Integrantes da equipe do cantor Dilsinho são acusados de estupro coletivo em SC

A "festa" que começou no camarim, com a presença do pagodeiro, virou caso de polícia e dois foram denunciados pelo Ministério Público

“Eu faço tratamento psicológico, psiquiátrico, tomo remédio para dormir, para acordar, para respirar, tomo remédio para viver”. É assim que a jovem Rebeca* define a vida desde o dia 3 de novembro de 2019.

Naquela noite, Rebeca e duas amigas saíram para o show de um dos artistas preferidos. No Parque da Efapi, em Chapecó, no Oeste de Santa Catarina, quem subiu ao palco foi o cantor Dilsinho. As amigas estavam grudadas na grade de proteção da área VIP, realizando o sonho de ver o artista. Depois do show, começaram as horas que, até hoje, não se apagam da memória de Rebeca.

Vítima conversou com a equipe do Grupo ND e relembrou a violência sofrida em novembro de 2019 – Foto: Thiago Bonin/NDTVVítima conversou com a equipe do Grupo ND e relembrou a violência sofrida em novembro de 2019 – Foto: Thiago Bonin/NDTV

As amigas foram convidadas ao camarim para conhecer o cantor e a equipe. Foi neste momento que começou o pesadelo de Rebeca.

“Quando chegamos na porta do camarim, tinha um segurança recolhendo todos os celulares. Deixamos tudo ali. Assim que chegamos já fomos apresentadas ao Dilsinho, conhecemos todo mundo, veio o rapaz da banda e ofereceu bebida e aceitamos. Estávamos conversando, dançando e eu estava abraçada no Dilsinho, quando veio o André Bezerra e ofereceu mais bebida. Eu aceitei e ele fez um gesto que iria pegar meu copo. Eu entreguei e, depois disso, não lembro de mais nada”, relata. As memórias do que aconteceu depois se tornaram flashes.

Na lista da banda e do staff de Dilsinho, os dois nomes que doparam e estupraram após o show, conforme Rebeca: André Luiz Bezerra (iluminador) e Paulo Xavier Goulart Junior (músico).

“Quando eu acordo, o primeiro flash que eu lembro, eu estou deitada na cama, bem onde termina a cama, e estava acontecendo sexo anal com o André Bezerra. Eu acordo porque estou me afogando, sem conseguir respirar. Acordo com o pênis do Junior Goulart na minha garganta. Aí eu começo a passar muito mal. Empurro ele para o lado, viro para o lado da parede e vomito muito. Eu lembro de deitar de novo e eles continuam. Passo mal de novo porque ele continua com pênis na minha garganta, vomito mais, passo mal, deito e eles continuam. Nesse momento, eu começo a gritar ‘para, por favor, por favor para’”, lembra.

O estupro teria acontecido em um hotel no Centro de Chapecó, depois que as três amigas foram convidadas até o local após saírem do camarim. Lá, uma das amigas já estava ficando com um dos integrantes da banda. Elas e dois homens foram de táxi até o hotel onde toda a equipe se hospedou para o evento.

“O que as meninas contaram é que eu estava atrás, sentada no colo do André Bezerra, e a Mariana* no colo do Daniel, que é produtor do Dilsinho. Elas contam que eu estava muito eufórica, gritava, fazia gemidos e elas não sabiam se eu já estava transando com ele dentro do táxi, mas isso não é do meu feitio. Eu nunca fiquei bêbada, nunca usei nada. Eu nunca saía, aquela era a primeira vez que nós saíamos juntas, então não era normal para mim”, conta.

Áudio e imagens

O áudio enviado pela amiga dias depois foi o que ajudou Rebeca a lembrar de frações de tempo daquela noite, que as substâncias associadas ao álcool não a permitiam. Chorando, Mariana lamenta não ter “percebido” que a amiga estava sendo estuprada. “Tu dava risada, só que amiga, eu não pensei, juro por Deus que se eu tivesse imaginado outra coisa… Para mim tu estava bêbada e gostando de ficar com o cara”, fala.

Depois que chegaram ao hotel, Rebeca não lembra como se deslocou até o quarto. Também não se recorda como saiu do hotel. Ela só teve acesso às imagens de monitoramento do lugar, que a mostram saindo desnorteada, um ano depois.

As imagens constam no inquérito policial, que tem 113 páginas, e foi instaurado a partir do boletim de ocorrência, registrado no dia 4 de novembro de 2019. Porém, até hoje Rebeca não obteve uma resposta.

Nas imagens – que estão com a hora alterada automaticamente para o horário de verão, que não foi adotado em 2019 –, a câmera mostra o grupo chegando às 2h45. Pouco mais de duas horas depois, às 4h57, Rebeca aparece novamente nas imagens, com uma camiseta, uma garrafa de água na mão e caminhando na calçada, do lado de fora do hotel.

As imagens também mostram Paulo Xavier Goulart Junior, que a impede de continuar caminhando. Os dois conversam e ela parece disposta a continuar seguindo caminho. Ele a segura pela mão, gesticula, se aproxima e começa a caminhar de volta para o hotel. Rebeca parece cambalear, mas o acompanha.

Rebeca não lembrava desse momento até receber as imagens, um ano depois. “Eu saio desnorteada, só com uma garrafa de água na mão. Descalça, sozinha, não tinha nem a chave do apartamento, do carro, nada. Eu não tinha nada. Pelo que eu entendi das imagens é aquela coisa de instinto. Quando algo te faz mal, você quer sair. E acredito que minha reação foi essa: eu preciso sair daqui. Mesmo sem estar consciente”, diz.

Minutos depois, ela aparece novamente nas imagens, desta vez com as amigas e o homem que acompanhava Mariana. Rebeca sai na frente, apressada. O casal fica atrás, o homem tira uma camisa da mochila e Mariana a entrega para Rebeca fazer a troca. A vítima vestia uma camisa da produção.

“Tu tirou a camisa ali na frente do hotel, tirou a camiseta, aquela hora eu pensei que tu estava muito louca. Viemos de boa, conversando, quando chegou na porta do meu prédio, tu começou a chorar desesperada”, conta a amiga, em áudio. Rebeca ficou nua na frente do hotel.

Na casa da amiga, dormiu por horas, foi para casa e contou para a família.

A violência após o estupro

O questionamento e as dúvidas sobre o relato e a violência sofrida ainda fazem a jovem chorar, quase um ano e meio depois. Ela conta que, por volta das 8h, chegou ao Hospital Regional do Oeste e entrou no protocolo da Lei do Minuto Seguinte, que orienta e preconiza o atendimento às vítimas de violência sexual.

Enfermeiros, psicólogos, médicos, assistentes sociais, policiais militares, policiais civis. Para todos Rebeca precisou contar e recontar o que lembrava, o que tinha acontecido, e mostrar as marcas da violência, que ficaram pelo corpo.

Foram remédios, antibióticos, injeções, exames, testes e todo o aparato necessário para evitar doenças sexualmente transmissíveis e uma possível gravidez. Depois, foram meses precisando retornar, mês a mês, para continuar o tratamento.

Em uma unidade de saúde, o retrato da violência que vem após o estupro. “Tem uma enfermeira, mulher, chefe de enfermagem daquele posto, que naquela época olhou para mim e eu tive que contar de novo a história, né? Ela me olhou e disse: ‘nossa querida o que tu tá fazendo para atrair isso para você?’. Como se eu fosse culpada daquilo que tinha acontecido”, lembra.

Laudo e investigação questionada

O laudo produzido pelo IGP (Instituto Geral de Perícias) afirma que não houve lesões nem vestígios de relação sexual criminosa, mas mostrou a existência de esperma na região da vagina.

O exame toxicológico, também solicitado, apontou 5,8 decigramas de álcool por litro de sangue, o que para o médico legista, não seria suficiente para causar alterações psicoativas e provocar perda de consciência. Apesar disso, o exame foi realizado horas depois do show e do estupro e, com isso, a quantidade detectada pode ser bem inferior àquela de fato ingerida no momento do crime.

O exame também apontou a existência de outra substância no organismo de Rebeca. Normalmente comprada em farmácia e utilizada como anestésico, a lidocaína foi detectada no exame toxicológico.

De acordo com o relatório do perito, anexado ao inquérito, o anestésico provoca perda de consciência em caso de superdosagem. No entanto, o IGP alegou, também no relatório enviado à polícia, que não tinha equipamento e tecnologia para aferir o quantitativo de lidocaína que estava presente no organismo da vítima.

Perito responde questionamentos da polícia – Foto: Reprodução/NDPerito responde questionamentos da polícia – Foto: Reprodução/ND

Em depoimento, o médico legista responsável pela análise afirmou que, embora não tenha ouvido falar do uso da lidocaína como “boa noite cinderela”, não sabia quais poderiam ser os efeitos quando a substância era associada ao álcool.

Em relatório complementar, a perícia afirmou que a lidocaína pode ser encontrada em gel lubrificante ou preservativo, mas que pode provocar efeitos de excitação e deixar a pessoa “desligada”.

O advogado de Rebeca, Marco Aurélio Marcucci, que assumiu o caso recentemente, questiona o que aponta como várias falhas na investigação e no processo. Entre elas, a falta de detalhamento da substância encontrada no organismo de Rebeca.

“É uma prova que teria que ser esmiuçada na investigação e não foi, assim como não foram verificadas as câmeras do corredor. Onde o Dilsinho estava? Onde os indiciados estavam? Quem estava naquele quarto? E o gerente, cadê o gerente? Tudo isso tem que ser verificado. No meu ponto de vista é uma investigação completamente falha e falha intencionalmente”, salienta.

Inquérito encerrado após um ano

O inquérito foi encerrado no dia 23 de outubro de 2020, quase um ano após o crime. O delegado Estevão Vieira Diniz Pinto indiciou os dois homens por estupro de vulnerável e encaminhou o caso ao Ministério Público. No entanto, os dois sequer foram ouvidos.

Durante a investigação, a polícia tentou contato por telefone, redes sociais e e-mail, mas não obteve retorno. Assim, decidiu encerrar o inquérito indiciando os dois e se colocando à disposição do MPSC para diligências complementares, caso assim a promotoria entendesse necessário.

Uma das alternativas citadas pelo delegado, mas que não foi utilizada durante o inquérito, é a expedição de cartas precatórias para intimar André Luiz Bezerra e Paulo Xavier Goulart Junior.

A não utilização de carta precatória é mais um ponto colocado em xeque pelo advogado. “O que eles alegam no processo é que a carta precatória demoraria muito, então eles resolveram fazer esse caminho, mas é um puxadinho que está errado processualmente. Eles tinham que mandar uma precatória para a delegacia do Rio de Janeiro, para que eles fossem até a residência dos suspeitos intimá-los para comparecer no processo. Do jeito que está, ele vai ficar sem comparecimento e o processo vai parar e até prescrever. Acho que essa é a ideia desde o início”, pontua.

Em novembro, o Ministério Público ofereceu a denúncia, que foi aceita pela Justiça, determinando que os dois acusados se manifestem sobre as acusações em um período de 10 dias – para que o processo pudesse correr e iniciar com a audiência de instrução e julgamento.

No entanto, segundo Marcucci, essa foi a última movimentação do processo. Seis meses depois, o prazo sequer foi respeitado. O advogado pediu à Justiça a suspensão do processo, apontando falhas na investigação e alegando que há muitos pontos que não foram esclarecidos.

Além disso, Marcucci pediu a quebra do sigilo telefônico dos policiais que fizeram o relatório. O pedido, de acordo com o advogado, se sustenta porque os policiais teriam, a todo momento, tratado a jovem como “suposta vítima”. O pedido inclui, ainda, a quebra dos sigilos fiscal, bancário e telefônico dos indiciados e de Dilsinho.

“Questionamos toda a investigação, pedimos a volta para a delegacia para que tudo seja refeito desde o início. Há muitas diligências importantes que não foram feitas. Do jeito que o inquérito e o processo estão, é muito fácil os suspeitos se safarem dessa condenação porque existem dois suspeitos, dois indiciados, mas no meu ponto de vista tem que ampliar a margem de investigação. Nós pedimos a prisão dos indiciados e vamos aguardar a manifestação do juiz lá de Chapecó”, explica.

Justiça não fala sobre o caso e indiciados não são encontrados

Um ano e meio depois, a jovem precisou se mudar de Chapecó. “É o principal hotel da cidade, fica na avenida. Eu não tinha mais nenhuma condição de passar por ali”, lamenta. Em 18 meses, nenhuma manifestação dos acusados, nenhuma resposta da polícia ou da Justiça.

A reportagem entrou em contato com o IGP, com a delegacia, com o Ministério Público e com o juiz responsável pelo processo.

O IGP se manifestou por meio de nota. Afirmou que só pode falar sobre laudos periciais após solicitação de autoridades policiais ou judiciárias. Disse, ainda, que as informações sobre dosagem são disponibilizadas de acordo com o pedido das autoridades ou setor de medicina legal.

O delegado afirmou, por telefone, que concluiu o inquérito, encaminhou ao Ministério Público e não iria se manifestar.

A promotoria e o juiz afirmaram que não se manifestariam porque o caso corre em segredo de Justiça. O hotel em que o caso aconteceu não retornou à reportagem.

Por meio de nota, a assessoria jurídica do cantor Dilsinho informou que o artista não foi notificado por qualquer autoridade pública e que ele não tem ciência dos fatos veiculados. A nota diz ainda que o escritório do cantor aguarda a análise do caso para tomar as devidas providências. A assessoria de Dilsinho informou que os dois rapazes indiciados foram afastados das funções, apesar de dizer que o cantor não tem ciência do caso.

“Dilsinho tem uma carreira ilibada e toda sua conduta profissional não compactua com qualquer ato de violência física ou psicológica contra a mulher”, diz a nota da assessoria jurídica, por meio do advogado José Estevam Macedo Lima.

Nos telefones que constam no inquérito como sendo de André Luiz Bezerra e Paulo Xavier Goulart Junior, nenhum contato. Os dois celulares não existem e o telefone fixo que seria de Paulo é, na verdade, de uma contabilidade.

**Os nomes da vítima e da amiga foram alterados para preservar a identidade.

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