Presidente da comissão de leilões de SC é afastado pelo secretário de Segurança

Grubba dissolveu grupo que acompanhava processo dos ferrosos devido suspeita de irregularidades na destinação de peças e motores dos pátios

Rosane Lima/ND
Decisão foi pautada em sindicância investigativa

Dez dias após a exoneração do delegado Claudio Monteiro da chefia da Deic (Diretoria Estadual de Investigações Criminais), o secretário de Segurança Pública, César Augusto Grubba, dissolveu, nesta quinta-feira (12), a Comissão Permanente de Leilões do Detran e afastou seus cinco membros. Entre os afastados, está o tenente-coronel José Theodósio de Souza Jr, que presidia a comissão e é suspeito de ter participado do desvio de motores e peças do Complexo Administrativo da SSP, em São José. A decisão foi tomada após análise de sindicância investigativa com cinco volumes e relatório de 32 páginas.

A sindicância foi instaurada pelo próprio Grubba, em dezembro, quando as denúncias de irregularidades chegaram à SSP. Durante o anúncio, o secretário ressaltou que o adjunto da SSP, coronel Fernando Rodrigues de Menezes, permanece no cargo. “Não há qualquer elemento na sindicância que aponte a participação do coronel Fernando nas irregularidades. Trata-se de um homem com 40 anos de Polícia Militar, com conduta exemplar, e tem toda a minha confiança”, declarou Grubba.

Aparentemente tranquilo,  Grubba  garante que a comissão de licitação foi dissolvida após a constatação de irregularidades no processo de retirada de motores do pátio do complexo administrativo da SSP, em 27 de dezembro do ano passado. “A decisão não tem nada a ver com tentativa de apaziguar a situação, foi tomada a partir de provas técnicas. Existe uma comissão processante, composta por um promotor de Justiça e uma delegada de polícia, que trabalhou nesta investigação”, justificou.

Além de Theodósio, foram afastados Dilmar Jahn, Gilberto Wilton da Silva, Jade Jeleno da Silva e Gilmar Pedro Teixeira. Eles devem retornar a suas funções de origem nas policias Civil e Militar. Paralelamente à sindicância, inquérito policial instaurado na Deic ainda não foi concluído. Segundo os delegados Alexandre Carvalho e Rodrigo Green, que cuidam do caso, Theodósio deverá ser indiciado pelos crimes de peculato, fraude em licitação e formação de quadrilha. O secretário César Grubba e o adjunto, coronel Fernando, devem depor no processo na próxima segunda-feira.

Theodósio autorizou saída irregular

O tenente-coronel José Theodósio de Souza Jr, que agora não faz mais parte da comissão de licitações do Detran, realizou leilão de 22.600 veículos em todo o Estado nos últimos dez anos. No dia 27 de dezembro, Theodósio autorizou a saída de 18 toneladas de materiais ferrosos do Complexo Administrativo da SSP, em São José. “A retirada das peças foi realizada com o meu acompanhamento, até, por exigência do Gerente do Complexo, que para liberar a entrada e a saída do caminhão condicionou a minha presença”, confirmou Theodósio.

Motores e demais peças, que deveriam ser desmontados e encaminhados para trituração, apreendidos em Joinville possivelmente seriam vendidos, como aponta as investigações da Deic. Theodósio afirmou que não tinha responsabilidade sobre o destino do material depois dele ter sido retirado do pátio da SSP. O destino das peças após serem entregues a empresa vencedora do leilão era de responsabilidade dela  e esta responsabilidade está prevista no contrato”, alegou.

A retirada das peças do pátio da SSP aconteceu em dezembro, durante recesso no Complexo Administrativo em São José. No período, a saída de qualquer tipo de material estava proibida por ordens do gerente do Complexo, Jorge Luiz Klöppel.

Toda a irregularidade no pátio da SSP chegou ao conhecimento do coronel Fernando Rodrigues de Menezes, adjunto de César Grubba, no dia 13 de dezembro através do próprio gerente do Complexo, Jorge Luiz Klöppel. Por email, Klöppel alertou o coronel Fernando de que estavam sendo retiradas do pátio apenas peças boas e não as sucatas, como previa a licitação para reciclagem dos ferrosos. Jorge Klöppel foi afastado da comissão de gerenciamento dos ferrosos dias depois da assinatura do contrato com a empresa que retirou as peças.

Gerente fez denúncias

O gerente do Complexo Administrativo da SSP em São José, Jorge Klöppel, está de férias. Depois de ser afastado da comissão que gerencia a licitação dos ferrosos, ele recebeu um email do diretor administrativo e financeiro da SSP, Carlos Augusto Thives de Carvalho, informando que a partir de maio ele não ocupará mais a gerencia da unidade. O fato foi negado pelo secretário Cesar Grubba.

Klöppel procurou a SSP no início de dezembro para denunciar desvios de peças do pátio do Complexo. Por email, ele chegou a comunicar o coronel Fernando de que motores avaliados em até R$ 15 mil estavam sendo levados como se fizessem parte do material ferroso inservível. Como resposta obteve a informação de que tudo estava dentro da legalidade.

O material foi retirado de dentro do pátio por Sidney Carlos Martins, dono da empresa que terceirizou o serviço para Gerdau, ganhadora da licitação.
 

Gerdau só queria ferrosos

A Gerdau paralisou todos os serviços de recolhimento de sucata nos depósitos da SSP. A Gerdau iria retirar 10 mil toneladas de ferro dos pátios da SSP. O material a ser recolhido foi classificado como sucata tipo I e sucata tipo II. Ficou firmado que a empresa pagaria de R$ 0,12 a R$ 0,19 por quilo de material recolhido, dependendo to tipo de sucata.

O Para execução do serviço, a Gerdau subcontratou a G-Truck. Em depoimento na Deic, o gerente de compras da multinacional informou que a escolha dos materiais eram feitas pelos funcionários da SSP. “Para a Gerdau interessa somente material ferrosos”, explicou aos policiais. No entanto, materiais diversos como baterias, parabrisas e motores (só os não identificáveis poderiam ser retirados) saíram do pátio no caminhão da G-Truck com o aval do tenente-coronel Theodósio.

Grandioso projeto em xeque

Os mais de 30 mil veículos que se amontoam pelos pátios aguardam há anos por um plano de destino. A ideia de vender o ferro para uma siderúrgica é exemplo de sucesso já aplicado em outros estados, como no Rio Grande do Sul. Mas desde a primeira carreta com 18 toneladas em materiais, que deixou o pátio da SSP, em São José, o processo está sob suspeita. Peças que poderiam ser reaproveitadas no mercado acabaram sendo levadas junto com os objetos do leilão, que previa a reciclagem apenas de material inservível. Motores, parabrisas, baterias, escapamentos e outros foram leiloados por preço de sucata. Ao irem parar em um ferre-velho de Joinville e postos no mercado a venda dessas peças resultaria em um negócio de altíssima margem de lucro. Exemplo disso é o motor de uma Scania apreendido pela Deic, avaliado em R$ 15 mil o motor foi leiloado por R$ 190.

Divulgação

Entenda o caso
– Na terça-feira, dia 3, é assinada a exoneração do diretor da Deic, delegado Claudio Monteiro por desvio de conduta. O delegado usou indevidamente R$ 1.300 referente a diárias da SSP em viagem pessoal para Miami.
-O fato vinha sendo tratado em sigilo, e só foi conhecido pelo público na quinta-feira, pelo ND Online.
– Após a saída de Monteiro, se iniciou, através das redes sociais, uma campanha pedindo a volta do delegado. Começam a surgir hipóteses de a demissão ter sido movida por interesses políticos. Foi marcada manifestação em frente a sede da SSP contra a queda do diretor da Deic.
-No dia 9, segunda-feira, cerca de 60 manifestantes compareceram na manifestação marcada no grupo de 30 mil membros. No mesmo dia o secretário de Segurança Pública, César Augusto Grubba, apresentou as provas que incriminavam Monteiro e justificaram sua exoneração.
-No dia 10, os delegados da Deic convocaram uma coletiva para divulgar detalhes da investigação de desvio de motores do pátio da SSP. As denúncias incriminavam membros do alto escalão da SSP.
-No dia 11, o adjunto do secretário de Segurança admite que motores saíram de forma irregular de dentro do pátio da SSP. Ele teria sido alertado através de denúncia feita pelo gerente da unidade, mas nega envolvimento com o desvio.
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