Startups de saúde inovam no combate à pandemia

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Health techs de Florianópolis desenvolveram ou impulsionaram inovações que se espalharam pelo Brasil

Entre as mais de 3 mil empresas de tecnologia sediadas na Grande Florianópolis, um segmento em especial teve destaque pela rápida resposta à crise provocada pela Covid-19.

As health techs, startups voltadas ao setor de saúde, criaram em plena pandemia soluções inovadoras que ajudaram no combate ao vírus antes do surgimento das vacinas.

Testes em massa ajudaram a detectar o coronavírus de forma mais rápida durante a pandemia – Foto: Divulgação/NDTestes em massa ajudaram a detectar o coronavírus de forma mais rápida durante a pandemia – Foto: Divulgação/ND

É o caso da Wier, de Florianópolis, desenvolvedora de tecnologia de plasma frio e ozônio para descontaminar ambientes, certificada após testes em laboratório de biossegurança da USP (Universidade de São Paulo) que alcançaram a inativação de 99,9% do coronavírus.

“Essa certificação mostrou como podemos apoiar a prevenção e a saúde das pessoas ajudando a diminuir novos casos de contaminação. Por outro lado, contribuiu para a economia, pois vários empreendedores, micro e pequenas empresas passaram a ter esses equipamentos como forma de levar proteção para seus clientes e uma renda extra para o seu negócio”, afirma Bruno Mena, doutor em química e CEO da Wier.

Somente em 2020, cerca de mil novos negócios foram criados por conta desta tecnologia de segurança sanitária: concessionárias, empresas de aluguel de carros e lavação passaram a oferecer a descontaminação dos veículos, assim como empresas de transporte e carros de aplicativo.

A solução também ganhou espaços em outros segmentos, como a rede hoteleira e o agronegócio.

A Wier foi uma das 12 startups catarinenses selecionadas para receber recursos do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) para projetos de enfrentamento da pandemia – ao todo, 16 iniciativas foram aprovadas, num total de R$ 18,7 milhões em recursos aplicados no ecossistema de tecnologia do Estado.

Outra inovação made in Florianópolis usada intensivamente nos últimos meses foram os modelos de testes em massa contra a Covid-19 desenvolvidos pela empresa de biotecnologia BiomeHub.

Com apoio de entidades como a Fiesc, a Fundação Certi, governos e prefeituras, o sistema permite verificação simultânea em até 16 pessoas com um só teste – e foi utilizado por 100 mil brasileiros em menos de um ano.

Com a demanda, o faturamento da startup cresceu 10 vezes em relação ao ano anterior, quando foi fundada.

“A demanda por testes para o coronavírus foi responsável por 75% do nosso faturamento em 2020”, explica Luiz Felipe Valter de Oliveira, CEO da startup, que vem desenvolvendo outras soluções tecnológicas baseadas no microbioma humano, área em que já atua.

Solução para monitorar temperaturas de vacinas

A expansão nos negócios tem sido comum para essas empresas inovadoras. Com 10 anos de mercado, a Sensorweb surgiu desenvolvendo sensores para monitoramento de temperatura na cadeia fria de saúde do país (transporte de medicamentos e vacinas).

“Estamos num momento em que a temperatura ideal para a manutenção da eficácia das vacinas, por exemplo, saiu da bolha dos profissionais da saúde e virou conhecimento de todo cidadão comum”, argumenta Douglas Pesavento, CEO da Sensorweb.

A empresa cresce anualmente entre 30% e 50% e teve faturamento superior a R$ 5 milhões em 2020.

Atualmente, conta com seis mil sensores de monitoramento de temperatura e umidade instalados em cerca de 220 clientes entre hospitais e clínicas, bancos de sangue, laboratórios e pesquisa, logística e indústria farmacêutica.

O próximo passo é o desenvolvimento de um sistema inteligente de higienização de mãos em ambientes hospitalares, projeto que já está sendo testado em instituições públicas e particulares de médio e grande porte.

A ideia é rastrear de maneira confiável o horário de uso e a quantidade de vezes que cada profissional da saúde utiliza o dispositivo, reduzindo a possibilidade de infecções hospitalares e surtos por bactérias ou vírus, como a Covid-19.

Pague com o seu rosto

A opção de pagamento por meio de reconhecimento facial – sem precisar tirar a carteira do bolso – já é realidade em algumas redes de varejo e farmácias no país graças a uma inovação desenvolvida em Florianópolis pela startup Payface.

Criada em 2018 pelos sócios Eládio Isoppo e Ricardo Fritsche, o objetivo é reduzir as filas nos estabelecimentos e acelerar o processo de compra.

“O nosso foco prioritário são os supermercados e farmácias, serviços essenciais que precisam se adaptar ainda mais às regras sanitárias”, comenta o CEO Eládio Isoppo. 

A tecnologia conecta por biometria facial o rosto de cada usuário com os mais diferentes meios de pagamentos utilizados pelos varejistas. Sem precisar mostrar o cartão no momento da compra, o consumidor faz suas compras usando apenas o rosto, diminuindo filas e evitando contato físico.

É praticamente a única ferramenta nestes moldes na  América Latina – há alguns poucos concorrentes diretos na Ásia, Europa e Estados Unidos.   

Tecnologia de Florianópolis conecta por biometria facial o rosto de cada usuário com os mais diferentes meios de pagamento – Foto: Divulgação/NDTecnologia de Florianópolis conecta por biometria facial o rosto de cada usuário com os mais diferentes meios de pagamento – Foto: Divulgação/ND

Em 2021, a Payface deve crescer 10 vezes o volume de credenciados, que hoje estão em oito Estados brasileiros, e pretende manter a expansão no ano que vem. 

“Quando começamos, era uma fase experimental da tecnologia, que estava se tornando viável naquele momento para o mercado. Mas daqui a três ou cinco, vai ser uma opção corriqueira”, prevê Eládio, que se considera um “fruto do ecossistema” de tecnologia.

Formado na UFSC, assim como o sócio, ele foi executivo e fundador de outras startups nos últimos anos, que passaram pelas duas principais incubadoras de Florianópolis (Miditec/Acate e Celta/Certi). 

Em julho passado, a Payface recebeu um aporte de R$ 3 milhões de diversos fundos de investimento para reforçar o desenvolvimento da tecnologia.

No final do ano, foi a única na América Latina selecionada por um programa de aceleração no Catar, o Fintech Hub, voltado para apoiar empresas inovadoras que atuam no setor de finanças e meios de pagamento.

E há algumas semanas, a empresa recebeu em parceria com a norte-americana ID R&D o prêmio de Melhor Uso de Biometria em Pagamentos, na quarta edição anual do PayTech Awards, promovido pelo portal Fintech Futures. 

“A sociedade do futuro será baseada no consumo em múltiplos canais, mas com privacidade de dados e uma experiência de compra constante. O que fazemos depende do interesse do consumidor. Com segurança e agilidade, combatemos aquilo que afronta o usuário”, comenta Eládio.

Neurociência e inteligência artificial ajudam na descoberta de sinais de autismo

Há quatro anos, o especialista em neurociência e tecnologia Leandro Mattos e a neuropsicóloga Andressa Roveda desenvolveram uma inovação que emprega neurociência e inteligência artificial para auxiliar no diagnóstico e tratamento do TEA (Transtorno do Espectro Autista).

O resultado foi a V.E.R.A. (acrônimo em inglês para “assistente de robô empático virtual”), tecnologia premiada internacionalmente durante o TIP Summit 2020, programa de inovação promovido pelo governo dos Emirados Árabes Unidos, em fevereiro do ano passado. 

Uma pequena parcela de pais consegue suspeitar da presença de sinais do TEA em seus filhos.

“Quando eles suspeitam e levam o paciente ao médico, ele segue um protocolo mundial para identificar sinais de autismo. O que fizemos foi transformar esse conhecimento de perguntas e respostas em um chatbot inteligente e amigável. Caso haja um sinal amarelo de que aquele paciente possa ser autista, oferecemos a segunda etapa da solução. A criança assiste a um vídeo e, usando a própria câmera do computador, captamos os movimentos oculares dela”, explica Leandro, que a partir desta inovação criou a startup CogniSigns junto com a sócia Andressa. 

O especialista em neurociência e tecnologia e a neuropsicóloga Andressa Roveda criaram o robô V.E.R.A. – Foto: Reprodução/NDO especialista em neurociência e tecnologia e a neuropsicóloga Andressa Roveda criaram o robô V.E.R.A. – Foto: Reprodução/ND

Além do reconhecimento internacional, a startup foi destaque em vários programas de desenvolvimento, como InovAtiva Brasil e StartOut Brasil (ambos do governo federal), além da Brazil Accelerate 2030, iniciativa da ONU e da rede global Impact Hub. 

De acordo com os fundadores, é fundamental que o diagnóstico de TEA até os 3 anos, quando ocorre a chamada poda neural.

“De zero a três anos, temos uma janela de oportunidade. Se descobrimos nesta faixa etária, aumentam as possibilidades de inclusão social e funcional, colaborando para o desenvolvimento da criança “, explica Andressa. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), estima-se que 70 milhões de pessoas no mundo têm autismo. No Brasil, são 2 milhões, dos quais apenas 3 mil são assistidos.