Relatos na web expõem violência sexual contra mulheres e crianças em Santa Catarina

Depoimentos com as hashtags #ExposedJoinville e #ExposedFloripa viralizaram nas redes sociais; Polícia Civil já apura casos relatados

“Ele me pegou no colo e tirou meu short. Isso me deixava muito mal”. Foi com essas palavras que mulheres de Santa Catarina relataram pelas redes sociais episódios de violência sexual. Os textos viralizaram nas últimas semanas após algumas vítimas usarem as hashtags #ExposedJoinville e #ExposedFloripa para expor os casos.

Além de relatos de importunação e abuso sexuais, alguns textos remontam casos de estupros que aconteceram ainda na infância e adolescência das vítimas. “Pode ser que ele não se lembre disso, mas eu me lembro muito bem”, conta uma adolescente em uma das mensagens. À época, ela conta que tinha 9 anos e o autor 19.

Reprodução Redes Sociais/ND

Os relatos são apenas algumas das centenas de casos sofridos por meninas e mulheres no Estado. Nas últimas semanas, as duas hashtags apareceram nos assuntos mais comentados do país no Twitter. E trouxeram novamente a discussão da violência sexual à tona. 

Com a repercussão, não demorou muito para que os relatos se espalhassem e saíssem do ambiente virtual. Há duas semanas, a Polícia Civil do Estado começou a investigar os casos. 

Investigações em Florianópolis

Em Florianópolis, a Dpcami (Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso) analisou as 80 postagens com a hashtag #ExposedFloripa que continham relatos. 

Segundo o delegado Gustavo Kremer, entre as publicações, o que mais chamou a atenção foi o número de textos sobre violência sexual contra vulnerável – crime que considera a faixa etária de 0 a 14 anos, e também quando a vítima não possui capacidade de oferecer resistência. “Alguns são bem pesados e fortes”,  relatou à reportagem do nd+

Até esta quarta-feira (3), oito procedimentos foram abertos na delegacia. Outros casos, segundo Kremer, teriam ocorrido nas cidades da Grande Florianópolis. As análises foram encaminhadas às delegacias especializadas de Palhoça e São José. Famílias ainda estão sendo localizadas. 

Ao longo das investigações, a Polícia Civil pode acionar ainda os conselhos tutelares. As famílias das vítimas e dos autores – casos sejam menores de idade – também podem ser responsabilizadas.

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Relato em Joinville

Após a repercussão, uma jovem de 18 anos moradora de Joinville, no Norte catarinense, decidiu contar sua história nas redes. Segundo o relato dela, que pediu para não ser identificada, a jovem foi vítima de abuso sexual enquanto estava desacordada após ter bebido, durante uma festa. 

“Lembro dele tendo me beijar e eu tentando falar que não”, diz ela em um trecho do relato. Apesar da ocorrência ter acontecido quando tinha 16 anos, o fato da garota estar inconsciente pode caracterizar violência contra vulnerável. 

“As únicas pessoas que sabem são as mais próximas possíveis, até porque demorei para assimilar e entender que tinha algo errado nisso e não era culpa minha”, desabafa.

A Polícia Civil informou que tomou conhecimento dos relatos em Joinville. Por meio de nota oficial, orientou que vítimas e testemunhas comuniquem os casos às autoridades. “Todas as denúncias e registros confeccionados  serão devidamente apurados”, informou a corporação.

Até a manhã desta terça-feira, a mulher não tinha procurado a polícia, mas estava pensando em iniciar um processo. “Se a polícia ver o relato e me procurar, eu acho que vou dar continuidade. Naquele tempo, esses assuntos não eram muito falados, por isso a gente não fazia nada”.  

Diálogo

Conforme o delegado Gustavo Kremer, é necessário que pais e responsáveis conversem com crianças e adolescentes sobre o assunto. Esse hábito pode evitar que casos de violência não sejam denunciados e acabem impunes.

“Alguns pais chegaram aqui e não sabiam o que estava acontecendo, e quando eu relatei, desataram a chorar. Orientamos que exista esse diálogo para que isso não ocorra”, destaca. 

Denuncie 

Além de conversar com crianças, a orientação é formalizar todas as denúncias junto à Polícia Civil. Além disso, nomes e outros dados pessoais dos suspeitos não devem ser expostos nas redes sociais. Segundo o delegado, a divulgação, no futuro, pode configurar crime de difamação. 

Para denunciar, as vítimas podem usar a estrutura do Disque 100, que  funciona 24 horas por dia, todos os dias do ano. As ligações podem ser feitas de todo o país, por discagem gratuita e de qualquer terminal telefônico. 

Em tempos de quarentena, a Dpcami criou um canal virtual de denúncias. Vítimas podem ligar para o Disque Denúncia no número 180 ou entrar em contato pelos aplicativos WhatsApp e Telegram, no número (48) 98844-0011. A delegacia virtual também pode ser utilizada.

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