“Novas tecnologias mudarão o mercado”, aponta presidente da Acate

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Iomani Engelmann Gomes ressalta a tecnologia como fator dominante no mercado para os próximos anos

A tecnologia deve dominar e transformar o cenário industrial nos próximos anos. Para o presidente da Acate (Associação Catarinense de Tecnologia), Iomani Engelmann Gomes, o Estado de Santa Catarina está bem posicionada no assunto de tecnologia industrial no cenário brasileiro. Mas, há muito espaço para percorrer, comparado com o resto do mundo.

As mudanças envolvem fatores econômicos, sociais e ambientais, com alteração no perfil de vagas de empregos e automatizações.

Iomani Engelmann Gomes, presidente da Acate – Foto: Divulgação/NDIomani Engelmann Gomes, presidente da Acate – Foto: Divulgação/ND

“Hoje, o mercado passa pela automação. Mas, novas tecnologias estão ganhando espaço e vão mudar muito a dinâmica do mercado”, antecipa Engelmann.

Que inovações podemos almejar?

Hoje, o mercado passa pela automação. Não só no aspecto industrial, mas também nos setores de saúde, educação, economia e, também, doméstico. Teremos ajudantes automatizados para tarefas, uso da Inteligência Artificial… Mas, novas tecnologias estão ganhando espaço e vão mudar muito a dinâmica do mercado. Impressoras 3D estão chegando com muita força. O carro elétrico vai mudar uma cadeia inteira. Em Santa Catarina temos pesquisas muito avançadas para questões como carregamento rápido, por exemplo. O governo federal já permite que municípios criem um marco regulatório mais flexível para a adoção dessas novas tecnologias, Jaraguá do Sul foi uma das primeiras cidades do Brasil a regulamentar esse projeto do governo federal. O Brasil tem grande oportunidade de ser protagonista.

Teremos mais ou menos empregos?

Teremos mais emprego, mas com perfil diferente. A metáfora que eu faço é a seguinte. No século passado nós tínhamos ainda os cavalos como meio de transporte. Veio a motorização e a máquina à vapor. O ferreiro que cuidava daquele animal não se transformou em mecânico da noite para o dia. É importante conectar a matriz curricular com todas as habilidades do futuro. É importante uma política pública que adeque isso. As inovações criam novos mercados, novas necessidades para atender as demandas.

A concorrência pode acelerar o desenvolvimento da tecnologia?

Sem dúvidas. Um exemplo é o setor têxtil catarinense. A automação e a agregação de valor fez com que a China se tornasse um grande competidor nosso, inclusive levando à falência de grandes empresas. A região de Blumenau viveu uma grande crise, diante de um produto chinês, que não tinha qualidade tão equivalente, mas tinha custo muito mais atrativo para vários setores do mercado. Se não for feito algo, podemos perder competitividade em alguns setores da indústria.

Quais são os maiores ganhos da indústria com a adesão de tecnologias?

Em primeiro lugar, temos o modelo mental de agregação de valor, ou seja, não vender matéria prima in natura. É uma questão econômica, em um primeiro momento, mas também traz melhores impactos sociais e ambientais. A mudança do nível da mão de obra, mais qualificada, permitiria maiores salários e melhor equidade social. Para ingressarmos em mercados de alguns países, esse cuidado ambiental e com a mão de obra é fundamental. Esse olhar para o desenvolvimento econômico, social e ambiental terá que caminhar em conjunto para o Brasil se manter competitivo.

Quais são nossas limitações?

Acredito que não seja um fator único. Existe o risco de fazer uma adoção tecnológica nova, mudar o processo produtivo, comparado ao retorno. Muitas empresas preferem trazer um produto já industrializado de fora ao invés de industrializar a própria cadeia. Falta um pouco de incentivo fiscal, por exemplo, uma carga tributária que consiga relacionar o investimento em pesquisa e desenvolvimento com tributos pagos. Existe um ponto cultural, muitas empresas não têm um processo de profissionalização da gestão, de monitoramento local e global sobre tecnologias e tendências do setor onde atua. E o terceiro ponto, é a mão de obra qualificada. No setor de tecnologia, por exemplo, existe essa carência para atuar no setor.

Qual o patamar de Santa Catarina no desenvolvimento tecnológico das indústrias?

Quando olhamos a competição global, entendemos que a nossa indústria não tem crescido na velocidade de outros mercados. Claro que isso não é igual em todos os setores. O agronegócio tem crescido bastante nessa implementação, mas não temos usado tecnologia para agregar valor à produção. Em outras áreas, como indústria de transformação, o Brasil e Santa Catarina ainda caminham devagar em relação à mão de obra. Se vermos o nível que temos na indústria têxtil, ou no mercado mecânico, dependemos muito de mão de obra de baixa automação. No final, resulta em um produto de menor valor agregado, e muitas vezes de menor qualidade. Temos exceções, a Weg tem conseguido projeção internacional, dada à qualidade de seu produto e o nível tecnológico que apresenta. O grande indicador que temos para mensurar é a participação da indústria no PIB catarinense. Estamos perdendo participação por conta da baixa agregação de valor tecnológico. A pandemia tem favorecido um pouco esse cenário, várias empresas se viram obrigadas a melhorar seus processos e fazer a adoção tecnológica. De qualquer maneira, Santa Catarina ainda é o segundo Estado que mais tem participação do PIB industrial em relação a outros setores, já tem uma posição de destaque, mesmo com essa participação caindo. Monitorar essa questão é muito importante para a manutenção da competitividade no nosso Estado.