Inquérito da Operação Ave de Rapina aponta indícios de outros crimes em Florianópolis

Há suspeita de crime eleitoral entre as irregularidades cometidas por indiciados

A operação Ave de Rapina, deflagrada em 12 de novembro, encerrou oficialmente na última quinta-feira. No total, 15 pessoas chegaram a ser presas, 26 foram indiciadas na primeira fase e 24 – incluindo 14 vereadores – também foram denunciadas no encerramento do terceiro inquérito oriundo da operação. Além das três linhas de investigação distintas – a Polícia Federal apurou irregularidades envolvendo o projeto de lei Cidade Limpa, a operação dos radares através do Ipuf (Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis) e fraudes em licitação na Fundação Franklin Cascaes – outros inquéritos surgiram a partir de indícios encontrados no decorrer da coleta de informações.

O ND teve acesso ao inquérito que resultou na deflagração da operação e localizou trechos que levantam suspeita de crime eleitoral entre as irregularidades cometidas por indiciados. Além disso, a reportagem acessou um inquérito que corre à parte e que investiga lavagem de dinheiro.

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Segundo o delegado da PF Allan Dias, que conduziu a Operação Ave de Rapina, inquéritos continuam em andamento, desmembrados da operação original. Ele não descarta, no entanto, que o MP-SC (Ministério Público de Santa Catarina) já possa oferecer denúncia aos suspeitos de lavagem de dinheiro quando denunciar os acusados nos três inquéritos que compõem a Ave de Rapina, já que na documentação o MP-SC tem acesso a informações desse crime. O Ministério Público deve ofertar amanhã as denúncias à Justiça dos dois primeiros inquéritos.

Dias não adianta quantos inquéritos foram abertos a partir da Ave de Rapina para averiguar crimes que não eram alvo da operação, mas confirma que atingem as áreas eleitorais e da Fazenda e serão distribuídos a outros delegados a partir de agora. “A investigação policial tem que ter foco. Não adianta ser realizado um trabalho perfeito na sede policial que não tenha futura condenação na esfera penal”, explicou o delegado.

Provas contra lavagem de dinheiro 

A Polícia Federal, antes mesmo de conseguir autorização da Justiça para executar a operação Ave de Rapina, já tinha provas contra os envolvidos em crimes de lavagem de dinheiro. Este inquérito, que corre separado da operação, deverá ser concluído a partir da quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados e das informações reunidas durante a primeira fase da investigação. Os diálogos mais contundentes apontam para a tentativa dos ex-diretores de Operações do Ipuf (Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis) Júlio Pereira Machado, o Júlio Caju, e Adriano João de Melo, esconderem as propinas recebidas das empresas por meio da compra de apartamentos. Segundo os documentos, Júlio Caju e Melo teriam comprado três imóveis, sendo um deles em sociedade. Os advogados de Júlio e de Melo foram procurados, mas disseram não ter conhecimento da compra de apartamentos e não comentaram a denúncia.

O vereador Marcos Aurélio Espíndola, o Badeko (PSD), preso desde o dia 12 de novembro, também é suspeito de envolvimento com crime de lavagem de dinheiro. A PF diz ter identificado nas interceptações telefônicas entre 9 e 30 de setembro deste ano o nome de um empresário que teria registrado um imóvel comprado pelo vereador na tentativa de encobrir a origem do recurso. “Trata-se de João José Pistum Netto. A lavagem de dinheiro toma-se incontroversa no caso em tela, tendo como crime precedente a corrupção e peculato que norteiam a vida do vereador”, releva o inquérito policial na página 516.

Em entrevista ao Noticias do Dia, Netto negou que seja o “laranja” do vereador do PSD. O advogado de Badeko, Lídio Moisés da Cruz, foi procurado pela reportagem, mas não atendeu aos telefonemas.

Deputado federal é citado em escutas

A investigação da atuação de Adriano Fernando Nunes, preso sob suspeita de arregimentar empresários para pagamento de propina para descaracterizar o projeto Cidade Limpa na Câmara, flagrou outros indícios de crimes cometidos pelo empresário. Proprietário da empresa Visual Brasil, Adriano negocia com políticos a prestação de serviços com notas fiscais constando valores abaixo do acertado.

Em conversa datada de 24 de julho, Adriano concorda em emitir uma nota na metade do valor com uma pessoa não identificada pela Polícia Federal. Em outra fase da investigação surgem os nomes de Adriano Nunes e José Dagostini Neto, empresário também preso pela operação Ave de Rapina por participar de irregularidades nos contratos dos radares. Neto é da empresa Focalle, que fazia a manutenção dos semáforos da Capital, e tem sede em Joaçaba. “No diálogo 15, Adriano liga para Neto e combinam de se encontrar. No diálogo 16, Adriano conversa com um homem não identificado que parece trabalhar no ramo da publicidade assim como este empresário. O interlocutor questiona se havia dado tudo certo lá no Jorginho Mello. Adriano responde que não, mas iria dar”, descreve o inquérito. Adriano acrescenta que Jorginho Mello falou para ele entrar em contato com esse empresário para acertar uma parte, pois ele ia ‘dar uma mão’”, completa o inquérito.

Na prestação de contas do deputado federal Jorginho Mello (PR) não há nenhuma doação em nome da Focalle ou de José Dagostini Neto. Entre os prestadores de serviço figura a Visual Brasil, de Adriano Nunes. São seis notas com a empresa, que totalizam R$ 120 mil.

Além de Jorginho, a empresa de Adriano prestou serviços para outros seis candidatos na campanha eleitoral de 2014. O advogado de Adriano Nunes foi procurado para comentar o fato, mas não atendeu aos telefonemas. O deputado federal Jorginho Mello afirmou que não conhece Nunes. “Sei que um rapaz desses colocou placas na minha campanha, mas não conheço. Se passar por mim não sei quem é”, disse. Sobre o diálogo entre Nunes e Neto a respeito de acertos para sua campanha, Jorginho também garantiu não ter conhecimento. “Não sei absolutamente nada sobre isso”, enfatizou.

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