Procon notifica Zara de Florianópolis sobre uso de código racista em loja

Após abertura de investigação de caso de racismo no Ceará, o Procon de Santa Catarina estabeleceu um prazo de 10 dias para que a Zara do Shopping Villa Romana informe se utilizou o código "Zara Zerou"

A loja Zara do Shopping Villa Romana, em Florianópolis, tem um prazo de dez dias para informar ao Procon de Santa Catarina se existe um código para discriminação de pessoas instalado no estabelecimento.

A ação ocorre após a abertura de investigação pela Polícia Civil do Ceará, depois de uma delegada ser vítima de racismo em uma loja da marca em Fortaleza, capital do Estado.

Agentes do Procon em ação na Zara de FlorianópolisProcon de Santa Catarina notificou a loja da Zara no Shopping Villa Romana, em Florianópolis – Foto: Divulgação/Procon SC

“As últimas notícias veiculadas na mídia trouxeram a triste realidade da discriminação racial e preconceito em uma conceituada loja de departamento, presente em todo o país, a Zara”, diz a nota emitida pelo Procon estadual.

Durante a semana, o assunto ganhou repercussão nacional pela denúncia da delegada Ana Paula Barroso, que registrou um boletim de ocorrência após ter sido barrada na entrada da loja no dia 14 de setembro. Ela denunciou o gerente por racismo.

A investigação da Polícia Civil encontrou indícios de que a unidade discrimina clientes pela cor da pele e vestimentas. Além disso, um código de alerta para entrada de clientes “fora do padrão” teria sido criado pela empresa.

A ação do Procon de Santa Catarina

Com a veiculação da notícia, o órgão catarinense decidiu verificar se há ou não uma reprodução da conduta no Estado. Confira a nota emitida pelo órgão:

“Após uma delegada ter denunciado ser vítima de racismo pelo gerente da loja, as investigações e depoimentos de testemunhas e ex-funcionários apontaram que supostamente existe um código de conduta compatível com este tipo de crime.

Os funcionários seriam orientados a utilizar o código ‘Zara Zerou’ para identificar pessoas que poderiam trazer  algum risco à loja, seriam elas negras e pessoas mal vestidas. Diante destas informações, o PROCON SC notificou a loja Zara, do Villa Romana Shopping, para que no prazo de 10 dias ela informe se há ou não um código para discriminação de pessoas.

E se em algum momento o “Zara Zerou” foi utilizado em algum momento e por qual motivo, além de informar se há alguma forma de discriminação entre seus clientes”.

O Procon estabeleceu um prazo de dez dias para que a loja localizada no Shopping Villa Romana, na Capital, responda aos seguintes questionamentos:

  • Que a Notificada informe se há algum código utilizado na loja para discriminar os consumidores;
  • Que a Notificada informe se a loja utiliza a frase ‘’Zara zerou’’, e em caso positivo, em quais situações e por qual motivo;
  • Que informe se há algum tipo de tratamento diferenciado para os possíveis clientes.

Resposta da Zara

A reportagem do ND+ entrou em contato com a Zara do Shopping Villa Romana neste sábado (23). No entanto, a administração da loja informou que o posicionamento será feito pelos representantes nacionais da varejista e que, até o momento, a franquia de Florianópolis não tem um parecer oficial.

A Zara Brasil emitiu uma nota sobre o caso em que diz que não teve acesso ao relatório da autoridade policial até sua divulgação nos meios de comunicação e afirmou que vai colaborar com as autoridades para “esclarecer que a atuação da loja durante a pandemia se fundamenta na aplicação dos protocolos de proteção à saúde, já que o decreto governamental em vigor estabelece a obrigatoriedade do uso de máscaras em ambientes públicos”.

Após a publicação de uma reportagem pelo UOL sobre as investigações do “alerta”, a varejista negou “a existência de um suposto código para discriminar clientes”. A marca diz, ainda, que conta com mais de 1.800 pessoas “de diversas raças e etnias, identidades de gênero, orientação sexual, religião e cultura.”

“Zara é uma empresa que não tolera nenhum tipo de discriminação e para a qual a diversidade, a multiculturalidade e o respeito são valores inerentes e inseparáveis da cultura corporativa. A Zara rechaça qualquer forma de racismo, que deve ser combatido com a máxima seriedade em todos os aspectos”, finaliza a nota.

Entenda o que é o código “Zara Zerou”

A mensagem era transmitida pelo sistema de som para que a equipe ficasse em “estado de alerta”, explica o delegado-geral da Polícia Civil do Ceará, Sérgio Pereira, que ouviu de ex-funcionários da loja que havia orientações para identificar pessoas que “tivessem estereótipos fora do padrão da loja”, clientes negros e vestidos com “roupas mais simples”, com o código Zara Zerou.

“A partir daquele momento aquela pessoa não seria mais tratada como cliente, mas como uma pessoa nociva ao atendimento normal”, acrescenta.

Loja da Zara é investigada por código de ‘alerta’ para entrada de negros – Foto: Heitor Pergher/Divulgação/NDLoja da Zara é investigada por código de ‘alerta’ para entrada de negros – Foto: Heitor Pergher/Divulgação/ND

“E, a partir dali, aquela pessoa deveria ser acompanhada de perto por funcionários”, detalhou Sérgio Pereira em entrevista coletiva.

A delegada Arlete Silveira, diretora do Departamento de Proteção a Grupos Vulneráveis, classificou a orientação como um “código de conduta de abordagem”.

“Quando chega alguém fora do perfil do consumidor da Zara, alguém diz Zara Zerou. É como se aquela pessoa deixasse de ser um consumidor para se tornar uma pessoa suspeita dentro do estabelecimento”, afirmou.

As investigações

A Zara não é formalmente investigada no inquérito concluído nesta semana com o indiciamento do gerente da loja do Ceará, Bruno Filipe Simões Antônio, por crime de racismo, mas poderá ser responsabilizada na esfera civil por danos morais.

“O acusado agiu deliberadamente praticando o crime de racismo e, segundo a investigação, havendo a possibilidade de ser uma política da loja”, pontua o delegado-geral. “Nós vemos indícios fortes de que esse tipo de tratamento discriminatório já foi registrado diversas vezes no mundo todo, não só aqui no Brasil”, acrescenta.

Conforme o portal Estadão, a Polícia Civil abriu uma segunda frente de investigação para apurar a conduta da empresa. O Ministério Público do Ceará disse que pediu acesso ao inquérito policial, mas questionado sobre o motivo do requerimento de compartilhamento, não retornou até o fechamento da reportagem.

Caso de racismo no Ceará

O ponto de partida foi o registro de um boletim de ocorrência pela  delegada Ana Paula Barroso após ter sido barrada na entrada da loja no dia 14 de setembro. Ela denunciou o gerente por racismo.

O funcionário nega que tenha discriminado a delegada. A versão dele é a de que Ana Paula tentou entrar na unidade sem máscara enquanto tomava um sorvete e, por isso, ele teria “orientado” o local adequado para que ela terminasse de comer.

Filmagens do shopping mostram que, minutos antes da abordagem, pessoas brancas entraram sem máscara na loja e não foram confrontadas por funcionários, inclusive foram atendidas pelo gerente.

“Houve um tratamento diferenciado. Dois pesos e duas medidas”, disse o delegado. “Quem é negro sabe que muitas vezes o preconceito é muito discreto, mas causa um dano irreparável”, afirmou Pereira.

Com a repercussão do caso, a Polícia Civil foi procurada por outras pessoas que disseram ter sido vítimas de racismo na unidade. Os relatos estão sob análise preliminar.

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