Erro Grupo persiste na discussão da ocupação urbana com arte em Florianópolis há 15 anos

Para comemorar, o grupo retoma as atividades do projeto Persistência, com debates públicos até este sábado no Centro da cidade

Rosane Lima/ND

Luiz Henrique Cudo, Pedro Bennaton, Sarah Ferreira e Luana Raiter, do Erro Grupo, na “Cidade-Sede”

Desde o início o Erro Grupo aprendeu que pode estar apresentando uma peça na rua, alguém pode passar, achar que a cena faz parte da realidade e ir embora sem saber que participou de uma ficção, um teatro ou uma intervenção urbana. Isso faz parte dos anseios dos quatro artistas que formam o núcleo de criação: Pedro Bennaton, Sarah Ferreira, Luiz Henrique Cudo e Luana Raiter, mais os 10 colaboradores.

Há 15 anos eles romperam as fronteiras artísticas e de espaços, em Florianópolis, no país e no exterior, e trazem para as ruas discussões sobre o uso e ocupação da cidade. Para comemorar a data, o grupo retoma as atividades do Projeto Persistência, com debates públicos até este sábado no Centro de Florianópolis. Na semana que vem fará o segundo módulo do Curso-Trerreinamento, que discutirá o tema “Em Jogo: Situações de Intervenção Urbana”.

O começo do Erro foi difícil e, até ganharem o primeiro edital em 2006, pensaram em desistir do projeto. “Tenho essa sensação de sobrevivência mesmo. Os diversos medos que tínhamos no início, que as coisas poderiam não dar certo. Tem uma vontade além do profissional, que é muito difícil fazer, tem uma paixão interna que te move. O nosso trabalho é necessário, e não é só um desejo interno, tem outras pessoas que querem ver”, resume Pedro, 37.

A companhia nasceu em uma grande greve em 2001, que reuniu estudantes de artes na Udesc (Universidade Estadual de Santa Catarina). Além dos problemas da universidade, conta Luana, 34, eles discutiam também sobre o que é arte e para quem estavam fazendo. Por isso, o Erro ganhou um caráter de interdisciplinaridade. “Junto com o posicionamento político, por conta da greve, esse encontro de estudantes de outras áreas nos possibilitou dialogar, e hoje temos um núcleo de criação que passa por outras linguagens. Pode parecer contraditório dizer que tudo é teatro, porque ao mesmo tempo fazemos performance, estamos em museu, galerias, e para gente tudo isso faz sentido. Não é só um experimento, tem um projeto, tem relação com o que nos move”, acrescenta Cudo, 35.

O grupo faz arte para debater os espaços públicos, que foram deles mesmos censurados em peças como “Hasard”, que tinha 12 apresentações, e as duas últimas tiveram as autorizações revogadas por conta de denúncias de lojistas. A peça, apoiada pela Fundação Franklin Cascaes e patrocinada pela Petrobras via Lei Rouanet, tinha nudez em pleno Centro da cidade. O grupo contestou a regulamentação com base na Constituição Brasileira, que assegura a liberdade de expressão, e conseguiu finalizar o projeto Hasard. O mesmo aconteceu em Curitiba, no Paraná, onde policiais armados foram impedir a apresentação da mesma peça. No começo do ano passado, com o trabalho “Geografia Inutil” (sem acento mesmo), eles foram proibidos de se apresentarem no Largo da Alfândega por um fiscal do Sesp (Secretaria Executiva de Serviços Públicos) por não pagarem uma taxa municipal de ocupação urbana para o Pró-Cidadão.

Disseminar estratégias e atuação

Para Pedro, nesses 15 anos, o Erro ganhou vida própria. “Toda arte é política, mas o Erro faz questão de se posicionar”, diz. O grupo tem feito pesquisas constantes e ido a campo, recebendo artistas de fora para conhecer novas vivências teatrais e sociais. Em breve irão para a Argentina e depois Nova York – já estiveram na Romênia, Espanha e França. Segundo Sarah, 33, esta é de fato a primeira pesquisa a fundo do grupo sobre o que realiza e o que busca na cidade.

O estudo termina no começo do próximo semestre, e não necessariamente virará uma peça de rua. Quem estiver curioso consegue conferir parte da discussão de “Persistência: atividades de fomento local e manutenção” até sábado, na esquina das ruas Trajano com Felipe Schmidt, no Centro da Capital, no Senadinho, ponto estabelecido pelo grupo como “Cidade-Sede” e que concentra todas as atividades da programação do projeto. Os debates e oficinas realizados pelos atores acontecem desde 2009, pelo menos uma vez por ano.

“A gente está observando que às vezes o debate angaria mais pessoas que uma apresentação, por conta do racional: vamos sentar aqui e conversar sobre o tal assunto. A apresentação traz uma metáfora e a pessoa atua, mas atua sem uma metodologia de debate”, aponta Pedro.

Com esse amadurecimento, o Erro ainda tem a preocupação de repassar as próprias estratégias e aumentar os grupos que se posicionam na rua. “Não é só um grupo que estreia na rua, e faz uma dramaturgia. É um grupo que faz isso, mas capacita os integrantes”, finaliza. Como promessa para, quem sabe, os próximos 15 anos, eles esperam subir em um palco de teatro tradicional. Uma peça deles para palco já é ensaiada há sete anos, mas ainda não ganhou vida própria.

Alguns trabalhos do grupo: 

“Hasard” (2012)
“Irrupção” (2007)
“Formas de brincar” (2010)
“Geografia inútil” (2014)
“Pornosuspense” (2011)

O quê: Ciclo de debates públicos
Quando:18, 19, 20, 19h30
Onde: Esquina das ruas Trajano e Felipe Schmidt, Centro, Florianópolis
Quanto: Gratuito

O quê: Curso-Trerreinamento, Módulo 2 – Em Jogo: Situações de Intervenção Urbana (32 horas)
Quando: 22, 23, 24, 25, 26 e 29/2, 14h às 18h; 27 e 28/2, 20h às 23h59
Onde: Esquina das ruas Trajano e Felipe Schmidt, Centro, Florianópolis
Quanto: Gratuito, informações pelo e-mail erro@errogrupo.com.br. Vagas limitadas a 15 participantes
Saiba mais: www.errogrupo.com.br

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