Tecnologia manezinha no combate ao novo coronavírus ganha o mundo

Soluções desenvolvidas por empresas da Capital catarinense, como antimicrobianos e testes rápidos, inovam as formas de detecção na tentativa de bloquear a disseminação do vírus altamente contagioso

Roupa, sapato, carteira, celular … máscara e álcool gel. A preparação e rotina para sair de casa em tempos de pandemia é bem diferente da qual estávamos acostumados. Deixar o isolamento social para realizar serviços essenciais é sempre tarefa tensa e de muita preocupação por causa do risco de contágio.

Agora, imagine poder sair com a proteção facial, vestido e calçado com tecidos e materiais que, ao entrarem em contato com o novo coronavírus, consigam eliminá-lo. Assim como a tinta com a qual as paredes de um ambiente foram pintadas, o interior de um carro, ônibus, ou o filtro usado pelo aparelho de ar condicionado deste local. Parece ficção, mas essa tecnologia, ou melhor, nanotecnologia, já existe, é manezinha e tem chamado a atenção do mundo todo.

Incubada na Celta, no parque Alfa, em Florianópolis, a empresa TNS, especializada em soluções para criação de produtos antimicrobianos, desenvolveu um produto que utiliza nanopartículas de prata para eliminar a propagação de diferentes vírus, nos mais diversos meios. Essas partículas são incluídas nos fios do tecido ou no produto, que passa a funcionar como um escudo antiviral.

A solução já é comercializada para indústrias, como a automotiva e têxtil. De acordo com o processo utilizado para higienização de uma roupa após o uso, por exemplo, o produto pode perdurar na vestimenta depois de 20 a 70 lavagens.

Segundo o diretor geral da empresa, Gabriel Nunes, além de inativar o vírus, o produto auxilia na inibição e replicação de bactérias que podem ser possíveis células hospedeiras para o vírus. Ele explica que a ideia começou a ser colocada em prática assim que a pandemia teve início e, em março, já saíram os primeiros resultados.

“Hoje o nosso desafio não é fazer o produto, mas, com as novas demandas, é como atender as diferentes leis e regras de cada país para onde exportamos”, afirma. Para junho, a empresa já tem cinco toneladas de produção.

Alexandra Valério e Gabriel Nunes com produtos que receberam virucida com nanotecnologia desenvolvidos para a indústria têxtil e outros segmentos. Ele usa máscara que elimina o vírus – Foto: Anderson Coelho/NDAlexandra Valério e Gabriel Nunes com produtos que receberam virucida com nanotecnologia desenvolvidos para a indústria têxtil e outros segmentos. Ele usa máscara que elimina o vírus – Foto: Anderson Coelho/ND

Spray para venda no varejo aguarda registro da Anvisa

Por enquanto, a tecnologia da TNS é comercializada apenas para indústrias, que adquirem a matéria-prima. A empresa desenvolveu um spray, para venda no varejo, que aguarda registro da Anvisa para ser comercializado, entre outros produtos desenvolvidos para serem oferecidos diretamente à população.

A China, país onde teve origem a pandemia e que investe de forma significativa em pesquisas para combater o vírus, é um dos países que importa a tecnologia de Florianópolis. O produto também já é exportado para a Espanha, Austrália e Colômbia. Estão em negociações vendas para Indonésia, Índia, Suíça e EUA.

Uma das soluções em desenvolvimento é o uso desta tecnologia no interior dos veículos de transporte coletivo, para evitar a propagação do vírus. “Uma empresa dos Estados Unidos, por exemplo, trabalha neste momento para incluir o produto na parte interna dos carros”, explica Nunes. As possibilidades de uso são infinitas e abrangem desde a própria máscara e uma esponja de lavar louça, por exemplo, até a cerâmica de revestimentos.

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Douglas Napoleão R. dos Santos, do Asilo Irmão Joaquim, usa solução antisséptica livre de álcool desenvolvida por Fernanda Checchinato – Foto: Divulgação/NDDouglas Napoleão R. dos Santos, do Asilo Irmão Joaquim, usa solução antisséptica livre de álcool desenvolvida por Fernanda Checchinato – Foto: Divulgação/ND

Facilidade para o dia a dia dos idosos

Se as mudanças na rotina com a pandemia já foram difíceis para a maioria da população, para os idosos, principalmente os com dificuldades de locomoção, essa situação é particularmente agravada no dia a dia. Neste mês, os moradores do Asilo Irmão Joaquim, de Florianópolis, receberam um reforço para higienizar as mãos de forma mais eficiente, com a doação de um novo produto desenvolvido pela cientista Fernanda Checchinato, doutora em ciência e engenharia de materiais pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e CEO da startup Aya-Tech.

Ela criou uma linha de antissépticos para as mãos que não leva álcool na composição, o que beneficia pessoas com a pele sensível, além de ter durabilidade bem maior. Um dos produtos desenvolvidos por Fernanda fica ativo na mão de três a seis horas, e tem 99,9% de eficiência contra bactérias, fungos e vírus, como o novo coronavírus, H1N1, Influenza A, entre outros.

Jonnara Furtado Nunes, enfermeira do asilo, diz que o gel chegou em bom momento e tem ajudado muito na higiene diária dos moradores. “Hoje é de extrema importância que hábitos de limpeza e higiene se tornem rotineiros em nossas vidas. Aqui em nossa instituição já zelamos e priorizamos esse tipo de cuidado com o espaço físico que vivemos, mas com a Covid-19 nossos cuidados se intensificaram e aumentou nosso consumo de materiais de higiene pessoal. Por já terem a pele mais sensível, que precisa ser hidratada frequentemente, os efeitos do uso prolongado e constante do álcool em gel ressecam as mãos dos idosos. Esse novo gel antisséptico que recebemos tem sido muito eficaz, eles têm usado bastante o produto”, conta.

A eficiência do gel, explica Fernanda Checchinato, se deve aos componentes presentes em sua composição: óleo essencial de melaleuca, clorexidina e dihidrocloreto de octenidina, um potente antibacteriano de amplo espectro muito utilizado em procedimentos médicos. “Ele pode proteger sem causar desconfortos, como ressecamento e alergias, e também evita acidentes domésticos que podem ocorrer com uso do álcool gel, por exemplo”, esclarece.

Fernanda Checchinato, doutora em ciência e engenharia de materiais pela UFSC e CEO da startup Aya-Tech, desenvolveu produto para quem tem pele sensível ao álcool – Foto: Divulgação/NDFernanda Checchinato, doutora em ciência e engenharia de materiais pela UFSC e CEO da startup Aya-Tech, desenvolveu produto para quem tem pele sensível ao álcool – Foto: Divulgação/ND

A inovação do produto e sua relevância fizeram com que a empresa de Fernanda fosse convidada recentemente a fazer parte da campanha #StartupsVsCovid19, promovida pela Gonew.co (Comunidade Governança & Nova Economia), com apoio da ABStartups (Associação Brasileira de Startups). A iniciativa reúne as principais soluções criadas por startups para minimizar o impacto da pandemia no país.

Esforços para minimizar efeitos

A Acate (Associação Catarinense de Tecnologia) destaca que o principal objetivo dos empreendimentos que atuam com produtos e serviços relacionados à saúde é oferecer tecnologias inovadoras que ajudem a sociedade, clínicas e hospitais aperfeiçoando o atendimento dos pacientes. Desde o início da pandemia, a entidade colocou em prática um plano de ação com as iniciativas divididas em sete eixos. Em uma delas, criou um mapa de soluções tecnológicas das empresas de tecnologia catarinense.

O diretor da vertical de saúde da associação, Walmoli Gerber Junior, enfatiza a importância dos esforços dos governos e da iniciativa privada em busca de soluções que atendam às necessidades atuais. “Acredito que a maior lição que podemos aprender neste momento é que já tivemos outras epidemias e pandemias, mas, hoje, com a informação sendo difundida tão rapidamente quanto as soluções tecnológicas, podemos minimizar os efeitos enquanto a cura e a vacina não chegam para todos. São soluções que podem trazer resultados e impactar a vida das pessoas, por isso orientamos para que todos os polos de inovação divulguem suas iniciativas”, afirma.

De acordo com a Acate, até 8 de maio foram mapeadas 51 soluções tecnológicas: 16 na área da saúde, 11 para apoio no trabalho remoto, oito voltadas ao varejo e 16 para outras áreas. Essas iniciativas podem ser conferidas no endereço da entidade: https://acate.pages.pipz.io/eixo-solucoes-ACATE/

BiomeHub, empresa da Capital catarinense que atua na investigação de doenças infecciosas de difícil diagnóstico, desenvolveu teste de detecção do novo coronavírus – Foto: Divulgação/NDBiomeHub, empresa da Capital catarinense que atua na investigação de doenças infecciosas de difícil diagnóstico, desenvolveu teste de detecção do novo coronavírus – Foto: Divulgação/ND

Testes em massa para a retomada

Uma ideia de testes em massa foi desenvolvida pela BiomeHub, de Florianópolis, que tem projeto em parceria com a Fundação Certi e outras entidades do Estado com foco na indústria, para ajudar na retomada das atividades econômicas com segurança.  Esses testes foram adquiridos pela Fiesc (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina) e já aplicados em profissionais da Defesa Civil estadual na última semana.

A intenção é possibilitar que as indústrias possam monitorar seus funcionários de forma mais efetiva do que a oferecida pelos demais testes disponíveis no mercado. A empresa é especializada no desenvolvimento e aplicação de tecnologia de NGS (sequenciamento de nova geração) e bioinformática para área da saúde, que inclui apoio na investigação de doenças infecciosas de difícil diagnóstico, como a Covid-19.
De acordo com Luiz Felipe Valter de Oliveira, doutor em genética e biologia molecular e CEO do empreendimento, o foco, hoje, está nos testes de detecção da Covid-19.

“A ideia é que, na medida em que as empresas tenham acesso à testagem em grande escala, a retomada gradual da atividade econômica ocorra de forma mais segura no Estado. Nossa intenção é promover a saúde da população identificando mais rapidamente indivíduos assintomáticos, ajudando a interromper a transmissão do vírus.”

Luiz Felipe Valter de Oliveira, doutor em genética e biologia molecular e CEO da BiomeHub

Os primeiros testes começaram ainda em janeiro, quando o vírus estava concentrado na China. Foram feitas várias validações da abordagem que seria utilizada em termos de tecnologia para identificação do vírus, através do acesso à cultura de zika vírus, que assim como o coronavírus é um vírus de molécula RNA.

Com a padronização da metodologia, a empresa teve acesso aos primeiros casos de Covid-19 e iniciou um processo de validação para garantir que a qualidade do resultado era positiva. As amostras foram validadas em conformidade com as amostras do Lacen de Santa Catarina e do Hospital Albert Einstein.

O modelo de testes da BiomeHub também foi selecionado para receber apoio da mineradora Vale no país. Concorrendo com outras 1.857 propostas de soluções em todo o mundo, em cinco diferentes áreas de atuação, a empresa foi escolhida na categoria “testes em massa”.

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