Skatista manezinha fala sobre vaga nas Olimpíadas e rotina durante a pandemia

Yndiara Asp, de 22 anos, um dos principais nomes do skate no Brasil conversou com a reportagem do nd+ sobre a carreira e desafios durante o período pandêmico

“Não é algo que tenhamos culpa. É momento de recarregar as energias”, afirmou a skatista manezinha, Yndiara Asp, sobre o momento vivido pelo esporte mundial.

Yndiara falou sobre os desafios da carreira diante do momento pandêmico – Foto: Rene Junior/Red Bull Content Pool

Ansiosa para voltar a “andar de skate com amigos”, a catarinense vê com carinho e ansiedade a possibilidade de disputar as Olimpíadas de Tóquio em 2021, adiada devido à pandemia do novo coronavírus (Covid-19).

Em entrevista ao nd+ a jovem de 22 anos, e um dos principais nomes do skate no Brasil, é 13ª colocada no ranking mundial, falou sobre a carreira, o tempo parada, a possibilidade de disputar os jogos Olímpicos, a relação com a família, além de projetos para o futuro.

Carreira

Aos 15 anos, Yndiara disputou sua primeira competição, na inauguração de uma pista de um amigo da escola. Com apenas três meses de skate, ela venceu seu primeiro campeonato, o Tigela Sk8club.

Em 2016, encarou seu primeiro Vans Park Series, tendo ficado entre as 10 melhores do mundo. Na final, disputada na Suécia, ficou em sexto no ranking mundial.

A partir de 2018, Yndiara entra para o time da Vans como a primeira skatista mulher profissional da marca no Brasil.

Confira a entrevista completa:

Preparação de um atleta de alto rendimento durante a pandemia

No começo procurei me adaptar ao máximo para realmente ficar em casa e fazer o que eu podia. Procurei exercitar bastante a parte física com atividades funcionais. Em relação ao skate, eu utilizei todos os instrumentos que poderia em casa. Tenho uma cama elástica, brincava simulando os movimentos, visualizava manobras para poder executar com mais facilidade.

Tempo livre

Aproveitei para fazer coisas que normalmente não dá tempo, como ficar com a família, recarregar as energias, ler bons livros e trabalhar muito a parte mental. Procurei aproveitar bem esse tempo. Não foi uma coisa que escolhemos, temos que aceitar, adaptar e fazer que de alguma forma esse tempo seja positivo.

Fator psicológico sabendo que poderia ter disputado uma Olimpíada

Aconteceu, não foi culpa nossa. Agora eu penso como vou chegar nisso? Tudo bem, não foi agora, talvez seja em 2021, só aumenta a jornada e o caminho até lá será cheio de novas experiências.

Yndiara durante competição – Foto: Teddy Morellec/Red Bull Content Pool

Rotina antes da pandemia

Eu não parava nem uma semana em casa, viajava direto. Era meio que skate todos os dias, cinco vezes na semana com amigos em várias pistas, vários lugares do mundo.

Inclusão do skate nas Olimpíadas e preparação para as competições

O skate é muito novo no mundo do esporte olímpico. É difícil falar que a gente ‘treina’. Nós andamos de skate. Quando estou em casa mantenho a rotina em uma clínica com exercícios funcionais. Os treinos acontecem mesmo na Seleção Brasileira, onde temos um treinador que nos passa treinamentos específicos. Ela [seleção] existe há cerca de dois anos.

Cancelamento dos campeonatos

Logo no início da quarentena em março teríamos um campeonato no Peru. Quando esse campeonato foi cancelado começamos a entender as circunstancias e me veio à cabeça que tudo poderia parar. Acredito que os campeonatos sejam realizados em um melhor momento e que sejam motivos para comemoração.

Início da profissão

Ganhei meu primeiro skate do meu pai aos sete anos, eu acompanhava meus amigos brincando de skate na rua em Florianópolis até que pedi um para o meu pai de presente. Aos 15 foi quando comecei a competir, a coisas aconteceram muito rápido. As oportunidades foram aparecendo primeiro em Santa Catarina, depois no Brasil e campeonatos fora do país.

Primeira viagem sozinha

Meus primeiros campeonatos fora aconteceram em 2013. Minha família sempre dava um jeito de estar comigo, seja por celular, ligação ou mensagem, sempre tentando me dar todas as dicas para eu conseguir me virar. Um caso curioso que aconteceu logo no início da minha carreira foi quando precisei ir competir em Porto Alegre e acabei acampando na pista sozinha. Meu pai ia tentar ir no dia seguinte, ia me levar alguns pertences mas não conseguiu. Acabei acampando sozinha, sem colchão e ainda deu o maior temporal, era no interior da cidade, caiam muitos raios. A parte boa foi que acabei ganhando o evento [risos].

Primeiro campeonato fora do Brasil

Foi em 2016 em uma competição no Estados Unidos. Foi uma viagem de 50 dias, fui com amigas e os pais delas. Fomos gravar um documentário para o canal OFF. Ninguém falava inglês direito, foi difícil se virar.

Rotina foi completamente modificada após o início da pandemia – Foto: Helge Tscharn/Red Bull Content Pool

Conquista mais importante da carreira

Foi quando ganhei meu Vans Park Series. É um circuito mundial disputado em várias etapas. Em 2018 acabei terminando na segunda posição. Voltei em 2019 e tinha na minha cabeça que me daria bem. É um evento muito bacana em São Paulo. Foi a primeira vez que levei minha família para assistir. 2019 em si foi muito positivo, foi o ano que mais viajei para competir. Eu passei 231 dias do ano viajando. Fui sete vezes para os Estados Unidos, duas para a China, uma vez para a Europa, uma pra Argentina, duas pro Rio de Janeiro, uma para Brasília, uma para Belo Horizonte, e 16 vezes para São Paulo.

Família e rotina

Eles [família] sentem bastante saudade. Meus pais e meu irmão sempre me apoiaram e isso foi essencial desde o começo. Às vezes não tinha como pagar para ir para os campeonatos, meus pais davam um jeito. É difícil eles conseguirem ir comigo para uma competição. Isso foi me dando mais liberdade, independência, me fez aprender a lidar com as situações.

Redes sociais e outros gostos

Nesse período de tempo mais livre tive espaço para a criatividade aflorar. Eu gosto de lidar com as redes sociais e produzir conteúdo. Nesse tempo livre tive várias ideias e principalmente tempo para executar e criar conteúdos legais. Gosto muito de moda, fazer ‘looks’, editar, fazer transições de vídeo. Agora com o TikTok mesmo me trouxe muitas ideias para trabalhar com coisas criativas. Consigo misturar música com skate e arte.

Inspirações no mundo do esporte

Michael Jordan virou uma inspiração nesse período de quarentena após assistir o documentário “The Last Dance”. Tenho outros ídolos como Ayrton Senna. Dentro do mundo do skate meus maiores ídolos são meus amigos que estão sempre me inspirando a melhorar, como o Pedro Barros e Letícia Bufoni.

Chegou a cogitar outra profissão?

Fiz faculdade de educação física por dois anos na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Foi difícil aliar os estudos as competições, não conseguia focar nem em uma coisa nem na outra. Tive que tomar uma decisão, todo mundo que estava lá [faculdade] queria estar lá, mas eu não, queria estar andando de skate. Tranquei a faculdade em 2018, e foi nessa época que entrei para a Red Bull e a Vans. Nesse ano foi tudo se encaixando.

Preconceito dentro da modalidade

Eu nunca tive problema com isso. Os amigos homens que tenho no meio sempre me acolheram muito bem. No entanto, tenho várias amigas que sofreram e eu imagino como isso deve ser ruim. É inaceitável alguém te julgar por causa do seu sexo. Vivemos um momento muito bom, realmente quebrando barreiras. Eu sou menina e posso fazer o que eu quiser.

Projetos para o futuro

Quero construir uma pista em casa para poder treinar. Mas o objetivo é poder voltar a andar com amigos. Agora ficamos dependentes de como vai estar o mundo para os futuros campeonatos, além de continuar com a classificatória para as Olimpíadas. Esses campeonatos vão somando pontuações. Até o último evento estava em sexto no ranking mundial, porém, sofri uma lesão no quadril e não pude mais participar. Acabei caindo no ranking para 13º lugar. Acredito que ainda teremos mais cinco eventos antes das Olimpíadas de Tóquio.

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