“O sonho dele era ser militar”, diz primo de jovem morto pela polícia em Florianópolis

O corpo de Vitor Henrique Xavier Silva Santos, 19 anos, foi sepultado na tarde desta sexta-feira (19), no cemitério vertical de Coqueiros

O caixão simples com madeira fosca e sem adornos chegou com o corpo de Vitor Henrique Xavier Silva Santos, 19 anos, perto das 15h desta sexta-feira (19), no Cemitério São Cristóvão, no bairro Coqueiros. Ele foi sepultado longe do bairro onde morava com a mãe e a irmã, no Norte da Ilha, porque não havia vaga pública disponível no cemitério de Canasvieiras.

Sepultamento de Vitor Henrique Xavier Silva Santos – Schirlei Alves/NDSepultamento de Vitor Henrique Xavier Silva Santos – Schirlei Alves/ND

Vitor foi morto pela polícia no início da tarde de quinta-feira (18), enquanto brincava com uma arma de pressão no quintal de casa, no bairro Ingleses.

:. Polícia lamenta morte e dá versãosobre o caso

Sem recurso financeiro para arcar com as despesas de um sepultamento privado, a mãe precisou recorrer à única opção disponível pelo município. Os familiares e amigos se deslocaram de ônibus até o bairro do Continente.

O cortejo até o cemitério vertical foi acompanhado de cânticos evangélicos entoados pelos amigos da igreja, mas que foram sufocados pela dor da irmã, Vivian Silva dos Santos, 22 anos. “O que fizeram com você, meu irmão”, gritava inconformada.

O trauma foi maior para irmã, uma vez que Vitor agonizou nos braços dela. Vivian estava em casa no momento em que ele foi alvejado. A mãe, Vilma silva dos Santos, 49, estava trabalhando em um restaurante no bairro Agronômica.

Segundo a irmã, Vitor tinha ajudado a limpar a casa e havia acabado de ir para o pátio brincar com a arma de pressão quando tudo aconteceu. Ela tentou pedir ajuda, mas contou que teve o celular arrancando das mãos pelos policiais. Ninguém veio socorrê-lo. Morreu ali, no colo dela.

“Não me deixa, meu irmão”, foi a última súplica de Vivian antes de deixar o cemitério carregada nos braços dos primos. A mãe se dividiu entre a despedida do filho e o amparo à filha.

Um dos primos, que preferiu não se identificar com medo de represália, acredita que houve preconceito durante a abordagem, uma vez que o garoto era negro. Toda a família é natural da Bahia e veio para Florianópolis em busca de uma vida melhor.

Segundo ele, Vitor sonhava entrar para as Forças Armadas. O Exército era uma das possibilidades. “O sonho dele era servir o Exército, como que um guri que queria ser militar faria bobagem na rua? Pode perguntar para qualquer pessoa na comunidade, todos o conheciam”, contou.

Daniele Duarte, 28 anos, mãe de um dos melhores amigos dele, de 12 anos, é bombeira civil e o incentivava a seguir a carreira dela. “Ele faria a prova de guarda-vida no fim do ano para começar”, disse Daniele.

A mãe do amigo também contou que os dois costumavam brincar com a arma de pressão no pátio de casa. “Estava bem visível que era uma arma de criança, com a ponta laranja, eles estudam isso como é que não sabem?”, questionou.

Confira vídeo da despedida e depoimento de primo:

O que diz a polícia

Segundo a polícia, uma a guarnição teria sido avisada por populares que o homem estava manipulando uma arma e apontando contra as pessoas. A versão é contestada pela família, que diz que os policiais já chegaram no local atirando e sem chance de defesa.

Uma das questões que chamou a atenção da família e dos moradores é que os policiais envolvidos na ocorrência usavam tocas balaclavas para esconder o rosto. A arma de pressão, segundo os familiares, foi tirada do local do crime. As marcas do episódio ficaram registradas no muro e no portão. O garoto caiu ao lado de um puff, onde havia sentado para mirar em latinhas colocadas como alvo no chão.

Policiais aparecem em imagem com rostos cobertos com balaclava – Arquivo Pessoal/NDPoliciais aparecem em imagem com rostos cobertos com balaclava – Arquivo Pessoal/ND

O secretário de Segurança Púbica de Santa Catarina, coronel Araújo Gomes, reforçou a versão dos policiais envolvidos na ocorrência. “Segundo o relatório da equipe, se encontravam em rondas quando foram acionados por populares em relação ao um homem armado, apontando para transeuntes. Ao se aproximar e abordar o homem este apontou uma arma, que depois se constatou ser uma espingarda de pressão calibre 4,5 mm, e os policiais, diante da ameaça percebida, atiraram, atingindo o homem que veio a falecer”, disse.

Questionado sobre o preparo dos policiais na ocorrência, já que se tratava de uma arma de brinquedo, o secretário disse que ainda é cedo para “fazer avaliações antes das investigações”.

Mortes pela polícia aumentaram

Em menos de 24 horas pelo menos seis pessoas morreram em ações envolvendo policiais militares em Santa Catarina. Os outros casos ocorreram na tarde e noite de quarta-feira em São José, na Grande Florianópolis, e em Itajaí, no Norte do Estado. Nesses dois casos, os mortos teriam participado de assaltos a mão armada antes de serem surpreendidos pela polícia e serem mortos.

No dia 27 de março, foi realizada uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Santa Catarina que tratou do aumento da violência policial no Estado. Na ocasião, Araújo Gomes se comprometeu a abrir investigação sobre os casos de excessos relatados e disse que a Polícia Militar iria produzir um documento garantindo mais transparências nas ações da corporação.

As mortes envolvendo policiais no estado cresceram 63% desde 2016, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública.

Confira a íntegra da nota da Polícia Militar:

*NOTA OFICIAL DA POLÍCIA MILITAR*

*A respeito da ocorrência desta sexta-feira (19 de abril) envolvendo policiais, (Florianópolis) a Polícia Militar informa que:*

(1) segundo o relatório preliminar da equipe envolvida no atendimento, no inicio da tarde de hoje um parente de um policial militar recebeu uma ligação de seu locatário, informando que estavam invadindo e retirando objetos do local.
O policial e sua tia foram ao estabelecimento comercial e conversaram com as partes envolvidas, geraram uma ocorrência no COPOM e aguardavam uma viatura para confeccionar um BO, pois se tratava de um desacordo comercial.

(2) Ainda segundo as informações preliminares, enquanto aguardavam a chegada da viatura um carro em alta velocidade chegou ao local em alta velocidade, colidindo em uma barra de ferro de proteção do estacionamento, e deste veículo saiu um senhor alterado sacando uma arma de fogo e apontando para dois masculinos.

(3) Segundo informações colhidas, neste momento o policial militar no local, que não sabia que se tratava de um policial civil, sacou sua arma e verbalizou se identificando como policial e determinando que ele abaixasse a arma, quando então ocorreu a troca de tiros, restando o policial civil ferido no ombro e abdome e um masculino e uma feminina ambos feridos na perna.

(4) Logo em seguida as guarnições chegaram ao local, acionaram socorro para as vítimas e detiveram todos os envolvidos até chegada de apoio.

(5) As vítimas foram conduzidas para atendimento, sendo que nenhuma delas corre risco de vida e as testemunhas foram conduzidas para a CPP.

(6) A situação será investigada e apurada pelas polícias civil e militar por meio de inquéritos, que serão encaminhado à justiça pra apreciação e responsabilização dos envolvidos.

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