Jovem sofre ameaças de morte e homofobia em Imbituba

Supostos neonazistas usaram do anonimato para perseguir vítima durante o feriado de Páscoa; agressores proferiram ofensas pelo aplicativo Telegram

“Passei aí na frente, não dei uns tiros por piedade mesmo”. Mensagens assim transformaram o feriado de Páscoa em terror para Marcelo*, de 24 anos. O jovem visitava a família no município de Imbituba, no Sul de Santa Catarina, quando foi surpreendido por uma série de ameaças de morte e xingamentos homofóbicos de supostos neonazistas.

As agressões foram proferidas por dois perfis no aplicativo Telegram, entre os dias 2 e 4 de abril. O aplicativo é semelhante ao conhecido Whatsapp, entretanto permite o anonimato dos usuários. Não é necessário informar número e outros dados pessoais.

Simbolos neonazistas, ameaças de mortes e ofensas homofobia foram cometidas pelos agressores em ImbitubaOfensas foram realizadas por dois perfis no Telegram – Foto: Telegram/Reprodução

As ameaças começaram na noite da Sexta-feira Santa, dia 2. Marcelo estava com os familiares, quando foi surpreendido por uma série de mensagens ofensivas enviadas por um perfil chamado “d”. Em uma delas, o agressor escreveu que “viados [sic] de Imbituba serão mortos na porrada”.

As ofensas também atingiam negros e feministas, tachados como “pragas da nação”. Elas eram intercaladas com fotos de símbolos nazistas e armas. “O primeiro vai ser tu, vai pagar por todos. Já marquei tua casa”, escreveu o agressor. Marcelo acredita que tenha sido localizado por meio da função “amigos próximos”.

Desesperado, Marcelo não contou as ofensas aos familiares no dia e registrou um boletim de ocorrência virtual. Como não conseguiu anexar as fotos no documento, as enviou ao contato da Polícia Civil de Imbituba.

Ofensas continuaram

No dia seguinte, ele foi até a delegacia de Imbituba, mostrando as fotos das ameaças ao agente de plantão. “Ele quis me tranquilizar, mostrar que elas não acarretariam em morte. Mas eu queria mostrar que aquilo era ofensivo”, ressalta Marcelo*.

A orientação recebida foi esperar até segunda-feira, quando estaria presente o delegado da Comarca. Mas as ameaças foram retomadas durante o fim de semana. Dessa vez, um segundo perfil neonazista chamado “G Santana” também passou a proferir ofensas.

Os perfis anônimos mandavam mensagens como “qualquer ora [sic] pode ser você”, “já marquei a tua casa” e “você devia sentir vergonha de sair na rua”. O segundo agressor, que tinha um perfil com foto pessoal, apagou o histórico de mensagens logo em seguida.

Marcelo acionou os canais de emergência 181 (Polícia Civil) e 190 (Polícia Militar). O agente que atendeu afirmou apenas que, como não tinha identificação, “era necessário bloquear os números”.

Investigação

Até esta quarta-feira (14), ainda não havia sido instaurado inquérito policial. A Polícia Civil realiza diligências preliminares para verificar a viabilidade de investigar o crime, informa o delegado Nicola Patel Filho, titular da delegacia de Imbituba.

Os procedimentos são mantidos sob sigilo, para não interferir na investigação. O Telegram é um aplicativo difícil de trabalhar, pois a empresa não está sediada no Brasil e não fornece dados de usuários, detalha o delegado.

Não há outras denúncias semelhantes, segundo o delegado. “Me chama a atenção a existência desse grupo. Tivemos acesso a celulares e nunca vimos algo parecido”. Nesses casos, a orientação é parar de usar o aplicativo e registrar boletim de ocorrência.

Crime de homofobia

A discriminação por orientação sexual é crime passível de ser punido pela Lei de Racismo desde o dia 13 de junho de 2019. Ela prevê pena de um a três anos, mais multa. Para este caso, a investigação ainda vai apurar o enquadramento correto, assinala o delegado.

A reportagem tentou localizar o Telegram, mas não obteve sucesso.

*A reportagem utilizou um nome fictício para preservar a segurança da vítima.

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