Apenas 8% da população de SC recebe os alertas da Defesa Civil

Segundo o órgão estadual, sistema de cell broadcast que envia mensagens por áreas de cobertura de antenas de celular está em estudo

Mesmo com o anúncio da formação de um ciclone emitido pelo serviço de meteorologia da Epagri com quatro dias de antecedência e os alertas por SMS disparados pelo sistema de aviso da Defesa Civil estadual, a maioria dos catarinenses foi pega de surpresa com os efeitos do ciclone bomba.

O fenômeno varreu o Estado entre esta terça (30) e quarta-feira (1), causando destruição e pelo menos nove mortes.

Ratones, no Norte da Ilha, foi uma das áreas mais atingidas pelo vendaval em Florianópolis – Foto: Anderson Coelho/ND

De acordo com o coordenador de Monitoramento e Alertas da Defesa Civil do Estado, Frederico Rudorff, o maior problema é que para receber os alertas via SMS a pessoa precisa se cadastrar. Para isso, basta enviar o CEP de sua residência por SMS para o número 40199.

“Entretanto, mesmo com várias campanhas de conscientização, pouco
mais de 8% da população catarinense está cadastrada no sistema da Defesa Civil e recebe os avisos”, aponta. Considerando uma população de 6.248.436 pessoas, segundo o último Censo do IBGE (2010), apenas 503 mil estão cadastradas para o SMS, o que representa 8,05% de cobertura.

O zelador João Donato da Silva, morador no Norte da Ilha de Santa Catarina que teve prejuízos com a destruição dos ventos, diz que não recebeu nenhum alerta. “Só tinha visto pela TV que havia risco de um ciclone, algo assim”, afirma.

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Outras pessoas reclamam que o texto do alerta é muito técnico e dificulta o entendimento.  “Vamos aprimorar, pois sempre há oportunidade de melhorias, mas pedimos que a população se cadastre no sistema para receber as mensagens”.

Intensidade ‘foi uma surpresa’

Além da baixa adesão ao sistema de alertas, Rudorff afirma que a intensidade do fenômeno surpreendeu até mesmo a Defesa Civil. “Os danos maiores não foram provocados pelo ciclone, mas pela frente fria que veio logo na sequência”, afirma.

Segundo o coordenador, a passagem da frente fria não mostrava indicadores de tempestades severas. “Quando o radar conseguiu detectar a intensidade, tivemos pouco tempo para emitir os alertas. Com ventos que ultrapassaram os 100 km/h, o deslocamento foi tão rápido que do começo da tempestade na região Oeste, até chegar ao litoral, levou poucas horas. Se a gente soubesse da severidade antes, teríamos emitido outro nível de alerta”, diz Rudorff.

Outro problema é que os avisos de texto não dão orientações sobre o que a pessoa deve fazer nesses casos. “Dependendo do fenômeno – enxurradas, ondas de frio, tempestades com ventos, ressacas, etc, temos um rol diferente de recomendações. Mas elas não são enviadas por SMS, pois há um limite de
caracteres para envio das mensagens. As orientações estão disponíveis em nossas redes sociais e site”, informa Rudorff.

O coordenador destacou o papel da imprensa na divulgação das previsões e alertas disponibilizados diariamente pela Defesa Civil. “As informações estão nas nossas redes sociais que são bastante ativas, mas nem todos acompanham, daí o papel fundamental da imprensa para ajudar a difundir esses dados”.

Alerta entre duas a três horas antes

Em entrevista coletiva na manhã desta sexta-feira (3) em Florianópolis, o chefe da Defesa Civil do Estado, João Batista Cordeiro Júnior, afirmou que todas as regiões afetadas “receberam alarmes específicos, entre duas e três horas” antes da chegada do ciclone.

Conforme João, o monitoramento do fenômeno foi feito através do Serviço de Alerta do Estado, que é referência nacional e internacional. “Nós estamos ampliando essa cobertura. Foi feita a aquisição de um radar para a região Norte e estamos agora em fase de licitação da torre deste novo radar”, disse.

No mesmo evento, o secretário nacional de Proteção e Defesa Civil, coronel Alexandre Lucas, destacou a capacidade da Defesa Civil catarinense de atuar na recuperação de estragos quando fenômenos naturais de grandes proporções atingem o Estado.

Eficácia dos radares

Entretanto, ao que parece, o maior problema não está na fase posterior aos estragos e sim na eficácia da detecção e aviso dos eventos meteorológicos, de forma que se possa evitar perdas de vidas e materiais. Inicialmente, a previsão era de temporais apenas nas regiões Oeste e Meio-Oeste, mas em seis horas a linha de instabilidade cruzou o Estado, devastando o que estava pelo caminho.

Segundo a Epagri, o radar ajuda na identificação dos fenômenos, mas as linhas de instabilidade se formaram em questão de minutos e se deslocaram com muita rapidez, o que causou surpresa. Pouco antes do fenômeno atuar sobre o Estado, a Defesa Civil emitiu alerta de vendaval e granizo, mas a proporção foi muito maior do que o previsto.

Cell broadcast em estudo

Ainda de acordo com Rudorff, para aprimorar o sistema de alertas, o Cenad (Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres), coordenado pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil do Ministério do Desenvolvimento Regional, discute junto com a Anatel (Agência Nacional de
Telecomunicações) a implementação do cell broadcast.

Neste método, as mensagens são enviadas simultaneamente para usuários de telefones móveis em uma área definida. “Esperamos que num futuro próximo esse sistema possa ser utilizado. A vantagem é que todas as pessoas que estiverem na área de abrangência de uma antena de celular serão avisadas,
mesmo que seja um turista de passagem pelo local”.

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