Projeto de Florianópolis usa o surfe como terapia para pessoas com autismo

Conheça o Onda Azul, organização criada por ex-surfista que se dedica à ensinar a modalidade para pessoas com TEA (Transtorno do Espectro Autista)

O sol entre nuvens esquenta a areia da Praia dos Ingleses. Caminhando por ela encontra-se uma tenda azul – que se destaca em meio ao vazio do lugar – e uma prancha de surfe amarela ao lado. Duas mulheres e um homem estão fazendo os preparativos iniciais para receber os voluntários e as crianças que participam do Onda Azul, um projeto dedicado semanalmente a ensinar surfe para crianças com TEA.

Aos poucos mais voluntários – alguns com roupas de borracha azuis e amarelas com a logo da organização – e famílias chegam naquele pequeno espaço reservado para o projeto, que  “não é só surfe, é um lugar de acolhimento e de desenvolvimento destas crianças”, relata Maria Aparecida Feier, mais conhecida como Kika Feier, fundadora do projeto.

O TEA é um transtorno no desenvolvimento neural que afeta – de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde) – dois milhões de pessoas só no Brasil. Entre as principais características, quando se refere ao autismo, estão dificuldade na comunicação, interação social e sensibilidade a estímulos – Foto: Yuri Micheletti/NDO TEA é um transtorno no desenvolvimento neural que afeta – de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde) – dois milhões de pessoas só no Brasil. Entre as principais características, quando se refere ao autismo, estão dificuldade na comunicação, interação social e sensibilidade a estímulos – Foto: Yuri Micheletti/ND

Kika iniciou sua relação com surfe aos catorze anos de idade apenas por diversão e continuou no esporte ainda por muito tempo. Com quatro anos de idade, sua filha Cibele, que hoje tem vinte oito, recebeu o diagnóstico de autismo.

Ela, apelidada carinhosamente por todos do projeto de Bele, foi um dos motivos que impulsionou a ex-surfista a conhecer um pouco mais deste universo e estudar sobre o assunto. No entanto, a ideia do Onda Azul não veio de imediato. Ela conta que pensou na criação dele por volta de 2008. O motivo foi uma reportagem que leu sobre o surfista estadunidense Clay Marzo, que é autista.

No texto, dizia que o surfe foi a forma encontrada pela família de acalmá-lo. Além disso, Kika se inspirou muito em um projeto social da cidade da Califórnia, nos Estados Unidos, chamado Surf Healing, idealizado pelo casal Israel “Izzy” e Danielle Paskowitz, cuja ideia era ser um acampamento para ensinar surfe para crianças com autismo.

Atualmente tem apoio de diversas associações e empresas, como Vans, Ford e o Centro de Autismo e Deficiência Relacionadas de Miami (Center for Autism & Related Disabilities).

Cibelle, à esquerda, e Kika, à direita – Foto: Yuri Micheletti/NDCibelle, à esquerda, e Kika, à direita – Foto: Yuri Micheletti/ND

Com a ideia na cabeça, Kika começou a conversar com uma amiga dela, Sandra Lamb, que é psicopedagoga, para criar algo que se parecesse com o Surf Healing em Florianópolis. No meio do caminho, elas uniram forças com Álvaro Bacano, surfista da Capital catarinense,  que também tem uma filha autista. Assim, eles criaram o escopo do projeto, mas por não saberem ainda como articulá-lo, demorou um pouco para botarem em prática. Foi só em 2015 que conseguiram tirar a ideia do papel, quando se reuniram com um grupo de surfistas na Praia do Santinho para botar em prática o Onda Azul.

“Na nossa primeira aula, eu juro, quando o instrutor de surf pediu para todo mundo botar a roupa de borracha, eu pensei: ‘ferrou, até parece que vão botar essa roupa justa, agora morreu o projeto’, mas todos botaram e ficaram com a roupa. Aí o projeto começou a tomar um corpo”, relembra a ex-surfista. Hoje, o Onda Azul, é realizado em diversos outros estados do litoral brasileiro, como Imbituba, em Santa Catarina; São Sebastião, em São Paulo; e em Maceió, no Alagoas

A fundadora do projeto diz com convicção que os profissionais e as pessoas que estão dedicando seu tempo ao voluntariado fazem isso por amor. “É um domingo no qual você poderia estar dormindo ou fazendo qualquer outra coisa, mas você está aqui para se doar um pouco para o outro e ver o quanto essas crianças têm para oferecer”.

Os voluntários azuis

Em 2015, a psicóloga Sara Uchôa, conheceu o Onda Azul depois de pesquisas na internet sobre a surfe terapia. Ela explica que já tinha visto outros projetos que ensinavam surfe para pessoas com autismo numa viagem que fez pela região da América Central.

“Quando voltei para o Brasil, eu vim morar em Florianópolis com o objetivo de desenvolver um estudo sobre essa prática e para a minha surpresa eu encontrei o Onda Azul”. Inicialmente, a psicóloga, trabalhava apenas como voluntária, mas hoje ela já se encontra na posição de coordenadora nacional da associação.

Segundo ela, é até difícil explicar a importância da associação para ela. Independente de ser um trabalho voluntário, Sara dá a mesma importância ao Onda Azul que dá aos seus trabalhos realizados diariamente em consultórios.

“Eu também surfo e acredito que tenho muita sorte de ter encontrado o meu propósito, podendo unir o surf e a minha profissão”, relata com um tom de gratificação.

Para a coordenadora, o Onda Azul é responsável por potencializar  o desenvolvimento de todos que estão envolvidos. “Muitas vezes as famílias chegam até nós e contam o quanto a criança está evoluindo em outros ambientes por causa do surf. Tudo por causa de uma maior autoconfiança, consciência corporal, de uma melhor socialização que o Onda Azul proporciona”.

Sara Uchôa, de 32 anos, é psicóloga, surfista e está a frente da coordenação nacional do projeto Onda Azul – Foto: Arquivo Pessoal/SaraSara Uchôa, de 32 anos, é psicóloga, surfista e está a frente da coordenação nacional do projeto Onda Azul – Foto: Arquivo Pessoal/Sara

Com a roupa de borracha azul característica do projeto e um sorriso de orelha a orelha, Valnei Ribeiro, mais conhecido como Preto, é voluntário do projeto há quatro anos, trabalhando tanto como professor de surfe para as crianças quanto como coordenador do Onda Azul. Para ele, o projeto traz uma realização interior, além de ser um enorme prazer poder iniciar essas crianças no esporte.

“Muitos têm receio, por exemplo, quando a água bate no rosto e a gente vai trabalhando para que se sintam mais à vontade. E eles se sentindo mais à vontade com o mar, ajuda a terem mais autonomia para futuramente poderem entrar na água sozinhos”, conta Preto.

Valnei Ribeiro, conhecido como Preto é surfista há vinte e sete anos e dá aulas de surf desde 2007 – Foto: Yuri Micheletti/NDValnei Ribeiro, conhecido como Preto é surfista há vinte e sete anos e dá aulas de surf desde 2007 – Foto: Yuri Micheletti/ND

O antes e depois do Onda Azul

O exemplo dado por Preto pode ser visto na prática ao conversar com algumas famílias que fazem parte da organização. Ana Paula é mãe de Frederico, de nove anos, e ambos surfam com o Onda Azul. Tal como seu filho, Ana também é autista, e descobriu na mesma época em que estava investigando o filho dela.

O projeto está presente na vida dos dois há aproximadamente sete anos, e segundo ela, tem uma grande importância para o desenvolvimento de seu filho.

“No começo ele não queria nem ficar na praia, tinha crises quando chegava perto, por causa do sol. A questão da luminosidade sempre pegou muito para o Frederico. Ter conhecido o Onda Azul foi incrível na nossa vida, pois aos poucos a gente conseguiu trazer o Fred para areia, para o mar e hoje ele até surfou de pé”, relata a mãe.

Ana Paula, tem quarenta e dois anos, é geóloga, autista e mãe de Frederico – de oito anos -, ambos surfam todos os domingos, por causa do projeto Onda Azul – Foto: Yuri Micheletti/NDAna Paula, tem quarenta e dois anos, é geóloga, autista e mãe de Frederico – de oito anos -, ambos surfam todos os domingos, por causa do projeto Onda Azul – Foto: Yuri Micheletti/ND

De acordo com Ana Paula, o projeto não foi importante só para o desenvolvimento de seu filho, mas também para ela. “Eu sempre tive medo de entrar no mar, e foi com o Onda Azul que consegui entrar pela primeira vez”, conta com orgulho. Agora, ela considera o mar um lugar onde ela consegue se centrar e se sentir tranquila.

Assim como Ana Paula e Frederico, existem diversas outras famílias que frequentam o projeto há bastante tempo. Henrique e Raquel Tanaka, por exemplo, são veteranos no Onda Azul, tendo iniciado suas participações no projeto em 2015, ano de criação da organização. Desde o primeiro momento em que pisou na prancha ele se identificou com o esporte e hoje ama surfar. “Agora ele fica esperando todo domingo para poder ir, às vezes até me agitando. Até nos dias que não tem Onda Azul, ele tenta ir surfar”, conta Raquel.

Ela conta que, quando ele era pequeno, tinha medo de pisar na areia, por causa de uma sensibilidade processual com ela, por isso havia uma certa dificuldade de ir à praia. No entanto, com o projeto, a família conseguiu aos poucos incentivá-lo a ir para praia e hoje é um dos lugares que ele mais gosta de frequentar.

De longe, Raquel aponta para seu filho surfando, Henrique, carrega uma prancha com um rosa desbotado e segue repetidamente indo e voltando do mar, ele parece selecionar cuidadosamente a melhor onda para impulsionar sua prancha, e assim, se equilibrar nela. Hoje, ele não só surfa, mas também atua como voluntário do projeto, auxiliando na organização.

Henrique Tanaka, voluntário e surfista do projeto, em cima da prancha – Foto: Yuri Micheletti/NDHenrique Tanaka, voluntário e surfista do projeto, em cima da prancha – Foto: Yuri Micheletti/ND

Além de acompanhar Henrique e auxiliar no projeto, Raquel também trabalha como fonoaudióloga no CEC (Centro de Especialidades Clínicas). Ela conta que o Onda Azul tem um papel fundamental na parte da comunicação. Isso porque, durante as terapias, busca-se trabalhar a questão do contato visual, desenvolvimento de habilidades sociais e aspecto sensoriais, pontos que segundo ela, podem ser desenvolvidos no projeto, com a interação com os instrutores e outras crianças.

A fonoaudióloga explica que para atingir isso, procura-se respeitar o momento das crianças e adaptar a o que elas estão preparadas para fazer.

“Se a criança não entra na água, ela é acolhida de outra forma. De repente, aquele dia não vai dar certo na água, mas temos estratégias para respeitar o momento dela. Pois ela já está aqui na praia com a família e pode desenvolver outras habilidades na areia”

Henrique, de dezesseis anos, à direita, e Raquel Tanaka, sua mãe – Foto: Yuri Micheletti/NDHenrique, de dezesseis anos, à direita, e Raquel Tanaka, sua mãe – Foto: Yuri Micheletti/ND

O desenvolvimento a partir do esporte

De acordo com o especialista em ABA (Análise do Comportamento Aplicada) e educador físico, Paulo Chereguini, o  esporte oportuniza possibilidades de aprendizagem para quaisquer pessoas, inclusive as com autismo. Se bem oportunizadas essas condições de ensino, a aprendizagem pode ser tanto de questões sociais, sensoriais e comunicativas, quanto motoras.

Segundo um relatório de 2019 feito pela OMS (Organização Mundial da Saúde), 84% dos jovens entre 11 e 17 anos não praticam atividades físicas. Para o órgão, o ideal seria que essa faixa etária praticasse no mínimo uma hora de exercícios moderados cinco vezes por semana.

Chereguini afirma que o envolvimento de pessoas com autismo em esportes é bem menor do que aqueles que têm o desenvolvimento típico. Isso porque há barreiras de comunicação entre quem ensina e quem aprende, sobretudo quando o professor não tem um preparo para apresentar à modalidade a alguém com o desenvolvimento não típico.

Nesse sentido o especialista em ABA enxerga o surfe como um esporte super positivo para pessoas com autismo.

“Ao se engajar em modalidades esportivas, elas (pessoas com autismo) buscam comumente atividades em haja menor demanda de comunicação e interação com outras pessoas. Então o surf, você podendo fazer atividades um para um, e ao aprender aquelas habilidades, tenha condições de fazer de forma independente, diminui a necessidade do aluno de se comunicar com os outros”.

Chereguini ainda trás o exemplo do basquete, que é um esporte no qual é necessário estar em constante comunicação com as outras pessoas. Para ele, esse tipo de esporte se não apresentado de forma adequada pode se tornar uma situação estressante, pelo grau exposição a outras pessoas. “Seria como se eu fosse ensinar alemão para todo mundo, mas ao invés de começar na aula um, eu começasse na aula vinte, seria uma explosão de informação, e isso faria com que ninguém quisesse aprender alemão no dia seguinte”, compara o educador físico.

A realidade fora do Onda Azul

Iniciativas como o Onda Azul preenchem um vazio do trabalho do governo em relação às pessoas com autismo. Apenas agora, em 2022, com a realização do Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia), haverá estatísticas concretas sobre a quantidade de pessoas autistas existentes no Brasil, dados necessários para que se tracem políticas públicas adequadas para a realidade dessa parcela da população. Isso só foi possível depois de muita pressão da comunidade autista e de pessoas envolvidas com a causa.

Segundo, Kika Feier, fundadora do Onda Azul, no Brasil, a maioria das escolas não tem preparo para receber alunos com autismo. “O que o professor geralmente sabe (sobre o autismo) é muito raso, é o que a TV e o cinema mostram basicamente”, crítica Kika. Por esse motivo, há uma certa resistência ou preconceito quando entra um aluno de desenvolvimento não típico nas escolas.

Além disso, de acordo com a criadora do projeto, faltam programas do governo que apoiem as famílias e as pessoas com autismo. Ela explica que “muitas mães não conseguem trabalhar nos primeiros anos de seu filho e dependendo do nível de suporte dessa criança com autismo, pode haver a necessidade delas estarem a cuidado do filho a vida toda”.

Hoje, no Brasil não se sabe qual a estrutura, renda e quantidade de pessoas com autismo, o que dificulta a organização de qualquer programa que viabilize oportunidades para essa parcela da população e suas famílias. “Eu acredito que aqui no Brasil a gente ainda está engatinhando muito para chegar aonde precisa”, conclui.

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