Justiça quebra sigilo telefônico de 17 vereadores de Florianópolis

Juiz da Vara de Crime Organizado acatou pedido do MP-SC para ampliar investigação da Operação Ave de Rapina sobre a relação de vereadores com empresários de mídia exterior na tramitação do Projeto Cidade Limpa

O juiz Marcelo Volpato, da Vara de Crime Organizado da Capital, atendeu ao pedido do MPSC (Ministério Público de Santa Catarina) e autorizou a quebra de sigilos telefônicos de 17 dos 23 vereadores de Florianópolis. A decisão do dia 18 de dezembro está relacionada com as investigações da Operação Ave de Rapina e a tramitação do Projeto Cidade Limpa na Câmara de Vereadores. Além dos 14 vereadores indiciados pela PF (Polícia Federal) em dezembro de 2014, mais três vereadores tiveram os sigilos quebrados pelo magistrado: Vanderlei Faria (PDT), Guilherme Pereira, o Gui Pereira (PSD), e Pedro Silvestre, o Pedrão (PP).

Dez empresários do setor de mídia exterior e produção de outdoors também foram indiciados no final de 2014. Segundo a PF, os vereadores teriam recebido propina para que fosse aprovado o substitutivo global que desfigurou o projeto Cidade Limpa, de autoria da Prefeitura da Capital. Os vereadores são acusados de corrupção passiva e organização criminosa.O MP-SC busca neste novo pedido provas da relação dos indiciados e demais vereadores com os empresários do setor, principalmente com o dono da Visual Brasil e apontado como o operador do esquema, Adriano Nunes. Desta forma, a denúncia não ficaria apenas limitada às listas apreendidas na empresa de Nunes. A investigação vai retroagir entre maio de 2012 e junho 2013. Este é o segundo pedido do coordenador do Gaeco (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado) Alexadre Graziottin, para novas buscas de documentos e depoimentos. A primeira foi feita em dezembro de 2014.

 

Um decreto sob investigação

Como revelou o ND com exclusividade nesta terça-feira, empresários do setor teriam tratado da aprovação de um decreto que regulamenta a lei 422/2012, que trata da instalação de outdoors na cidade. No diálogo, um dos empresários diz que eles não estão comprando alvarás, mas que estão pagando para que se cumpra a 422. A apreensão de uma minuta de decreto na sede da Visual Brasil, empresa de Nunes, também aumenta as suspeitas sobre a regulação de outdoors e mídia exterior em Florianópolis.

Segundo a Polícia Federal, o decreto 13.298/2014 foi elaborado pelo mesmo grupo de empresários que tentou modificar o projeto Cidade Limpa e teve o mesmo vereador Marcos Aurélio Espíndola, o Badeko (PSD), como intermediário com a Prefeitura. Segundo a PF, o decreto apresenta três artigos idênticos à minuta.

Com base nesses dois documentos, o MP-SC pediu novas diligências e a quebra do sigilo telefônico de Eron Giordani, então secretário da Casa Civil; de Carlos Eduardo Neves, o Mamute, que ocupou a chefia de gabinete do prefeito, e de Osvaldo Ricardo da Silva, na época gerente legislativo da Prefeitura da Capital. Num dos diálogos, sobre a apuração do decreto, Osvaldo conversa com Badeko, e informa sobre modificações que deveriam ser feitas na minuta entregue por ele para sanção.

Contrapontos

Vanderlei Farias, o Lela (PDT). – “Não tive nenhum contato com empresários do setor neste período. Conheci o Adriano Nunes quando o projeto do Cidade Limpa começo a tramitar na Câmara.”

Marcelo da Intendência (PMDB) – “Acho que o promotor está certo, usando cautela para apurar tudo sobre este caso. Não tenho ligações com os empresários do setor. Na época era intendente de Ingleses. No outro pedido de quebra já foi comprovado que não existe essa relação.”

Tiago Silva (PDT) – “Tenho minha consciência tranquila e não existe nenhum pedido meu para nenhum empresário”, disse o vereador que atualmente é secretário municipal de Defesa do Cidadão.

Guilherme Pereira (PSD) afirma que não foi indiciado pela PF assim como o vereador Lela, disse que apenas prestou depoimento, pois votou no substitutivo global que alterou o projeto do Executivo. “Meu material de campanha foi feito pela empresa do Adriano Nunes, mas tudo foi registrado legalmente e sem qualquer problema na Justiça Eleitoral”, afirma.

César Faria (PSD) – Kissao Thais, advogado do vereador Cesar Faria, afirma nada foi encontrado contra seu cliente nos computadores e celulares dos empresários envolvidos. “O resultado será o mesmo dos que nas quebras de sigilo anteriores contra o vereador”, afirma Kissao Thais.

Badeko (PSD)  Lídio Moíses da Cruz, defensor do vereador Badeko, diz que o caso precisa ser “finalmente concluído” para que possa fazer a defesa do seu cliente. “Que seja oferecida logo a denúncia, pois não temos nada a dizer enquanto o Ministério Público não se pronunciar.

Ed Pereira (PSB) – diz que não tem ligação com os empresários e acredita que com o novo pedido a Justiça conseguirá esclarecer quem manteve relação com membros do setor de mídia exterior. “Sempre bati na tecla de que antes de se votar o Cidade Limpa tinha que ter fiscalização. Acho que a decisão da Justiça vai ao encontro dos meus questionamentos desde o início desta operação.” 

Pedrão (PP) – “Nunca tive ligação com esses empresários. Acho ótimo que a Justiça faça isso, nós somos servidores públicos e nossos atos devem ser públicos. Estou tranquilo e acho justo a decisão”.

O ND não conseguiu contato com os vereadores Coronel Paixão, Deglaber Goulart, Célio João, Dinho, Katumi, Furlan, Ricardo Camargo e  Dalmo Meneses. O jornal continua aberto a ouvir os vereadores citados. 14 deles já haviam prestado depoimento à PF, onde falaram sobre o caso:

Erádio Gonçalves (PSD) – Disse à polícia que não conhece e nunca viu Adriano Nunes. Votou favorável ao substitutivo de Badeko por conta do grande número de pessoas que poderiam ficar desempregadas com a aprovação do Cidade Limpa.

Dalmo Meneses (PP)- Líder do governo, depôs e negou ter recebido dinheiro para votar o projeto e afirmou que conhece Adriano Nunes.

Coronel Paixão (PDT) – Nega que tenha recebido qualquer quantia de empresários do setor, mas que conhece Adriano Nunes, pois a empresa dele, a Visual Brasil, fez serviços de propaganda para sua campanha em 2012.

Ricardo Camargo (PR) – Disse que não participou da votação do projeto Cidade Limpa e que conhece o empresário Adriano Nunes como “representante de uma categoria econômica da Capital”, como consta no processo.

Roberto Katumi (PSB) – Nega ter recebido qualquer quantia para votar o substitutivo no Cidade Limpa. Também disse que conhece Adriano, porque ele foi até a Câmara reclamar do projeto.

Dinho (PMDB) – Nega conhecer os empresários do setor de mídia exterior e disse que nunca recebeu valores para votar o projeto. Também disse que votou à favor do substitutivo por que se informa por meio de tais anúncios.

Deglaber Goulart (PMDB) – Disse aos policiais federais que conhece Adriano Nunes por ele ser dona de uma empresa que presta “serviços em época eleitoral” e disse que a anotação apreendida pela polícia com seu nome só pode dizer respeito à ajuda financeira prestada por Adriano em sua campanha. Deglaber acrescentou que estava em tratamento de saúde na época da votação do projeto.

Célio João (PMDB) – Falou à polícia que mantém boa relação com Adriano, e que votou a favor do substitutivo global de Badeko porque acompanha o voto do líder do governo.

Aldérico Furlan (PSC) – Também negou as acusações e disse que conheceu o empresário em audiência pública na Câmara.

Em nota, a Câmara Municipal de Florianópolis, apoia a decisão da Justiça. Leia a íntegra do comunicado:

“A Câmara Municipal de Florianópolis, assim como fez desde a deflagração da Operação Ave de Rapina, reitera que está à disposição da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça para esclarecer quaisquer dúvidas e colaborar no que for necessário. A decisão judicial de quebra de sigilo telefônico de 17 vereadores é um direito e um recurso democrático e deve ser usado para buscar todas as informações em relação à investigação sobre o Projeto conhecido como Cidade Limpa. Desta forma, a Câmara considera positivo o deferimento no intuito de chegar à conclusão deste processo o mais breve possível, visando sempre a verdade e transparência dos acontecimentos”, diz a nota.

Participe do grupo e receba as principais notícias
da Grande Florianópolis na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os
termos de uso e privacidade do WhatsApp.
+

Polícia

Loading...