O que se sabe até o momento sobre o brutal ataque a creche de SC

Jovem de 18 anos invadiu escola infantil na cidade de Saudades, no Oeste catarinense, e matou três crianças e duas educadoras

A pacata cidade de Saudades, no Oeste de Santa Catarina, viveu no dia 4 de maio um dos piores momentos de sua história. Com quase 10 mil habitantes, o município localizado a cerca de 70 km de Chapecó, foi palco de um episódio de terror com a chacina na escola infantil Pró-Infância Aquarela.

Na tragédia, cinco vidas foram ceifadas, entre elas a de três crianças com menos de dois anos, uma professora e uma agente educativa.

Cidade está em choque com o crime brutal. – Foto: Willian Ricardo/NDMaisCidade está em choque com o crime brutal. – Foto: Willian Ricardo/NDMais

Eram quase 10h da manhã de terça-feira quando um jovem de 18 anos chegou de bicicleta. Ele entrou na creche em posse de duas armas brancas.

Uma delas, uma espada Katana popularmente conhecida como “espada ninja”, foi utilizada para atacar as crianças e educadoras. A segunda, menor, foi utilizada pelo autor contra si mesmo em uma tentativa de tirar a própria vida após os ataques.

Momentos de terror

O jovem entrou na escola e a primeira pessoa que atacou foi a professora Keli Adriane Aniecevski, de 30 anos. Mesmo ferida, ela correu para a sala onde estavam quatro crianças e a agente educativa Mirla Amanda Renner Costa, de 20 anos.

A professora e duas crianças morreram ainda na sala de aula. Já Mirla e uma das crianças foram socorridas, mas não resistiram aos ferimentos e morreram no hospital. Uma quarta criança, um menino de 1 ano e 8 meses, também foi socorrido. Ele foi transferido ao HRO (Hospital Regional do Oeste), em Chapecó.

O menino passou por uma cirurgia na região do pulmão e segue estável, em recuperação. Ele saiu da UTI e foi transferido para o Hospital da Criança, onde está em leito clínico. A informação foi repassada pela assessoria do HRO no fim da tarde desta quarta-feira (5).

As crianças mortas foram Sarah Luiza Mahle Sehn, 1 ano e 7 meses, Anna Bela Fernandes de Barros, 1 ano e 8 meses, e Murilo Massing, 1 ano e 9 meses. A identidade foi confirmada pelo IGP (Instituto Geral de Perícias).

Vítimas tinham diversos ferimentos

Conforme o IGP, em constatação preliminar observou-se que todas as vítimas tinham pelo menos cinco ferimentos feitos com instrumento perfuro-cortante, com exceção de uma das professoras, na qual foram visualizados apenas dois. Porém, o laudo final do IML (Instituto Médico-Legal) trará as informações concretas. Ainda não há previsão de conclusão dos laudos.

A escola foi alvo do ataque de um jovem de 18 anos nesta terça-feira (4), deixando a cidade em estado de choque. – Foto: Willian Ricardo/NDMaisA escola foi alvo do ataque de um jovem de 18 anos nesta terça-feira (4), deixando a cidade em estado de choque. – Foto: Willian Ricardo/NDMais

O que teria motivado o crime?

A Polícia Civil ainda trabalha para compreender as motivações do crime. Segundo o delegado da Polícia Civil responsável pelo caso, Jeronimo Marçal Ferreira, o que se sabe até o momento é que o jovem era um “rapaz problemático”.

Pessoas próximas a ele afirmaram à polícia que ele sofria bullying na escola, era muito introspectivo e não tinha amigos.

“É um perfil que hoje já é comum na sociedade. Um jovem que se tranca no quarto e ninguém sabe o que está fazendo no computador. Gostava de jogos online, alguns violentos. Ele tinha alguns problemas dentro de casa, inclusive em razão desse bullying sofrido. Segundo familiares, ele não queria ir mais para a escola”, relata Ferreira.

O rapaz ainda estava no ensino médio e trabalhava em uma empresa do município. Segundo a polícia, o autor da chacina estava com R$ 11 mil em espécie guardados em casa. Os familiares relataram que o dinheiro era das economias do jovem. Como não era de sair, estava guardando o dinheiro.

Depoimentos

Nesta quarta-feira (5) e pelos próximos dias, a Polícia Civil seguirá realizando os trabalhos no inquérito policial instaurado para apurar a motivação dos crimes. Testemunhas estão sendo ouvidas.

O delegado pretende realizar o interrogatório do autor nos próximos dias e aguarda também autorização judicial para acessar equipamentos eletrônicos apreendidos com o preso.

O Ministério Público de Santa Catarina recebeu na madrugada desta quarta-feira (5) o ato de prisão em flagrante contra o autor do ataque e pediu sua prisão preventiva.

O jovem está sedado e internado na UTI do HRO (Hospital Regional do Oeste), em Chapecó, onde passou por cirurgia e segue em recuperação pós operatória. “Quero ver o que ele vai contar para juntarmos as peças de investigação com a versão dele para tentar entender a motivação desse crime”, informou.

Jovem foi autuado em flagrante

O autor do ataque foi autuado em flagrante por cinco homicídios triplamente qualificados. Além disso, ele foi autuado pela tentativa de homicídio da criança que está em recuperação.

As qualificadoras dos crimes foram motivo torpe (fútil), utilização de recurso que impossibilitou a defesa das vítimas e a utilização de meio cruel. Com o procedimento lavrado pela Polícia Civil, o homem já se encontra sob a tutela do Deap/SC (Departamento de Administração Prisional).

Despedida marcada por comoção

O velório das vítimas  encerrou por volta das 10h47 desta terça-feira (5). Desde a madrugada, quando os corpos chegaram ao ginásio no Parque de Exposições Theobaldo Hermes, centenas de pessoas prestaram as últimas homenagens.

A missa que marcou a despedida foi celebrada pelo bispo Dom Odelir José Magri, da Diocese de Chapecó, e pelo padre Armando Grützmann. Os pais e familiares das vítimas estavam muito abalados emocionalmente. Os amigos e conhecidos também estavam consternados.

Alexandra Drachler Bach esteve no velório coletivo acompanhada da filha Ana Julia, de apenas 10 meses. Emocionada, ela resumiu o sentimento de todas as mães que souberam do ataque brutal em Saudades: “Nenhuma mãe quer passar por essa tragédia. Como os pais vão superar? Não faço nem ideia. Espero que jamais isso aconteça novamente”, disse Alexandra, ao contar que conhecia todas as vítimas.

O local em que as vítimas eram veladas fica distante 350 metros do cemitério municipal – Foto: Willian Ricardo/NDO local em que as vítimas eram veladas fica distante 350 metros do cemitério municipal – Foto: Willian Ricardo/ND

Especialista avalia comportamento do agressor

O especialista em segurança pública Silvio Sell observou que a impulsividade é uma característica predominante no perfil do jovem. Segundo Sell, ele é impulsivo porque a violência dele não tem uma racionalidade prática, é algo que parece que surgiu do nada.

“Ele não estava tentando roubar nem sequestrar. Esse caráter de violência exclusiva e gratuita é impulsiva”.

Outra característica citada pelo especialista é a busca por visibilidade. Conforme ele, é o perfil de uma pessoa que quer sair do anonimato, ser reconhecida e colocar seu nome em um evento, ainda que seja na forma de tragédia.

Participe do grupo e receba as principais notícias
de Chapecó e região na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os
termos de uso e privacidade do WhatsApp.
+

Polícia