“Sonhadora e muito batalhadora”, diz moradora sobre grávida assassinada em Canelinha

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Enganada nas últimas semanas de gestação e com muito planos para o futuro, jovem teve a vida interrompida após ser morta e ter a filha roubada do ventre

Na praça principal da cidade, em frente à Igreja Matriz de Canelinha, na Grande Florianópolis, Valdirene Silva de Souza lembra com a garganta apertada da ex-funcionária que considerava uma filha. Ainda sem acreditar na brutalidade que resultou na morte da jovem grávida e que chocou o país, a senhora de 51 anos se emociona: “Sonhadora e muito batalhadora”, conta a mulher tentando segurar as lágrimas.

Foi no mesmo período em que a jovem entrou na faculdade de pedagogia que Valdirene conheceu melhor a vítima assassinada na tarde de 27 de agosto. A professora trabalhou como atendente na papelaria da comerciante por cerca de quatro anos. Enganada por uma amiga nas últimas semanas de gestação, e com muito planos para o futuro, ela teve a vida interrompida após ser morta e ter a filha roubada do ventre

“Sonhadora e muito batalhadora”, diz moradora sobre grávida assassinada em Canelinha – Foto: Anderson Coelho/ND

Conhecida na cidade de pouco mais de 12 mil habitantes, a vítima do homicídio triplamente qualificado, nasceu, cresceu e viveu até os 24 anos em Canelinha. Ainda com 17 anos, entrou na faculdade no município de Brusque e, neste período, conseguiu um trabalho na papelaria da comerciante. 

“Ela disse que queria fazer toda a faculdade de pedagogia aqui com a gente. A gente achava que não, que não ia ficar todo esse tempo, mas ela ficou e a gente confiava muito nela. Ficava sozinha aqui, cuidava de tudo”, conta. 

Uma das memórias que Valdirene guarda da jovem é uma festa na sua casa. Convidada para a Primeira Comunhão de uma das filhas da comerciante, a professora se divertiu como uma criança: “Lembro dela lá brincando com as crianças, feliz”, diz. “Gosto dela como uma filha, era que nem uma filha minha”, lamenta. 

A jovem trabalhou na papelaria até 2017, quando tornou-se professora e foi dar aulas em uma escola infantil na cidade. Em outubro do ano passado, casou-se com o primeiro namorado e um dos melhores amigos. Eles se conheciam há cerca de 10 anos, esperavam a primeira filha. 

Por causa da diabetes e da gestação, que a fazia ser do grupo de risco da Covid-19, a jovem  estava afastada do trabalho nos últimos meses e aguardava o nascimento da bebê. Após sua morte, o companheiro tirou licença do mercado onde trabalha como açougueiro e agora cuida da criança. 

Os pais da gestante, que era filha única, também cuidam da bebê que nasceu prematura por conta do parto forçado. No momento do nascimento, a criança se machucou com a lâmina usada pela acusada do assassinato. Ela foi levada ao hospital de Florianópolis, onde se recuperou e recebeu alta no último domingo (6)

“Eles eram bem gente fina, bem quietos e na deles”, disse uma funcionária e colega de trabalho do agora viúvo. 

Lembranças

Apaixonada por crianças, a vítima adorava ensinar. Segundo uma amiga da professora, ela era muito gentil, carinhosa e por onde passava fazia amigos. “É muito difícil perder uma amiga como ela”, diz.

“Sonhadora e muito batalhadora”, diz moradora sobre grávida assassinada em Canelinha – Foto: Anderson Coelho/ND

A última vez que viu a professora, Valdirene estava trabalhando na papelaria. A jovem chegou e contou animada sobre os últimos preparativos para a gravidez.

“É assim que eu vou me lembrar dela. Eu não consegui dormir direito três dias com um aperto no peito. Dá muita saudade”, diz.

Apesar da ausência, Valdirene acredita que a lembrança da jovem alegre passa agora a ser contada pela filha sobrevivente do crime. “Consola essa perda e faz a gente pensar com carinho”, conta Valdirene.

Amigas ou conhecidas?

Assassina confessa, Rozalba Maria Grime, de 26 anos, disse que era amiga da vítima. Em testemunho um dia após o crime, Rozalba afirmou que as duas estudaram juntas no ensino médio, na Escola Estadual Básica Professora Minervina Laus, no centro do município.

Rozalba em depoimento à Polícia Civil – Foto: Reprodução/ND

A polícia, no entanto, não confirmou a versão. Segundo o delegado Paulo Alexandre Freyesleben e Silva, ambas eram apenas conhecidas, já que moravam na mesma cidade. 

Conforme as investigações da Polícia Civil, Rozalba se aproximou da jovem a partir de janeiro, quando descobriu que a vítima estava grávida. Foi nesse período em que a acusada teria perdido o bebê e passou a procurar outras mulheres com a gestação próxima para cometer o crime. 

Em um depoimento, uma amiga contou que a vítima estava incomodada com a forma como era abordada por Rozalba. No entanto, “o perfil dela com as pessoas, de ser gentil, não fez ela dar um corte”, disse o delegado. 

Além da vítima, a acusada abordou cerca de 10 outras mulheres grávidas da região. O propósito era sempre o mesmo: saber qual gênero do bebê, local em que morava e tempo de gestação. 

Além de Rozalba, o companheiro dela também está preso. Acusado pela participação do crime, Zulmar Schiestl, está no presídio de Tijucas, onde será ouvido novamente.

*A reportagem do nd+ não divulga o nome da vítima e familiares para preservar a identidade da bebê, como preconiza o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).

Contrapontos

Zulmar Schiestl

A defesa do senhor Zulmar, por meio do seu advogado, Dr. Ivan Roberto Martins Junior, tem a dizer que comprovará a sua inocência durante a instrução processual, bem como não medirá esforços até que venha à tona a verdade, qual seja, o fato de que o mesmo não teve nenhum tipo de participação nos crimes dos quais está sendo injustamente acusado.

Rozalba Maria Grime

A acusada solicitou um novo advogado pela Defensoria Pública de Santa Catarina. No andamento do processo, é o juiz  que deve nomear a defesa. Até a última atualização deste texto, o Tribunal de Justiça  não havia sido informado sobre o nome do novo defensor.

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