‘O mundo dos serviços vai ditar nosso modo de viver’, diz fundador do CoCreation Lab

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Luiz Salomão Ribas Gomez, professor de design da UFSC, elucida as inovações no setor de serviços e qual os principais pontos do futuro

Descrito como um laboratório de ideação que visa desenvolver o empreendedorismo e transformar ideias em negócios, o CoCreation Lab é um ambiente voltado para pessoas que tenham ideias nas áreas de economia criativa com potencial de gerar novos empreendimentos.

A partir de editais são selecionados projetos nas áreas de tecnologia, design, artes, turismo e gastronomia, que, ao longo de cinco meses, passam por pré-incubação, com apoio institucional.

CoCreation Lab, idealizado para ser espaço colaborativo,como forma de gatilho para brotar a criatividade que existe em cada um de nós – Foto: Divulgação/NDCoCreation Lab, idealizado para ser espaço colaborativo,como forma de gatilho para brotar a criatividade que existe em cada um de nós – Foto: Divulgação/ND

Profissional com mestrado Gestão de Design, doutorado em Engenharia e Gestão Industrial, pós- doutorado em Branding na Iade-Creative University e em Economia Criativa e Maker Spaces na Saxion University, Luiz Salomão Ribas Gomez é professor da UFSC, onde coordena o Logo e também o projeto Centro Sapiens, onde está o CoCreation Lab.

Como o senhor vê o surgimento das iniciativas e novidades de novas ofertas para os serviços do futuro?

Primeiro que não se imagina mais o futuro sem o digital, sem o modelo colaborativo, sem o modelo úbiquo, em que tudo se conecta. Tem que haver contato entre homens- máquinas, máquinas-homens. Equipamentos e serviços. Se fala aí em internet 4.0, internet 5.0, a questão das indústrias 4.0, esse modelo onde o ser humano não pode ficar afastado da tecnologia. Então os serviços serão cada vez mais realizados por máquinas que são comandadas, que serão programadas, por seres humanos. Hoje é preciso repensar o processo educacional, como formar desde crianças, até o nível universitário e pós-universitário, esse novo modelo de formação para que o mundo seja um mundo de serviços. Agora o mundo é todo de serviço, se você pensar que que um carro já tem processos de opção de não vender mais. A GM já tá dizendo que não vai mais vender carro e sim só alugar o carro. Se você imaginar como funcionam os parques tecnológicos… quando entra no supermercado hoje, pode sair dele sem conversar com ninguém, mas você não está lá comprando mais coisa, mas tendo um serviço realizado pra você. Hoje, o mundo dos serviços é o que vai mudar o nosso modo de viver. A gente precisa dos serviços e os serviços serão cada vez mais digitalizados com muita inteligência artificial, mas essa inteligência tem que ser colaborativa com inteligência humana. Muito provavelmente a inteligência artificial será às vezes até mais potente do que a inteligência humana, mas precisa ter alguém que programe essa inteligência artificial que ajude ela a ser construída como referência para tudo.

Como faz pra aprimorar isso com as próximas gerações?

Tem que começar pelos professores e pela formação deles. Essa pandemia fez a gente repensar muita coisa, em como preparar as crianças para esse novo modelo. Então, as linguagens computacionais devem ser ensinadas desde a pequena infância, para que entendam que vão ter que conversar com as máquinas e ter que usar essas máquinas para construir o futuro. As escolas não podem mais ser mais bilíngues – português e inglês -, elas têm que ser trilíngues – português, inglês e código. Cada vez mais eu vou precisar entender desse novo pensar.

“A inovação se constrói hoje olhando para amanhã, mas com o pé no ontem. Eu tenho que buscar referências para construir esse futuro. O passado não nos ensina mais, mas nos ancora e nos faz ter ideias para um futuro melhor”, diz Luiz Salomão – Foto: Divulgação/ND“A inovação se constrói hoje olhando para amanhã, mas com o pé no ontem. Eu tenho que buscar referências para construir esse futuro. O passado não nos ensina mais, mas nos ancora e nos faz ter ideias para um futuro melhor”, diz Luiz Salomão – Foto: Divulgação/ND

Pensar como ser humano, como uma máquina precisa que um ser humano pense para poder construir esse novo mundo. Tudo isso vai acontecer primeiro com a mudança do professor e da forma como ele prepara a sua aula e como ele entende essas crianças, que já nascem com o digital no sangue. A escola precisa mudar seu currículo, o formato da sala de aula, tudo precisa mudar para um espaço mais colaborativo e mais inteligente, utilizando as tecnologias para isso.

O segmento de TI é muito forte em Florianópolis, como se chegou a este know-how e ao Centro Sapiens?

O Sapiens Parque é a base desta história, um ambiente de inovação, o
maior parque tecnológico da América Latina em termos de espaço físico, de tamanho. Só que está muito longe da universidade, do centro, e as pessoas não sabiam o que era o Sapiens Parque. Daí recebi o desafio de trabalhar e construir identidade, marcas, essas coisas. Fui desafiado a tentar levar o Sapiens Parque para Florianópolis e tive a ideia de fazer o projeto do que a gente chamou de “revisitação do Centro Histórico”, não era uma revitalização, mas sim só voltar a usar ele, do jeito que foi criado. A economia criativa, o design, a arquitetura, a TI poderiam ser um bom caminho. E seis anos atrás, porque o projeto do Centro Sapiens começou antes, a gente fez um projeto que era a fortaleza da economia criativa com um processo de pré-incubação. A gente ajudou a Prefeitura a construir uma lei de isenção de IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) para startups que se instalam no centro histórico e desenvolvemos um laboratório de pré-incubação junto ao Museu da Escola Catarinense. Foi a nossa primeira ação. Com a pandemia, o movimento acabou. Mas sentimos reação, diminuindo o número de moradores de rua naqueles momentos, movimentando mais bares e restaurantes. A comunidade criativa começou a se encontrar no Centro Histórico. Florianópolis é uma cidade onde o DNA da inovação está claro nos principais índices. É boa, boêmia, com universidades fortes, público jovem, comunidade LGBT organizada, tudo isso leva a um modelo mais criativo e a gente se apegou nessas coisas para transformar o Centro. E dessa perspectiva surgiu o CoCreation Lab, um laboratório para elevar os projetos da economia criativa.

Os resultados foram imediatos?

O primeiro ano foi de se apresentar as coisas. A partir do segundo ano, a gente começou a melhorar a frequência das pessoas, o laboratório começou a abrir em horários alternativos, a gente reformou uma um lugar que estava abandonado num espaço público. Tínhamos shows, espetáculos, a gente até ganhou um prêmio da ONU (Organização das
Nações Unidas), da ONU Habitat, que era um dos dez melhores projetos de revitalização urbana do Brasil e estava funcionando. O projeto, que era da universidade acabou e retomou-se com um projeto novo chamado Distrito 48, hoje capitaneado pela CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas), pela própria universidade e outros órgãos de apoio à cidade de Florianópolis.

Como fundador, a influência disso veio de onde?

Do estudo e da pesquisa. Eu gosto muito da cidade e entendo que Florianópolis merece todo respeito. Eu não nasci em Florianópolis, mas tenho Floripa tatuado, realmente tatuado, no meu braço. Tem uma bernunça de Floripa tatuada no meu braço, porque eu acho que é uma cidade que tem potencial e merece isso. Bom, sou um estudioso, um pesquisador, fiz pós-doutorado em espaços criativos, em espaços de criatividade. Conheci cidades do mundo inteiro, como Bolonha, Barcelona, Amsterdã, Lisboa, várias cidades da Europa e também nos Estados Unidos, Austin, Texas, Nova Iorque, e essas cidades me inspiraram a montar um projeto que foi aprovado inclusive pela Prefeitura, pela universidade e pelas pessoas envolvidas no projeto, na qual a gente trouxe a comunidade criativa para participar. Criamos até um jornal físico, um pequeno jornal, o Criativanópolis, bem legal, fizemos cinco ou seis números.

E o segmento criativo deve continuar crescendo nos próximos 15 anos?

As cidades precisam se desenvolver. O trânsito ficou caótico, não é só em Florianópolis, o trânsito ficou caótico no mundo inteiro. Eu acabei de parar aqui para falar com você porque imaginava que em uma hora estaria no meu apartamento em Itapema, mas quando entrei em Itapema estava tudo parado. O trânsito caótico é complicado e as cidades começaram a perder sua identidade. Então, trazer identidade para as cidades é importante e vou te dizer, cada vez mais isso é mais importante. Por quê? Porque estamos vivendo um momento único, em que a pandemia nos levou ao digital mais rápido que imaginávamos.

Esse mundo virtual facilita a vida?

Sim, porque a maioria das pessoas podem trabalhar em qualquer lugar, a qualquer momento. Eu estou dando uma entrevista para você de dentro do meu carro, aqui numa rua em Itapema. Mas poderia ser em qualquer outro lugar. Eu poderia estar falando da Europa, dos Estados Unidos, do Japão. Então, o digital virou referência e as pessoas estão se movimentando por essas cidades que têm estrutura. E não é só estrutura digital, internet e tudo, nada disso. Também tem que conhecer sua cultura, conhecer sua história, sua referência. A inovação se constrói hoje olhando para amanhã, mas com o pé no ontem, eu tenho que buscar referências para construir esse futuro.

Como você entende a importância do desenvolvimento do processo criativo nas pessoas?

A criatividade foi a minha primeira formação no exterior. Trabalhei com neurociência e movimento cerebral. A criatividade precisa de gatilhos para funcionar, todos nós somos criativos, nós como sapiens sapiens somos criativos, nascemos criativos. Mas precisamos de alguns gatilhos
para isso acontecer e esse gatilho está muito na questão orgânica de entender que a gente tem que ter alimentação adequada, uma ação emocional, voltar um pouquinho à infância. Se livrar dos preconceitos e, por último, ter um ambiente adequado. Esse ambiente é fundamentalpara que haja criatividade e ele é colaborativo. Não consigo mais ser ermitão. Então co-criar ou trabalhar colaborativamente é fundamental para que haja criatividade e inovação. A inovação basicamente é a criatividade colocada em prática, é conectar as coisas, como o Steve Jobs dizia, é uma conexão de coisas com o objetivo de resultado. Seja esse resultado econômico, financeiro, sustentável, social, mas tem que ter o resultado e esse resultado provém de uma ação criativa.