Às vésperas do início do Mundial, Gabriel Medina se despede do Brasil em Garopaba

O campeão mundial de surfe prestigiou um torneio júnior na praia da Ferrugem, e enlouqueceu os fãs com uma sessão de autógrafos poucas horas antes de embarcar para o Havaí

Um frenesi tomou conta da areia da praia da Ferrugem, em Garopaba, no último sábado. Às vésperas do retorno às competições, o campeão mundial de surfe Gabriel Medina recarregou as energias no Brasil e se despediu do país em um evento no litoral Sul de Santa Catarina, levando os fãs ao delírio. Assim que chegou à cidade, uma multidão cercou o atleta, que foi à praia prestigiar o Rip Curl Grom Search – torneio voltado para surfistas com até 16 anos de idade – e dar uma palavra de incentivo aos garotos que começam a se aventurar no esporte. Acompanhado do pai e técnico, Charles Saldanha, Medina também participou de uma concorrida sessão de autógrafos em uma loja de artigos esportivos, poucas horas antes de embarcar para o Havaí (EUA), onde irá encerrar o período de treinamento que antecede o início da World Surf League (WSL).

Marco Santiago/ND

Gabriel Medina passou parte da tarde de sábado em Garopaba

A visita de Medina à Garopaba fazia parte da agenda de seu patrocinador master, o mesmo que dá nome ao torneio júnior, mas também teve um apelo motivacional para a disputa pelo bicampeonato mundial, que começa no dia 28 de fevereiro, com a etapa da Gold Coast, na Austrália. “Aqui (Santa Catarina) foi onde ele teve o primeiro bom resultado fora do estado (São Paulo), no Costão do Santinho (em Florianópolis), quando ainda tinha 11 anos. Ele tinha esse sonho de toda molecada que está aqui, e conseguiu alcançar a meta. Agora, ele está dando uma força para a garotada para que eles saibam que é possível ter um futuro no esporte”, disse Saldanha.

Júnior Siqueira, 14, natural do Guarujá (SP), era um dos competidores a que se referia o pai de Medina. Pouco antes de entrar na água para a disputa de uma bateria na categoria Mirim, o garoto estava emocionado com a presença do ídolo. “É muito importante ele estar aqui, para dar um incentivo para a gente e para o surfe. Se Deus quiser, também vou chegar lá no topo e serei campeão mundial”, comentou Siqueira.

Antes de deixar a praia da Ferrugem rumo ao centrinho de Garopaba, onde daria autógrafos aos fãs, o campeão mundial de surfe subiu no palanque montado para o torneio e agradeceu ao apoio dos brasileiros na corrida pelo título até então inédito. “É um prazer estar de volta à Garopaba, podendo falar com vocês e ter esse contato mais perto, já que normalmente a gente se vê pela internet ou pela televisão. Queria agradecer a todos. Tenho certeza que tem uma galera que passa os dias e as madrugadas assistindo aos campeonatos, torcendo por todos os brasileiros”, declarou Medina.

Beijos, autógrafos e histeria

Se a passagem de Gabriel Medina pela praia da Ferrugem foi como um furacão, sua presença em uma sessão de autógrafos foi como um terremoto que abalou o centrinho de Garopaba. Pouco antes de o surfista chegar à loja onde receberia os fãs, a Polícia Militar precisou fechar a rua para evitar acidentes, tamanho era a concentração de pessoas que aguardavam pela oportunidade de se aproximar do ídolo. Quem acompanha o surfe há muito tempo não entenderia bem a cena, que parecia mais uma visita de um jogador de futebol com a projeção de Neymar.

A grande maioria dos aficionados eram adolescentes e jovens, mas o primeiro lugar da fila para tirar uma foto e ganhar uma dedicatória do campeão mundial estava reservado para uma simpática senhora de 86 anos. Dona Nelita Emília Wagner esperou cerca de uma hora para encontrar com Medina, mas isso não lhe tirou o bom humor. “Vale a pena esperar. Meu genro trabalha com isso, minha neta, Fernanda, era surfista também, então acompanho um pouco o esporte. Quando ele chegar, vou dizer: ‘Oi, tudo bom? Te adoro e te admiro muito’. É a única coisa que vou dizer. Só isso que posso falar mesmo, senão é capaz dele se apaixonar por mim, e, aí, o que é que eu faço? Eu tenho marido”, disse dona Nelita às gargalhadas.

Um a um, os fãs foram se aglomerando em volta de Medina, e a histeria tomou conta das meninas de 13, 14 e 15 anos que se espremiam em busca de um lugar na fila. Manoela Cunha da Silva, 13, foi uma das primeiras a conseguir um autógrafo e não pôde conter a emoção. Em lágrimas, a garota mal conseguia expressar a alegria pelo momento. “Foi perfeito, ele é maravilhoso. Dei um beijo nele e abracei, foi o máximo. Tenho um monte de foto dele, amo ele demais”, contou Manoela. Com saída rumo ao aeroporto Hercílio Luz, em Florianópolis, marcada às 17h30, Medina deixou Garopaba cercado por um batalhão de seguidoras que, vibrando, gritavam: “Eu consegui tocar nele”.

O surfe na Nego Quirido

Quem também esteve em Garopaba em busca de um momento ao lado de Gabriel Medina foi a escola de samba União da Ilha da Magia, que desfilará na Nego Quirido, em Florianópolis, no próximo sábado (14). Com o samba-enredo “Adoradores do Sol”, a escola irá cantar o surfe na avenida e contará, também, a história da expedição Kon-Tiki – nome do barco utilizado pelo explorador norueguês Thor Heyerdahl, que partiu do Peru rumo à Polinésia, em 1947, na tentativa de provar que a colonização do conjunto de ilhas no oceano Pacífico foi feita por nativos da América do Sul.

“Sou mestre-sala há 25 anos e pego onda também. Venho acompanhando a evolução do surfe e vi que o esporte está vivendo um grande momento em Floripa e no Brasil. Tive a iniciativa e apresentei para a escola, que, por ser da Lagoa da Conceição, acolheu”, contou Rafael Luis Nunes, 35, proponente do enredo.

De acordo com o mestre-sala, o samba cantado pela União da Ilha da Magia também irá se posicionar com relação a uma antiga polêmica do esporte: o surfe é originário do Peru ou da Polinésia? “O enredo fala sobre os adoradores do sol, que eram os povos incas, que pegaram as correntes marítimas e chegaram até a Polinésia. Fala, também, sobre as canoas de junco utilizadas por eles e toda essa ideia de surfe como um ritual, não só como esporte competitivo”, encerrou Nunes.

Respeito conquistado

Ao longo do campeonato mundial de 2012, uma expressão se tornou comum para quem acompanha o surfe de competição e passou a deixar os estrangeiros de cabelo em pé a cada vez que era pronunciada: Brazilian Storm (Tempestade Brasileira). O alto nível técnico de uma nova geração de surfistas que carregam a bandeira verde-amarela se refletiu em diversos títulos de etapas do WCT (World Championship Tour, agora WSL), até que, em 2014, se consolidou com a consagração máxima de Gabriel Medina. Ao contrário do que se imaginava, os australianos e norte-americanos que dominaram o esporte desde seu início não se incomodaram (tanto) com a ascensão brasileira.

“Nada é feito do dia para a noite. Eles (estrangeiros) tiveram tempo para se adaptar e não ter uma indigestão ao engolir a gente. Aceitaram (a Brazilian Storm) de um modo elegante e ético, até porque a gente já vem mostrando evolução há algum tempo, com atletas profissionais surfando em alto nível técnico”, comentou Charles Saldanha, pai e treinador de Medina.

Busca pelo bicampeonato

Gabriel Medina começa a defender o título mundial de surfe a partir do próximo dia 28, quando se abre a janela de espera da etapa da Gold Coast, na Austrália. Depois, em março e abril, mais duas etapas no país dos marsupiais – Margaret River e Bells Beach – podem começar a definir quem irá brigar pelo caneco em 2015. O estafe do surfista já trabalha pensando nas competições e começa a definir algumas metas para este início de ano.

De acordo com Charles Saldanha, pai e treinador de Medina, a ideia é começar a WSL de uma maneira parecida com a última temporada, quando o surfista venceu a etapa em Goald Coast e chegou às quartas de final em Margaret River. “Na ‘perna’ australiana (os três eventos), se você não tiver, pelo menos, um quinto lugar, você está fora da briga pelo título. Então, é importante começar bem. A meta é fazer dois resultados, como no ano passado. Com dois quinto lugares nessas três etapas, que são muito difíceis, ele está dentro da briga. Mas é aquilo, o Gabriel sempre vai pra tentar ganhar. Vamos tentar três vitórias”, definiu Saldanha.

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