensas recebidas por jovem de 24 anos incluíram ataques homofóbicos e nazistas – Foto: Telegram/ReproduçãoOfensas recebidas por jovem de 24 anos incluíram ataques homofóbicos e nazistas – Foto: Telegram/Reprodução

João Klug entende que há um conceito enraizado que indica que os brancos, mais especificamente os alemães, são mais desenvolvidos que outras raças. Esse ponto acaba refletindo na sociedade até hoje. “Por que só se fala no sucesso da imigração alemã, e não nos fracassos?”, questiona.

Além disso, Klug ressalta que manifestações de apoio ao nazismo retratam casos de desconhecimento e até problemas mentais. “Esse tipo de manifestação, na minha visão, é um caso psiquiátrico. Arriscaria dizer que 90% desse pessoal não conhece o nazismo”.

Santa Catarina e o nazismo

Apesar de estar longe dos Estados mais populosos do Brasil, Santa Catarina está atrás apenas de São Paulo – o mais habitado – entre os que mais acumulam células nazistas ativas. Isso traz um alerta e questionamentos sobre o que motiva tantas manifestações extremistas na região.

“A colonização favorece. Existe essa noção de superioridade do imigrante alemão, onde o diferente não é bem visto, e culturalmente há alguns elementos. Por outro lado, há manifestações culturais alemãs, e muitas vezes esse pessoal também é visto como nazista, e não tem nada a ver com manifestação politica”, detalha João Klug.

A quantidade de atos nesse sentido pode criar um estigma extremamente nocivo para todo o Estado. Com cada repercussão na internet, o historiador enxerga um alerta para uma conotação pejorativa generalizada para o povo catarinense. “Isso pode ser péssimo para o Estado em vários sentidos”.

Participe do grupo e receba as principais notícias
da Grande Florianópolis na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os
termos de uso e privacidade do WhatsApp.
+

Polícia

Loading...