SC na rota do tráfico: como a droga entra nos contêineres, os destinos e vidas devastadas

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Só nos últimos três anos, a Receita Federal apreendeu R$ 2,2 bilhões de cocaína nos portos de Santa Catarina

Santa Catarina está na rota do tráfico internacional de drogas. Os números impressionam: quase 11,9 mil quilos de cocaína apreendidos nos últimos três anos em SC. Foram exatos 11.882 quilos flagrados pela Receita Federal entre os anos de 2019 e 2021 (até setembro) nos portos do Estado.

Na calculadora, o golpe ao tráfico representa cerca de 475, 2 milhões de dólares ou 2,4 bilhões de reais, considerando o preço da pasta base na Europa, principal destino do entorpecente.

cocaínaCocaína: além dos efeitos nocivos à saúde, a droga leva ao aumento da criminalidade, financiamento de organizações criminosas, lavagem de dinheiro, destrói sonhos, carreiras e famílias. – Foto: Scioeducation/Divulgação ND

Menos drogas, menos violência, menos doentes, menos vidas devastadas. É sob esse ângulo que avaliam as forças de repressão, como a Receita Federal, e segurança pública do País.

A reportagem do Portal ND+ conversou com Tusyoshi Ueda, auditor-fiscal e chefe da Divisão de Repressão ao Contrabando e Descaminho da Receita Federal nos Estados do Paraná e Santa Catarina, para entender como funciona o crime, a fiscalização e as apreensões.

Neste ano, até agora, foram cinco operações da Receita que resultaram em 1,9 mil quilos de cocaína apreendidos. Foram duas apreensões em Navegantes, no terminal de cargas, cuja droga (1.080 quilos) teria como destino França e Países Baixos; e três apreensões no Porto de Itapoá, Litoral Norte, totalizando 839 quilos. Neste caso, traficantes da Espanha e Alemanha não receberam a encomenda.

No ano passado, só no Porto de Itapoá, foram interceptados 4.314 quilos que iriam continuar a alimentar o crime organizado na Holanda, Espanha, Marrocos, Bélgica e Itália. Houve também três grandes apreensões no Porto de Itajaí.

apreensão de cocaína no porto de itapoáReceita Federal apreendeu, no dia 24 de agosto deste ano, 350 kg de cocaína no Porto de Itapoá – Foto: Receita Federal/Divulgação ND
Apreensões de cocaína em SC – Foto: Dados da Receita FederalApreensões de cocaína em SC – Foto: Dados da Receita Federal

Como a droga vai parar no contêiner?

Há diversas formas usadas pelo crime organizado para tentar driblar a fiscalização e ocultar a droga. Umas delas é inserir o entorpecente dentro de outra mercadoria, como paletes de madeira, maquinários, compotas de frutas, dentro das próprias frutas, em cavidades do próprio contêiner, entre outras. Muitas vezes, bolsas cheias de drogas são introduzidas no contêiner, que é fechado com lacre clonado para não levantar suspeitas.

Para que isso aconteça, pessoas são aliciadas mediante pagamento para cometer o crime. Outras entregam informações como momento do embarque, que mercadoria vai levar e para onde.

“Há uma rede de pessoas cooptadas pelo crime para cometer crime”, resume Tusyoshi Ueda.

Em Santa Catarina houve, basicamente, dois tipos de apreensões: quando a droga é introduzida e embarca para o destino sem o conhecimento do exportador e aquelas em que empresas laranjas são criadas para simular uma exportação. Neste caso, geralmente, a cocaína estava oculta nas cargas, especialmente de madeira.

Mas a fiscalização está de olho e tem como principal aliada a tecnologia.

VÍDEO DE UMA DAS APREENSÕES:

A carga de cocaína apreendida em Navegantes tinha como destino o Porto de Rotterdam, nos Países Baixos – Vídeo: Receita Federal/Divulgação

Fiscalização

Entre os recursos utilizados pela Receita Federal para combater o tráfico internacional de drogas estão escâneres móveis e fixos, aeronaves, lanchas, drones, equipamentos de leitura de placas de veículos, reconhecimento facial (nesse caso, em aeroporto) cães de faro, sistemas de monitoramento permanente nos ambientes onde se processa a exportação, controle de entrada e saída de pessoas e veículos, além do aprimoramento constante de soluções com uso de tecnologias modernas para tratamento da informação (banco de dados) e gestão de risco. 

Também há cooperação com adidâncias em diversos países e organismos internacionais que atuam no combate ao tráfico. Isto para troca rápida de informações a fim de dificultar a ação dos criminosos. 

Quando uma carga suspeita já está em alto mar, por exemplo, é feito contato com a alfândega do país de destino para que lá se faça a averiguação e apreensão da droga, se for o caso.

Inclusive, já ocorreram diversas apreensões no exterior decorrentes de  informações repassadas pela aduana brasileira, frisou o chefe da Divisão de Repressão ao Contrabando e Descaminho da Receita Federal.

Depois de apreendidas as cargas, a Polícia abre inquéritos para investigar os criminosos e usam material como registros de filmagens, cruzamento de informações e perícias.

Tecnologia no combate ao crime

Além da fiscalização e presença constante nos portos, onde a maioria das apreensões ocorre, a Receita Federal aposta no uso da tecnologia para “fazer mais com menos”.

“Precisamos usar a tecnologia a nosso favor e capacitar os servidores. Vivemos um momento de restrições orçamentárias e isso tem afetado, por exemplo, a realização concurso púbico”, comenta Tusyoshi Ueda. 

O auditor faz questão de dizer, no entanto, que a fiscalização é intensa e permanente. Inclusive, há uma equipe dedicada a avaliar os riscos baseada na informação, como suspeita na entrada de um caminhão, imagens de câmeras, raio-x, entre outras.

Esse grupo de risco conjuga todas essas informações e faz a gestão de risco. Se há um grau que indica alguma suspeita a averiguação é feita”, complementa. “A Receita está para coibir a fraude e tráfico é fraude”, destaca Tusyoshi Ueda. 

Tusyoshi Ueda, auditor-fiscalTusyoshi Ueda, auditor-fiscal, chefe da Divisão de Repressão ao Contrabando e Descaminho da Receita Federal nos Estados do Paraná e Santa Catarina. – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND

Um dos desafios da Receita Federal é garantir o fluxo do comércio exterior.  Por isso, busca combater a fraude na mesma intensidade em que agiliza os trâmites para não travar a economia que depende dos portos.

Outro desafio dos órgãos de combate ao narcotráfico é o tamanho das fronteiras, uma vez que os grandes fornecedores de cocaína estão na América do Sul, como Colômbia, Peru, Bolívia e Venezuela.

São mais de 15 mil km terrestres e 7.367 km marítimas, sem contar os aeroportos.

“Muitos pontos secos, sem barreira. Por isso, o controle aduaneiro torna-se desafiante”, pondera o auditor-fiscal.

Mesmo assim, a Receita tem apresentado bons resultados em apreensões. No ano passado, cerca de 47 toneladas de cocaína foram apreendidas nos portos de todo o Brasil.

Cão de faro Enzo foi o responsável por encontrar 543 kg de cocaína no terminal de cargas de NavegantesCão de faro Enzo foi o responsável por encontrar 543 kg de cocaína no terminal de cargas de Navegantes no dia 4 de agosto deste ano  – Foto: Receita Federal/Divulgação

Fato, no entanto, que muita droga ainda escapa da fiscalização e chega no destino para financiar o crime organizado. Segundo um relatório recente da Organização das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc), estima-se que  foram produzidas 1.010 toneladas de cocaína pura em 2020 só na Colômbia. E grande parte da produção passa pelo Brasil seja via marítima, aérea ou terrestre.

Justamente por causa desse desafio, o Brasil conta com o Programa Integrado de Proteção das Fronteiras (PPIF), que reúne vários órgãos de segurança pública. A ideia é combater a entrada do entorpecente no país. “Se combatemos a entrada, minimizamos a saída.

“E, claro, isso só é possível com uso intensivo de tecnologia, conclui Tusyoshi Ueda, auditor-fiscal, chefe da Divisão de Repressão ao Contrabando e Descaminho da Receita Federal.

“Sem tecnologia, não se consegue varrer o crime.”

Destinos e kg de cocaína apreendidos:

Bélgica: 4.889,5
Holanda: 2.484,2
Espanha: 1.832
Marrocos: 645,5
Itália: 523,5
Países Baixos: 543
França:  537
Malta: 382
Alemanha: 45

Abaixo, veja as tabelas com o detalhamento das apreensões dos últimos três anos:

É possível perceber nas tabelas abaixo que houve uma “migração” do crime nos últimos anos. Do eixo Itajaí/Navegantes passou para o Porto de Itapoá, no Litoral Norte do Estado. Foram nove apreensões em Itapoá, somando 5.353 quilos de cocaína.

Há duas razões, segundo o auditor-fiscal Tusyoshi Ueda. Uma delas é que, quando se intensifica a fiscalização e a investigação resulta na prisão de quadrilhas, como já houve em SC, há uma mudança de comportamento dos criminosos, que “fogem” de um porto para cometer o delito em outros locais. A outra razão é simplesmente o número de apreensões originadas a partir da fiscalização eficaz alinhada à gestão de informações que levanta a suspeita.

A intensificações das ações também podem influenciar na quantidade de drogas para o embarque, aponta a Receita Federal.

Apreensões de cocaína nos portos em 2021 – Foto: Dados da Receita FederalApreensões de cocaína nos portos em 2021 – Foto: Dados da Receita Federal
Apreensões de cocaína nos portos em 2020 – Foto: Dados da Receita FederalApreensões de cocaína nos portos em 2020 – Foto: Dados da Receita Federal
Apreensões de cocaína nos portos em 2019 – Foto: Dados da Receita FederalApreensões de cocaína nos portos em 2019 – Foto: Dados da Receita Federal