Desafio da tecnologia em Santa Catarina é ampliar conexão entre governo e empresas

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Cidades e Estados precisam ser cada vez mais digitais para promover parcerias com a iniciativa privada

“As cidades são sistemas complexos mas vulneráveis, enfrentando novos e incertos desafios que atualmente influenciam a qualidade de vida, da desigualdade econômica e degradação ambiental à crise sanitária. O impacto da pandemia nas cidades ainda não foi completamente compreendido”, comentam as pesquisadoras Clarissa Stefani, líder do grupo de estudos VIA/UFSC, e a advogada urbanista Ágatha Depiné, no estudo “Inovação nas Cidades”, lançado em 2020.

Laboratório Nideus, do governo do Estado, tem como objetivo entregar serviços públicos melhores por meio do ecossistema de inovação em parceria com startups – Foto: Mauricio Vieira/DivulgaçãoLaboratório Nideus, do governo do Estado, tem como objetivo entregar serviços públicos melhores por meio do ecossistema de inovação em parceria com startups – Foto: Mauricio Vieira/Divulgação

“Assistimos, no mundo todo, à implantação de novos projetos urbanos provocados pelos efeitos da pandemia, desde a abertura de ruas e criação de ciclovias para melhorar a mobilidade com segurança, até a digitalização de infraestruturas municipais e o surgimento de novos serviços públicos digitais”, concluem.

Alguns órgãos do governo do Estado contam com laboratórios próprios de inovação, como o Nidus, iniciativa da Secretaria de Estado da Administração, mas com sede em um Centro de Inovação.

Startups como a WeGov, também de Florianópolis e que desenvolve metodologias de inovação com foco no setor público, acabam sendo como laboratório de testes, mas também de investimentos por parte de grandes empresas.

“As empresas precisam estar dispostas a se relacionar com o governo, afinal o Estado precisa de empresas boas. E se for local, melhor.

Florianópolis tem um histórico de empreendedores de tecnologia, da primeira geração que surgiu na cidade, vindos do setor público. Hoje tudo está interligado e os governos precisam ser cada vez mais digitais para que as cidades sejam inteligentes”, conclui o empresário Diego Ramos, da Acate.

Ele cita o exemplo da Estônia, que há três décadas fazia parte do bloco soviético e hoje é considerada uma das mais avançadas sociedades digitais.

Com população de 1,3 milhão de habitantes, o equivalente à população da Grande Florianópolis, o país tem mais de mil startups.

Em outra iniciativa do setor privado, a Federação das Indústrias de Santa Catarina criou, em março deste ano, uma câmara setorial para debater e organizar ações, projetos e soluções para cidades inteligentes, com participação de empresas e governo – o exemplo de Barcelona será uma das referências para a Capital e o Estado.

Algoritmos ajudam a combater desmatamento

A capital catarinense se beneficia de um ambiente propício ao surgimento de negócios inovadores: com possibilidade de crescimento em escala, estas startups atraem fundos de capital de risco e investidores especializados, criando um ciclo de busca e desenvolvimento de tecnologias e novas aplicações.

Atualmente, Florianópolis tem a maior taxa de empresas de tecnologia por habitante do país (5 para cada mil habitantes). Em toda a região metropolitana, se concentram 3.941 negócios de TI, um terço do total no Estado, segundo o estudo Tech Report, da Acate.

Há dois anos, a prefeitura da Capital utiliza uma tecnologia de monitoramento, com captação de imagens via satélite, das ocupações e construções irregulares em áreas de proteção e preservação ambiental na cidade.

Por meio de um algoritmo, desenvolvido pela startup local Horus Smart Detections, é feita uma comparação das imagens, que identificam alterações de paisagem.

“Com isso, os fiscais têm um mapa mensal de todas as ocorrências de desmatamento e conseguem fazer um trabalho ativo. Assim, é possível antecipar essas ocorrências em até um ano, gerando um aumento de 50% na eficácia das fiscalizações – além de reduzir problemas urbanos”, destaca Fabrício Hertz, fundador e diretor executivo da startup.

Gastronomia e tecnologia se encontram na capital

A farta safra de startups chega também a segmentos mais tradicionais da economia local. Como o setor de bares e gastronomia, profundamente impactado pela pandemia, mas que é “um mar de oportunidades para empresas inovadoras”, segundo Raphael Dabdab, presidente da Abrasel (Associação de Bares e Restaurantes) de Santa Catarina.

“O mercado já vinha sofrendo uma revolução digital, seja pelo crescimento do delivery, seja pela relevância cada vez maior da presença digital”, acrescenta.

Após quatro anos de pesquisas e visitas técnicas a outros países e ecossistemas de inovação – ao lado de outras entidades empresariais da cidade – a Abrasel lançou em setembro de 2020 o Ciga (Centro de Inovação em Gastronomia), considerado o primeiro habitat de inovação dedicado ao mercado gastronômico no Brasil.

“Os programas vão unir os empresários da tecnologia e da gastronomia para solucionar as dores do setor da alimentação fora do lar”, explica Dabdab.

Em julho deste ano, a Abrasel lançou a incubadora Fermento, que busca empresas que desenvolvam soluções inovadoras para desafios como meios de pagamento, custos de venda, open delivery, e-commerce, produtividade (automação, equipamentos), gestão financeira, entre outros. A metodologia é a mesma da incubadora Miditec, projeto da Acate e do Sebrae, que já desenvolveu 117 empresas de TI na Grande Florianópolis em 22 anos de atuação.

“O momento é de retomada e de recuperação financeira, o que deve levar de dois a cinco anos. A inovação, portanto, é uma questão-chave para sobrevivência e diferenciação”, resume.