‘Pablo Escobar Catarinense’: esquema de traficante revela influência de SC no tráfico de sintéticos no Brasil

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Empresário preso por tráfico de drogas sintéticas se inspirava no estilo de vida do narcotraficante colombiano, enviava substâncias pelos Correios e faturava R$ 1 milhão por mês

Reportagem: Caroline Borges
Edição: Schirlei Alves

Em uma casa alugada no bairro Pinheira em Palhoça, na Grande Florianópolis, Douglas Gonçalves prepara mais uma remessa de ecstasy da sua produção caseira em ascensão.

Para acelerar o trabalho clandestino que ocorre no laboratório camuflado, o traficante de 30 anos contratou dois funcionários e os incumbiu de produzir e embalar os comprimidos. 

Douglas em uma foto nas redes sociais – Foto: Reprodução/ Redes Sociais/ND

Douglas é conhecido pela presença em festas eletrônicas de alto padrão de Balneário Camboriú, no Vale do Itajaí, e Jurerê Internacional, em Florianópolis. Ele também é empresário, pois é dono de uma confecção de camisetas. 

Natural do pequeno município de Gaspar, no Vale do Itajaí, se inspira no estilo de vida do narcotraficante colombiano Pablo Escobar.

Embora ambos fossem extravagantes e a renda de Douglas seja significativa, ainda há um abismo entre os padrões financeiros dos dois personagens. 

Primeira foto pública de Pablo Escobar, quando ele foi preso – Foto: Reprodução/ND

A droga produzida pelo catarinense é enviada pelos serviços postais para venda e consumo em vários cantos do Brasil.

O entorpecente produzido por Escobar, no entanto, cruzava fronteiras com aeronaves e em quantidades infinitamente mais expressivas.  

Atraque

O trabalho no laboratório enjambrado na casa alugada de Palhoça funciona a todo vapor até que, na tarde do dia 20 de julho de 2019, um sábado, Douglas e seus ‘funcionários’ são surpreendidos pela polícia. 

Os colchões colocados nas paredes para abafar o barulho da fábrica artesanal não foram suficientes para disfarçar o negócio ilegal. A boa vida projetada sobre o negócio ilícito chamou a atenção e teve fim. Quando algemadas, as mãos de Douglas ainda estavam sujas da substância utilizada para produzir o psicotrópico.  

Overdose

A mistura preparada pelo trio continha como matéria-prima uma poderosa droga sintética conhecida como MDMA. Responsável por mais de 200 overdoses em Santa Catarina nos últimos cinco anos, o composto que ganha cores, desenhos e nomes diferentes tem feito cada vez mais a ‘cabeça’ de jovens em festas. 

Os policiais que coordenaram a operação El Patrón, batizada com o apelido de Escobar e que culminou com a prisão dele, são de Brasília. Fazia um ano que os investigadores do Distrito Federal procuravam o catarinense, agora preso e denunciado por tráfico e associação para o tráfico de drogas. 

Prisão de Douglas Gonçalves em Palhoça – Foto: Polícia Civil/Divulgação/ND

Diversão e morte

A caçada começou em junho de 2018, quando a estudante de enfermagem Ana Carolina Lessa, 19 anos, morreu por overdose após ingerir comprimidos de ecstasy que, segundo a polícia, foram preparados no laboratório clandestino em Palhoça. 

A menina consumiu a droga em uma festa rave, em Brasília. Ela começou a passar mal na madrugada. Ao chegar em casa, dormiu. Depois de algumas horas de sono, acordou e ainda se sentia mal. Foi quando Ana Carolina procurou um hospital. A morte dela foi confirmada 15 horas após ter dado entrada na unidade de saúde.  

Ana Carolina Lessa, 19 anos, morreu por overdose de ecstasy – Foto: Reprodução/Redes Sociais/ND

A partir da morte da jovem estudante é que os agentes passaram a rastrear a droga consumida por ela e descobriram o esquema que tinha como ponto de venda a internet. 

A polícia do Distrito Federal descortinou a vida luxuosa levada pelo traficante considerado um dos grandes fabricantes desse tipo de entorpecente em Santa Catarina. 

Formado em Ciências Contábeis, antes de ser preso, Douglas levava uma vida agitada no litoral. Modelo, com físico em dia e o corpo coberto por tatuagens, fugia do estereótipo de traficante comum que a polícia costuma prender. 

Posava para fotos com as roupas feitas pela confecção da qual era sócio e morava em um condomínio de alto padrão em Balneário Camboriú. Douglas também ostentava cinco carros de luxo, entre eles, duas BMWs.

Douglas em uma foto nas redes sociais – Foto: Reprodução/ Redes Sociais/ND

No dia da prisão, além de apreender comprimidos que haviam acabado de sair da forma, a polícia encontrou mais cinco quilos do MDMA. A substância em pó seria prensada, misturada com outros produtos e vendida. A quantidade encontrada renderia até 50 mil pílulas. 

Segundo a polícia, a quantia representava apenas 25% da remessa mensal feita por Douglas. A estimativa é de que ele fabricava 200 mil comprimidos por mês.

A produção mensal de Douglas foi maior do que a apreensão anual da polícias Civil e Militar em 2019. 

Carros de luxo apreendidos pela Polícia Civil durante a operação – Foto: Polícia Civil de Santa Catarina/Divulgação

Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação, no Portal da Transparência do Governo do Estado, mostram que ao longo de todo o ano, as polícias tiraram de circulação 110 mil comprimidos. 

Nos anos anteriores, a quantidade de drogas apreendidas foi semelhante. Em 2018, foram 123 mil comprimidos, enquanto que em em 2017, foram 142 mil. 

SC protagonista na distribuição de drogas

Drogas apreendidas pela Polícia Civil durante a prisão do empresário – Foto: Polícia Civil do Distrito Federal/ND

O potencial turístico no litoral e os luxuosos empreendimentos à beira-mar fazem de Santa Catarina uma das capitais da música eletrônica e referência para raves e baladas. Esse contexto, segundo a polícia, contribui para que o Estado seja protagonista na distribuição de drogas sintéticas país afora. 

Chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes de Santa Catarina, Cláudio Monteiro afirma que esse panorama torna mais fácil a movimentação de drogas sintéticas pelo território. 

O delegado afirma que o setor de inteligência da Polícia Civil monitora a movimentação das drogas no Estado e consegue deflagrar atraques de grandes proporções, o que ajuda a conter o avanço desse tipo de droga no território. 

“A gente percebe que o nosso Estado é um dos grandes pontos do país de distribuição dessas substâncias. As drogas saem daqui e vão até mesmo para a Europa, Canadá e Oceania. A gente trabalha para sufocar isso cada vez mais”, afirma.  

Mesmo que as apreensões feitas pela polícia sejam inferiores a quantidade de drogas produzida em um mês por Douglas, o trabalho de investigação se destaca em Santa Catarina. 

No Rio Grande do Sul, por exemplo, onde a população é praticamente o dobro, a Secretaria de Segurança Pública contabilizou a apreensão de 20,5 mil comprimidos de ecstasy em 2019. A quantia corresponde a apenas 22% do total de drogas interceptadas em Santa Catarina no mesmo período (110 mil). 

Polícia Federal também atua

As apreensões não são feitas apenas pelas polícias Civil e Militar. Em 2018, a Polícia Federal apreendeu 12,2 mil comprimidos em Santa Catarina. Os agentes fiscalizam a entrada e saída de pessoas do território catarinense, seja pelas estradas, portos ou aeroportos.

A Polícia Rodoviária Federal, por sua vez, apreendeu 27 mil comprimidos de ecstasy em rodovias federais em Santa Catarina. 

Negociação em shopping da Beira-Mar Norte

Em outubro do ano passado, em plena luz do dia, a Polícia Civil interceptou a entrega de quatro mil comprimidos de ecstasy em Florianópolis. O endereço da negociação foi o estacionamento de um shopping na Beira-Mar Norte, uma das áreas mais caras do território catarinense. 

Droga apreendida em estacionamento de shopping de Florianópolis – Foto: Polícia Civil/ND

Guardados em três sacos, os comprimidos nas cores rosa, amarelo e mostarda foram avaliados em R$ 100 mil e seriam distribuídos aos dealers (vendedores de balada). 

Responsável pela investigação, o delegado Walter Loyola afirma que o destino seriam as baladas do litoral. 

Segundo Loyola, muitas festas famosas da Ilha têm como público-alvo os clientes desses traficantes. “O tráfico precisa de gente que compre a droga e, aqui, a demanda é enorme”, comentou. 

Como  o público é “diferenciado”, explica o delegado, o preço também é distinto das drogas convencionais, como maconha. Um comprimido de ecstasy em Jurerê Internacional varia entre R$ 50 a R$ 70. Além disso, os revendedores, normalmente, frequentam as mesmas festas, vestem roupas parecidas e são da mesma classe social dos consumidores. 

Na ação que terminou com a apreensão no shopping, três homens apontados como intermediadores foram presos. 

Consumo de ecstasy aumento 180,5% em 13 anos no mundo

Tendência entre os jovens, as drogas sintéticas não aumentaram de volume vertiginosamente dentro dos escritórios das polícias catarinenses, apesar de serem cada vez mais consumidas. 

Estudo da UNODC (Escritório de Drogas e Crime das Nações Unidas) identificou que o consumo da substância bateu recorde em 2016, quando 21,6 milhões de pessoas afirmaram terem experimentado o ecstasy no mundo. Se comparado ao ano de 2003, quando a pesquisa também foi realizada, o aumento foi de 180,5%. 

Essa realidade de consumo é um obstáculo para as forças de segurança que tentam rastrear a movimentação da droga sintética no território. 

Coordenador de Repressão às Drogas de Brasília, delegado Rogério Henrique Oliveira, afirma que os grupos criminosos mudam o endereço dos laboratórios com frequência. 

A mesma realidade foi verificada com o traficante catarinense capturado em Palhoça. Douglas tinha outras duas fábricas além do laboratório na casa alugada no bairro Pinheira. Ambos estavam localizados em Joinville. As casas foram descobertas antes da prisão. Na ocasião, ele não foi encontrado. 

Outra característica comum entre os traficantes da droga sintética é a forma como eles se organizam pelas redes sociais. Eles mudam frequentemente de telefone e de perfil na internet.

Um livro com a contabilidade bem organizada também foi encontrado na fábrica clandestina na casa em Palhoça. 

 “Com certeza, eles eram muito bem organizados e sabiam o que estavam fazendo”, disse o delegado de Brasília.  

Na caçada por Douglas, a polícia interceptou um áudio enviado por meio de um aplicativo de conversas em que uma pessoa orienta os participantes do grupo a retirarem uma página do ar e a mudar o número do celular. 

Correspondência da droga

Embaladas, as substâncias fabricadas por Douglas cruzavam o território nacional por meio dos serviços postais dos Correios. Os principais destinos eram São Paulo e Bahia. A partir desses lugares, os intermediários revendiam por meio de páginas na internet e por grupos no WhatsApp e Telegram. 

Um pacto com a droga chegou a ser interceptado em uma agência dos Correios em Brasília. A remessa foi designada como documento e seria entregue em um bairro na região metropolitana da capital do país.  

Polícia Federal interceptou droga que foi enviada pelos Correios em Brasília – Foto: Polícia Civil do Distrito Federal/ND

Perfil 

Apesar de produzir quantidade mensal de droga superior a apreensão das polícias Civil e Militar em um ano, e de se espelhar no estilo de vida de Pablo Escobar, o catarinense Douglas Gonçalves não era, nem de perto, um traficante à altura do colombiano

No auge de Escobar, em meados de 1980, a droga do momento era a cocaína e ele fazia em média US$ 420 milhões por semana com o comércio ilegal. O colombiano, que tinha sua carteira de clientes em maior parte nos Estados Unidos, atuou por quase duas décadas. As informações estão no livro Mi Hermano Pablo, publicado em 2008, e escrito por seu irmão, Roberto Escobar.

Já Douglas Gonçalves, segundo estimativa da polícia, faturava R$ 1 milhão por mês. Segundo o delegado Cláudio Monteiro, embora o negócio do catarinense estivesse no início, estava em ascendência. Douglas vendia drogas há, pelo menos, três anos. 

A característica copiada por Douglas no estilo de Escobar foi mesmo a extravagância. Nenhum dos dois era discreto. Ambos marcavam presença em eventos e festas, cada um em sua época. 

Douglas em uma foto nas redes sociais – Foto: Reprodução/ Redes Sociais/ND

Assim como Escobar, Douglas estava se tornando famoso no meio em que vivia e foi essa indiscrição que facilitou a sua captura pela polícia. 

“Ele gostava de se exibir nas redes, postava fotos, vivia uma vida que não podia viver com o dinheiro que ganhava da loja dele. As pessoas nesse ramo são mais quietas e discretas, o que dificulta no nosso trabalho”, avaliou o delegado de Brasília, Rogério Henrique Oliveira.

Efeitos colaterais

Consumido em pistas de dança de vários estilos, mas especialmente em festas de música eletrônica, o ecstasy, também chamado de Superman, Michael Douglas, Madonna ou bala, demora entre 20 e 30 minutos para percorrer o corpo e bater no cérebro. 

A partir daí, a substância contida na pequena, mas poderosa pílula, transforma as sensações de seus usuários. Com a intensificação das percepções sensoriais, a droga aumenta os sentidos visuais e auditivos. 

Tadeu Lemos, médico especializado no tratamento de dependentes químicos, afirma que os indivíduos sentem-se mais sociáveis. 

“É o que chamamos de efeito entactógeno. Por isso, já foi conhecida como pílula do amor, mas é importante ressaltar que não tem qualquer efeito sobre a excitação ou o desejo sexual”, explicou. 

Chefe do departamento de farmacologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), o professor explica que, por outro lado, os efeitos da droga são perigosos. 

Além de ser viciar, tanto quanto a cocaína, aumenta a temperatura corporal e a pressão arterial. Náuseas, tremores, crises de pânico, depressão, delírios e alucinações também são frequentes. Os sintomas duram em torno de 2 horas. Em alguns organismos, os efeitos podem durar até 10 horas. 

Apreensão de ecstasy produzido pelo catarinense – Foto: Polícia Civil do Distrito Federal/ND

Mistura perigosa

Matéria-prima e combustível essencial para a festa de muitos jovens, o MDMA foi sintetizado em 1912 para ser um inibidor de apetite. No entanto, os efeitos adversos se popularizaram entre as ruas da Europa e dos Estados Unidos. Nos anos 1980, a substância chegou no Brasil e se popularizou. 

Mas por ser cara e de difícil produção, a metilenodioximetanfetamina passou por várias adulterações. Atualmente, traficantes chegam a adicionar pó de guaraná e até mesmo cocaína. 

É uma roleta-russa comprar drogas de um desconhecido na balada. Na melhor das hipóteses, a qualidade do produto pode não surtir efeitos. Porém, as drogas proibidas  e muito longe do debate em torno da legalização, têm potencial para matar.

“Essas adulterações, que são comuns, trazem riscos adicionais aos usuários, podendo inclusive serem letais”, destacou o médico. 

Legalização em debate

Para o especialista, a legalização, ao menos por hora, não é solução. Segundo Tadeu, para iniciar um debate sobre o assunto é necessário considerar o contexto brasileiro que, na opinião do professor, não possui estrutura pública, política sócio-econômica e de saúde para isso. 

“Pensar que no nosso contexto brasileiro a legalização de uma droga como o ecstasy contribuiria para o controle das suas adulterações chega a ser jocoso, pois em nosso país ainda não se conquistou o controle sobre a adulteração e comércio ilícito de bebidas alcoólicas e cigarro, principalmente para menores de idade”, afirmou. 

Caçado e preso

Sete meses após a captura em Palhoça, o traficante catarinense continua preso preventivamente na Penitenciária de Florianópolis. O processo corre na 1ª Vara Criminal de Palhoça. Nos últimos meses, a defesa de Douglas tentou a liberdade provisória dele por duas vezes, mas sem sucesso.  

Em 19 de dezembro do ano passado, quando houve o último pedido de revogação da prisão, a juíza Viviana Gazaniga Maia, destacou que a liberdade do denunciado colocaria em risco a garantia da ordem pública, “que se encontra fragilizada com a proliferação do comércio espúrio, e trazer de volta a necessária paz social”. Uma audiência está marcada para 29 de fevereiro. 

Procurada pela reportagem para uma entrevista com Douglas, a defesa do empresário não quis se manifestar. Raquel Salgado, contesta a investigação da polícia e nega que o rapaz seja chefe do grupo. 

Delegado Cláudio Monteiro – Arquivo ND

Além de Douglas, Thalys de Amorim e Matheus Kretzer de Freitas, foram denunciados pela Justiça. Eles seriam os ‘funcionários’ do catarinense e foram presos no mesmo dia, na casa em Palhoça.

Para o delegado Monteiro, as histórias do colombiano e do catarinense, de certa forma, cruzaram-se. Escobar foi morto em 2 de dezembro de 1993 após uma perseguição policial. Douglas foi preso e aguarda a sentença da Justiça na cadeia. 

“É importante as pessoas saberem que o crime não compensa. Uma hora a polícia vai conseguir pegar o traficante”, concluiu Monteiro.