Superdosagem de morfina pode ter causado a morte de Bianca em Palhoça

Cartelas da substância foram encontradas no apartamento onde a jovem sofreu suposto mal súbito. Marido foi indiciado por feminicídio, mas caso continua sem resolução

– Se cuida, tá? Fica bem – diz irmã.
– Pode deixar. Amanhã estou abrindo uma conta para mim – responde Bianca.
Quando ir para casa me avisa. E apaga as mensagens – completa a irmã.
– Oii, mana, tá tudo certo – responde Bianca.
Linda, te amo muito muito – finaliza a irmã.

Às 17h14 do dia 28 de agosto de 2019, Bianca Mendonça de Castro, 25 anos, enviou uma mensagem à irmã mais velha, 39. Na mensagem, ela tranquiliza a “mana” e diz que “tá tudo certo”. A irmã responde logo depois e diz que a ama muito. A troca de mensagens foi a última conversa entre as irmãs.

Bianca Mendonça de Castro sofreu um suposto mal súbito na madrugada do dia 29 de agosto – Foto: Reprodução/Facebook/ND

Naquela madrugada, por volta das 3h30, Bianca sofreu suposto mal súbito que a levou à morte enquanto dormia, em seu apartamento, no bairro Bela Vista, em Palhoça. Ao lado dela estava o companheiro, Júlio César da Silva Rodrigues, 52 anos, com quem mantinha união estável há seis anos.

O laudo toxicológico presente nos autos do processo, ao qual o nd+ teve acesso com exclusividade, indica a presença de morfina no corpo dela. Para a polícia, o encontro da substância no sangue e no conteúdo gástrico é um indício de que Bianca pode ter sido morta por superdosagem da substância – 0 que pode ter ocasionado a parada respiratória. Apesar de considerar a hipótese, o IGP (Instituto Geral de Perícias) não conseguiu confirmar a causa da morte.

A polícia desconfiou que a morte dela não tenha sido por causas naturais e pediu a prisão de Júlio César. O companheiro dela foi preso temporariamente no dia 25 de setembro – durante as investigações. A defesa entrou com pedido liminar de habeas corpus e conseguiu a soltura dele 15 dias depois.

No fim de outubro de 2019, a delegada Raquel Freire, da DIC (Divisão de Investigação Criminal), terminou as investigações e decidiu indiciar o companheiro de Bianca pelo crime de feminicídio planejado com simulação de morte natural.

Após receber o inquérito policial, o Ministério Público, por sua vez, fez algumas considerações e pediu novas diligências à polícia.

A defesa de Julio Cesar alegou que a prisão preventiva teria sido prematura e pediu o aprofundamento das investigações.

Marcelo Gonzaga, que é advogado de Julio Cesar, pediu para que a polícia ouça novas testemunhas, dentre elas, amigos do casal; faça um exame para atestar a quantidade de morfina presente no organismo de Bianca, e tome ciência dos prontuários médicos da jovem.

Diante da complexidade do caso, o Ministério Público entendeu que havia necessidade de acolher os pedidos da defesa e fez a solicitação à Justiça para que novas diligências fossem providenciadas pela polícia. O pedido foi aceito pela Justiça em maio de 2020. A DIC recebeu prazo de 120 dias para providenciar as novas solicitações.

A madrugada da morte

No boletim de ocorrência registrado por Júlio César, ele conta que por volta das 3h30 acordou para ir ao banheiro e percebeu que Bianca roncava “de forma estranha” e “espumava” pelo nariz e boca. Ele diz que ligou para o Samu e foi orientado a realizar as manobras de primeiros socorros. Quando a ambulância chegou, os socorristas tentaram reanimá-la por 30 minutos. Apesar do esforço da equipe médica, Bianca não resistiu.

Segundo relatório da polícia, ao mesmo tempo em que Julio Cesar falava com o Samu, ligou para o cunhado – casado com a irmã mais velha de Bianca – para informar a situação. Ele utilizou o celular de Bianca para fazer a ligação. O cunhado, que é policial militar e estava de serviço, acionou o IGP para que se deslocasse até o apartamento do casal.

Dias após o ocorrido, foi instaurado o inquérito policial para apurar as circunstâncias da morte que pareceram “nebulosas” à delegada. Inicialmente, foram chamados para prestar depoimento o próprio Júlio César, a irmã dela e o cunhado de Bianca.

Trecho do primeiro depoimento prestado por Júlio César da Silva Rodrigues no dia 9 de setembro de 2019 – Foto: Reprodução/ND

Em seu primeiro depoimento, Julio Cesar disse que teve uma noite tranquila com a esposa. Segundo consta nos autos, ele apresentava “um discurso decorado, com horas exatas e detalhes íntimos desnecessários, porém com a omissão de pontos relevantes”.

Chamou atenção o fato de Júlio Cesar ter congelado a comida do jantar que preparou para Bianca. Para a polícia, o ato teria sido previamente calculado para sustentar a versão de “jantar calmo e romântico”.

Conflito de versões

Os depoimentos da irmã, do cunhado e de uma amiga de Bianca revelaram que o casamento não ia tão bem quanto descreveu o companheiro dela. Segundo eles, Bianca desejava separar de Julio Cesar e já havia, inclusive, comunicado a ele sobre sua decisão.

A irmã de Bianca relatou à polícia que a jovem havia descoberto uma traição do marido. Depois disso, ela também teria iniciado um relacionamento extraconjugal.

Por meio de mensagens, Bianca revelou à irmã que sentia-se culpada pelos encontros com o rapaz, mas que “fazia tempo que não se sentia assim”.

A irmã aconselhou Bianca a apagar as mensagens, temendo que Júlio Cesar as visse. Em outro diálogo, Bianca lamentou o fim do relacionamento com o marido, mas relatou que eles brigavam o tempo todo.

A amiga de Bianca contou no depoimento que também sabia que o casal não estava bem. Dois dias antes de sua morte, Bianca enviou uma mensagem falando sobre a separação e pedindo segredo.

A amiga contou que Júlio César teria pedido para ficar um tempo no apartamento do casal até que o sítio dele em São Pedro de Alcântara ficasse pronto.

Em conversa com Bianca, a amiga perguntou se não era “só uma fase”. Bianca negou e disse: “já era o casamento. Só estou dando esse tempo para ele sair por respeito a tudo que vivemos juntos, se não já tinha ido embora hoje mesmo”.

No WhatsApp, Bianca revela à amiga que pediu a separação – Foto: Reprodução/ND

Um dia antes da morte

A irmã de Bianca contou à polícia que a jovem passou o último dia de vida com o amante. Júlio César teria procurado por ela, mas sem sucesso.  A perícia feita no celular dele indicou nove ligações para Bianca em um intervalo de uma hora. Pelo WhatsApp, a irmã de Bianca demonstrou preocupação e pediu para ela “ficar ligada”, pois poderia estar sendo seguida por ele.

A perícia no celular de Júlio revelou que, durante a noite, já com Bianca em casa, ele enviou uma mensagem a um amigo e confidenciou o desejo da esposa de se separar.

Ele aparentou preocupação e pediu ajuda, dizendo: “o caso é sério”. De acordo com o relatório de conclusão de inquérito, Júlio não mencionou a separação nos dois depoimentos que prestou como testemunha.

Bianca Mendonça de Castro e Júlio César da Silva Rodrigues estavam juntos há seis anos – Foto: Reprodução/Facebook/ND

O homem com quem Bianca passou o dia também prestou depoimento à polícia e disse que a jovem contou a ele que estava se separando e o motivo seria a descoberta da traição do marido.

Ele contou ainda que havia combinado com Bianca de apanhá-la às 9h do dia 29 de agosto para levá-la a um compromisso de trabalho.

No depoimento, o rapaz diz que foi acordado por volta desse horário com uma ligação do celular de Bianca. Ao atender e não ouvir com nitidez o “alô”, uma voz masculina teria emendado “Bianca faleceu nesta madrugada”. Assustado, o amante da jovem teria respondido “o quê?”, quando a voz retrucou “agora você ouviu né, filho da puta?”.

Além das ligações, havia mais de cinco mensagens apagadas enviadas do celular de Bianca. Chama atenção também que as mensagens tenham sido enviadas por volta das 3h, antes mesmo de o Samu ter sido acionado.

Mensagens e ligações levantam suspeita

Tanto a irmã, quanto o cunhado de Bianca disseram à polícia que notaram Júlio César mexendo no celular da esposa na manhã após a morte dela, inclusive no trajeto para a delegacia e já no local.

Mensagem de Júlio César – Foto: Reprodução/ND

Em determinado momento, ele ainda teria feito uma ligação por meio do celular antes de entregá-lo às autoridades.

O cunhado contou que ouviu Júlio César fazer uma ligação e dizer “tu acabou com uma família”. Ao apreenderem o aparelho, os agentes perceberam que ele fora bloqueado com uma senha de desenho geométrico, a qual Júlio afirmou desconhecer.

Indagado sobre o uso do celular de Bianca, Júlio César teria respondido ao cunhado que chupou o dedo da esposa – depois de morta – para esquentá-lo e desbloquear o aparelho.

A perícia realizada no celular dela revela que foram realizadas 14 chamadas entre 3h56 e 9h08 no dia anterior à morte.  A perícia apontou que das 14 chamadas, oito foram para o número do amante de Bianca.

Pedido de “nudes” em meio ao luto

A apreensão do aparelho celular de Júlio demonstrou, na visão da polícia, um comportamento que não condizia com quem estava enlutado. Ainda que ele tentasse passar essa imagem em postagens nas redes sociais e nos depoimentos, para os agentes, sua atitude nas conversas privadas do WhatsApp era outra.

A polícia estranha o fato de Júlio pedir “nudes” a duas mulheres, quatro dias após a morte de Bianca. Em um diálogo com um amigo, o companheiro dela admite que não mencionou em depoimento a existência do amante e uma discussão que teve com a mulher na noite de sua morte. O amigo aconselha Júlio a não mentir.

A briga entre o casal, o relacionamento extraconjugal de Bianca e o desejo de separação dela foram relatados por ele à polícia somente no terceiro interrogatório, desta vez como suspeito e não mais como testemunha, que prestado no dia da prisão.

Além das conversas com outras mulheres, a perícia também encontrou mensagens direcionadas a um advogado sobre o inventário. Em outro diálogo, Júlio aciona um contato que seria um suposto funcionário do IGP e o questiona sobre o resultado do laudo cadavérico.

Cartelas do medicamento Dimorf, sulfato de morfina, apreendidas no apartamento do casal – Foto: Reprodução/ND

Cartelas de morfina e estimulante sexual

A Polícia Civil cumpriu no fim de setembro de 2019, mandados de busca e apreensão no apartamento que Júlio César dividia com Bianca e em seu sítio em São Pedro de Alcântara – onde nada foi apreendido.

No apartamento, foram encontradas duas cartelas completas com 10 comprimidos de sulfato de morfina e uma cartela com quatro comprimidos.

Além disso, a polícia também recolheu uma lista com nomes de medicamentos, uma munição calibre 357 e o recipiente contendo a sobra da janta que o casal comeu na noite anterior à morte de Bianca.

No lixo, foram encontradas duas caixas de estimulante sexual e a nota fiscal da compra datada de 23 de setembro, menos de um mês após o falecimento.

Júlio César contou à polícia que ele mesmo utilizava a morfina no tratamento de um câncer de medula óssea, com o qual fora diagnosticado em 2018. No entanto, ele destacou que não era mais usuário do medicamento.

Estimulante sexual encontrado no apartamento de Júlio César e Bianca – Foto: Reprodução/ND

Laudo não aponta causa da morte

O laudo cadavérico indicou a presença de um líquido espumoso na boca e nariz de Bianca, além de pequenas irritações nas narinas e congestão pulmonar. A Polícia Civil enviou questionamentos ao IGP com relação aos resultados dos laudos.

O IGP confirmou à delegada que uma superdosagem de morfina pode levar a pessoa à morte em decorrência, geralmente, de insuficiência respiratória.

No entanto, o órgão afirma que não é possível excluir toda e qualquer possibilidade de morte natural no caso de Bianca, ainda que tenha apresentado sinais que batem com uma asfixia provocada por sedação de morfina.

O laudo pericial feito no local da ocorrência informou que não houve sinais de violência ou luta corporal no apartamento.

Laudo toxicológico indicou a presença de morfina no organismo de Bianca – Foto: Reprodução/ND

Defesa pede mais esclarecimentos

Após a conclusão do inquérito policial e o pedido de prisão preventiva de Júlio César, a defesa, representada pelo advogado Marcelo Gonzaga, pede o aprofundamento das investigações.

Foi solicitada uma análise médico-legal mais aprofundada, prontuários médicos referentes a duas internações de Bianca e a chamada de novas testemunhas a depor, a fim de mostrar outra versão dos fatos, além da versão apresentada pela família da jovem.

Os prontuários médicos requeridos pela defesa são relacionados à cirurgia bariátrica feita por Bianca em 2018 e a um suposto atendimento em uma emergência hospitalar, no mesmo ano, por intoxicação após ingerir comprimidos para dormir.

Contrapontos

A reportagem entrou em contato com o advogado de Júlio César na manhã de terça-feira (1º). Marcelo Gonzaga reforçou que a polícia apurou o caso analisando apenas uma circunstância da morte.

Segundo Gonzaga, quando houve o encaminhamento do inquérito ao juízo, a defesa identificou que alguns pontos mereciam ser mais bem esclarecidos. Como, por exemplo, laudos periciais complementares e o contexto médico de Bianca, uma vez que Júlio César disse que a esposa fazia uso constante de medicamentos.

Com o retorno do caso à delegada responsável, o advogado afirmou que parte dessas novas solicitações foi cumprida. Mas a pandemia pode ter influenciado no andamento do processo.

Parecer médico-legal emitido pelo IGP no dia 4 de dezembro de 2019 – Foto: Reprodução/ND

“Júlio sempre negou a prática de qualquer crime. Tanto ele, quanto a família aguardam as diligências para que haja o pronunciamento do MP e, posteriormente, o judicial”, afirmou.

Ainda na manhã de terça, a reportagem falou por meio do WhatsApp com a delegada Raquel Freire. Segundo ela, a Polícia Civil cumpre, atualmente, as novas solicitações requeridas pelo MP como a chamada de novas testemunhas e laudos periciais complementares.

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