Morte no Carrefour: Polícia gaúcha e presidente do supermercado se manifestam

Presidente afirma que valores do Carrefour não compactuam com racismo; Delegada admite racismo estrutural, mas ressalta necessidade de investigação

A chefe da PCRS (Polícia Civil do Rio Grande do Sul), delegada Nadine Anflor, e o presidente do grupo Carrefour, Alexandre Bompard, se manifestaram sobre o assassinato de João Alberto Silveira Freita, de 40 anos.

Homem negro, Silveira foi espancado até a morte por dois seguranças de uma unidade do Carrefour na capital gaúcha. O crime ocorreu na noite de quinta-feira (19).

João Alberto, assassinado dentro de mercado da rede Carrefour, em Porto Alegre

João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, foi espancado até a morte por dois seguranças de uma unidade do supermercado, localizada em Porto Alegre – Foto: Reprodução/ND

Na ocasião, dois seguranças – um deles policial militar temporário, em contrato de emergência na Brigada Militar gaúcha – foram filmados espancando João Beto com socos e chutes repetidos. Ambos ouviram reiterados apelos para que o soltassem, inclusive da esposa da vítima, que o acompanhava no mercado para comprar pão.

Após João Beto ter sido agredido e imobilizado, os dois seguranças ainda subiram no homem e o mantiveram preso ao chão, em uma cena que lembra o homicídio de George Floyd, nos Estados Unidos.

“Imagens horríveis”

Bompard utilizou as redes sociais para se manifestar. Escrevendo em português, o executivo francês afirmou: “Meus valores e os valores do Carrefour não compactuam com racismo e violência”. Em seguida, ele também comentou as cenas chocantes, que mostram o homem sendo agredido por mais de cinco minutos.

“Em primeiro lugar, gostaria de expressar meus profundos sentimentos, após a morte do senhor João Alberto Silveira Freitas. As imagens postadas nas redes sociais são insuportáveis”, diz Alexandre Bompard. “Eu pedi para as equipes do Grupo Carrefour Brasil total colaboração com a Justiça e autoridades para que esse os fatos deste ato horrível sejam trazidos à luz”, completou.

Caso precisa ser investigado, afirma chefe da Polícia

“É evidente a existência de racismo estrutural na nossa sociedade; agora, para isso se transformar em crime, eu preciso de provas” afirmou Anflor, chefe da PCRS. Para delegada, a investigação vai apurar se Silveira foi agredido pelo fato de ser negro.

Caso a investigação aponte para racismo como motivação do assassinato de João Alberto Silveira Freitas, o homicídio será qualificado por “motivo torpe”.  O motivo torpe é a razão repugnante, abjeta, vil, imoral, “que demonstra sinal de depravação do espírito do agente”, um agravante que faz a pena aumentar para de 12 anos a 30 anos de prisão, em caso de condenação.

“Não há indicativo de conotação racista” diz delegada

A postura da chefe da PC gaúcha é levemente diferente, mas não desautoriza a avaliação da delegada à frente do caso, Roberta Bertoldo, da 2ª DHPP (Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa), responsável pela investigação. Roberta disse, na tarde dessa sexta-feira (20) que não via, “até o momento, alguma conotação racista”.

“Até o presente momento não há nenhum indicativo de que tenha alguma conotação racista. O inquérito policial se iniciou hoje. Nós temos vários dias para apurar esse fato, de forma bem ampla, podendo, nesse período, vir à tona algo nesse sentido ou não. O racismo é um outro fato criminoso completamente diferente do que aconteceu aqui. Não tem nada a ver”, afirmou Roberta Bertoldo, titular da 2ª DHPP, em entrevista ao Metrópoles.

De acordo com a investigadora, os dois seguranças, que espancaram o homem negro na frente de uma unidade do supermercado Carrefour de Porto Alegre, no bairro Passo D’Areia, foram indiciados inicialmente por homicídio triplamente qualificado.

A chefe da PC gaúcha, Nadine Anflor, explica as três razões: motivo fútil, asfixia e recurso que impossibilitou a defesa da vítima. Apesar de não afirmar que o crime tenha tido motivação racista, a delegada reconheceu que o caso não escapa do preconceito, ao citar o “racismo estrutural” na sociedade brasileira.

Tão logo a morte de João Alberto, conhecido como João Beto, ganhou repercussão, começaram a circular em grupos de WhatsApp alegações sobre ocorrências policiais envolvendo a vítima. Nadine Anflor deixou claro que o passado da vítima não tem importância no caso.

O caso

Segundo a delegada Roberta Bertoldo, da 2ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa, responsável pela investigação sobre a morte de João Beto, a confusão teria se iniciado no interior do supermercado.

Os seguranças foram chamados para retirar João Alberto do interior da loja e levá-lo ao estacionamento. O cliente acabou espancado até a morte. Análises iniciais do exame de necropsia apontam para asfixia como causa mortis mais provável. A conclusão do Instituto-Geral de Perícias não é definitiva.

Os dois seguranças, identificados como Magno Braz Borges e Giovane Gaspar da Silva, foram autuados por homicídio qualificado. Um deles é policial militar temporário (cargo constitucionalmente ilegal) e o outro é segurança do Carrefour.

“As circunstâncias estão sendo analisadas no sentido de apurar a responsabilidade de cada uma das pessoas do supermercado que estavam presente no momento em que os seguranças agrediram o homem”, conta a delegada.

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