Como as metrópoles estão lidando com o transporte público na pandemia

A partir do dia 8 de junho prefeituras podem decidir sobre a retomada gradual de transporte coletivo, e no momento debatem-se as medidas cabíveis para manter a segurança sanitária no serviço

Com expectativa de possível retorno do transporte público em diversas cidades de Santa Catarina, após decreto do governador Carlos Moisés (PSL), que autorizou prefeituras municipais a decidirem sobre a retomada do serviço, exalta-se o panorama externo de como capitais e metrópoles lidam com a situação em tempos de pandemia.

Boa parte dos estados e capitais optou por não vetar a circulação de ônibus, enquanto Campo Grande (capital de Mato Grosso do Sul) e Santa Catarina, suspenderam o serviço em meados de março, como modo de conter o contágio do novo coronavírus. A capital sul-mato-grossense retomou as atividades em abril.

Especialistas em infectologia ouvidos pela reportagem do nd+ afirmam que os cuidados devem ser a higienização frequente e a limitação de frotas e passageiros. No entanto, o melhor cuidado ainda é o veto inicial como modo de frear o contágio.

Nesse quesito, Florianópolis foi tomada como uma das capitais mais exemplares pelos infectologistas Antônio Mazzei e Fábio Gaudenzi, e também por Bernardo Meyer, professor de Administração da UFSC, e coordenador do Observatório da Mobilidade Urbana.

Curitiba limitou frota de ônibus em 80% e segue como uma das maiores capitais com menor incidência de infecção pelo novo coronavírus – Foto: Daniel Castellano/ SMCS/ND

Isso referenda uma dificuldade prática relatada por quem trabalha no meio. Segundo Waldir Fonseca, que dirige ônibus na Expresso Azul Urbana, de Curitiba, e é líder sindical do Sindimoc (Sindicato dos Motoristas e Cobradores de Curitiba e região), no início da pandemia as medidas de higienização eram seguidas fielmente.

Ogeny Pedro Maia Neto, presidente da Urbs, empresa que administra o transporte de Curitiba, afirma que foi iniciado processo de assepsia nos ônibus, demarcações nos terminais para estipular distanciamento, e limitação de 50% dos passageiros nos ônibus. Quem fiscaliza essas medidas são a Guarda Municipal de Curitiba, a Defesa Civil e os fiscais da Urbs.

A grande preocupação é o controle da lotação

Contudo, na prática, o motorista atesta que a higienização não é frequente, e que os ônibus repetidamente passam da lotação limite, e inclusive da máxima. Essa é tomada justamente como uma das medidas mais difíceis e importantes pelos especialistas.

“A grande preocupação de metrópoles que não pararam com os ônibus é o controle da lotação dos veículos. Isso é uma grande dificuldade pois as pessoas acabam entrando e se aglomerando nos veículos, aumentando muito o risco de contágio”, destacou o presidente da Sociedade Catarinense de Infectologia Fábio Gaudenzi.

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A capital do Paraná, reconhecida pela mobilidade urbana de qualidade, também mantém os motoristas e cobradores isolados e evita dinheiro como forma de pagamento – medida esta tomada por Berlim, Barcelona, Auckland e Jakarta.

A informação é do estudo Transporte público e COVID-19: O Que Pode Ser Feito? da FGV (Fundação Getúlio Vargas), que também destaca que para contornar a falta das cédulas nessas metrópoles, são fornecidos ou cartões gratuitos para serem utilizados.

Ademais, o isolamento de cobradores e motoristas têm sido outra tendência apontada como positiva. A Suíça, por exemplo, isolou os funcionários com fitas adesivas, algo que é seguido similarmente em algumas capitais, como Lisboa, em Portugal. Em solicitação do Sindicato dos Motoristas de Curitiba, os assentos próximos de motoristas e cobradores são segregados desde o dia 4 de abril.

Higienização: ato simples e eficaz

A já citada higienização frequente figura como uma das medidas mais simples, junto com a utilização de máscaras, que já viraram rotina em estabelecimentos, que também representam um certo risco por serem locais fechados.

“O mais importante é, realmente, o uso da máscara e a higienização das mãos. Os terminais têm de ter disponíveis pias com água e sabão e papel toalha e álcool gel. Cada passageiro também deve ter seu frasco no bolso. Se tocamos em uma superfície, mesmo de máscara, podemos tocar o rosto”, completou Gaudenzi.

Plano de retomada da capital catarinense deve ser anunciado após decisões do governo estadual. O Secretário de Mobilidade adianta que haverá medidas de higienização e controle de horário de comércios para diluir picos de passageiros – Foto: Anderson Coelho/ND

Além da higienização dos passageiros, há o risco de contaminação das superfícies do veículo que são tocadas várias vezes ao longo de um dia, considerando que o fluxo dos ônibus não é fixo, como o de uma universidade ou escola, mas rotativo.

Ainda segundo o estudo da FGV, a cidade de Shenzhen, na China, estipula que as máscaras devem ser utilizadas por todos os motoristas. Eles passam por sanitização após cada viagem, juntamente com assentos, braços dos assentos, barras ou alças de apoio e objetos que ficam em contato próximo com os passageiros. Filtros e dutos são higienizados em inspeções que ocorrem todas as semanas.

A Associação Internacional de Transporte público aponta que Xangai, também na China, utiliza luzes violetas para desinfetar os veículos, processo que demora cerca de sete minutos e mata mais de 99,9% dos vírus. Hong Kong usa robôs de desinfecção, ao passo que na Itália a frota de ônibus passa por uma sanitarização especial com vapor seco a 180°C, além limpezas com ozônio, como o utilizado em ambulâncias.

As mesmas dificuldades

A maior dificuldade prática, como já citada, é a de se manter os passageiros distantes e os motoristas e cobradores, isolados. Em Bordeaux, na França, os trâmuei (bondes movidos à eletricidade) foram limitados em 50% dos lugares, relata Suzie Colas, que mora na cidade francesa.

“Não pode sentar do lado de ninguém, nem na frente de outra pessoa. A primeira entrada atrás do condutor está fechada, e os lugares também”, acrescenta.

Em Pequim, na China, para controlar o fluxo, os passageiros devem agendar horário para utilizarem os metrôs das estações mais movimentadas por aplicativo.

“Mais do que nunca faz-se importante o distanciamento pessoal quando você está fora de casa, mantendo entre 1,5 m e 2 m entre uma pessoa e outra. Qualquer ambiente fechado é um ambiente crítico, mas no ônibus você tem um risco maior”, afirma o infectologista Antônio Mazzei.

Em Florianópolis, a maneira de reduzir essa lotação, segundo o Secretário de Mobilidade, Michel Mittmann, será implementando um quadro de horários para os comércios, diluindo os picos de passageiros. A medida se soma com um plano municipal que ainda não foi revelado na íntegra, mas deve seguir normativas iguais ou mais restritivas do que as estaduais.

“Terá um tempo para as pessoas dos comércios e serviços se adaptarem, e aí, se tivermos a autorização do governo do estado, aplicar esse quadro de horários”, afirma, em referência ao anúncio do governador Carlos Moisés (PSL) de que o deve dar autonomia para decidir sobre restrições de transporte e educação, efetivado em decreto nesta segunda (1º).

O novo normal

O novo normal pode manter um panorama de hábitos diferentes, com distanciamento e medidas sanitárias perdurando mesmo após grandes picos. Para especialistas da área, pode haver um replanejamento após a pandemia.

“Eu acredito que os meios não motorizados, os modais ativos, como caminhada, bicicleta e afins vão se fortalecer, e o governo precisa preparar estrutura para isso. Entretanto, ninguém vai pedalar 10km, há limites para usar ou não esses modais. Não há como substituir os ônibus por bicicletas e ciclovias, mas certamente haverá um fortalecimento”, observa Bernardo Meyer, do Observatório de Mobilidade Urbana da UFSC.

Ainda na França, o governo prevê um programa na ordem de R$ 22 milhões para incentivar a população a utilizar bicicletas, como forma de reduzir a poluição no período pós-pandemia. Milão prevê conversão de 35 quilômetros de ruas em mais espaço para ciclistas e pedestres, com limites de velocidade mais baixos, ciclovias improvisadas e calçadas mais largas.

“No retorno à normalidade vamos precisar mais do que estamos nos preocupando hoje com o meio ambiente. Foi visto que com essa redução de circulação de carros e emissão de poluentes, a diferença em termos de poluição foi muito grande. É mais do que chegado o momento para enfrentarmos esse problema de frente”, ressalta Meyer.

O papel do transporte público daqui para a frente

O pesquisador também reafirmou que os ônibus devem ser prioridade nesse tema, pois são veículos que rodam vários quilômetros ao longo de um dia queimando óleo diesel. “Esses deveriam ser os primeiros a serem incentivados a utilizarem formas mais eficientes de combustível e tecnologias limpas”, afirma.

Outro ponto que pode corroborar para uma mudança no panorama é o fato de que a receita das empresas de transporte sofreu queda vertiginosa. O relatório COVID-19 Community Mobility Report da Google, aponta queda de 49% no setor de transportes no Brasil. Similarmente, o período de retomada deve intensificar ainda mais os problemas financeiros, diz o já citado estudo da FGV.

Relatório publicado no dia 25 de maio aponta mudanças na mobilidade em meios como pontos de trânsito (da imagem) e de farmácias, parques e locais de trabalho – Foto: Google/Reprodução

“As dificuldades financeiras podem ainda ser gravadas pela necessidade de intensificação das rotinas de limpeza e compra de equipamentos de proteção individual. Medidas oficiais podem exigir a  redução da lotação dos veículos como forma de reduzir a transmissão do vírus. Isto, por sua vez, exigirá o aumento/manutenção da oferta normal em determinados horários, seja pela introdução de novos veículos ou pelo remanejo de veículos de linhas menos movimentadas”, aponta o Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura da FGV.

Capacitação sobre cuidados básicos

Os pesquisadores da instituição recomendam que os funcionários sejam capacitados sobre os cuidados básicos, que “não faltam e estão o tempo todo na imprensa e nas ruas”, segundo o motorista Waldir Fonseca.

A fundação e o trabalhador, contudo, também apontam para um outro problema gerado pela queda na receita. Fonseca relata que os operadores têm recebido 30% do salário em conjunto com benefícios e auxílios do governo.

“Nós sabemos casos de colegas que infelizmente tinham dívidas altas e confiavam no dinheiro da empresa e acabaram se apertando. Temos casos de vaquinha, em que outros motoristas ajudam. O impacto foi bem grande para os operadores, que estavam acostumados a ganhar um salário e de repente se deparam recebendo 30% do salário e uma parcela do governo que não sabemos quando vai vir e quanto que é. Ninguém consegue entender direito o cálculo que é feito sobre o piso. Muita gente não entendeu direito como funciona, tá afastado há mais de um mês e ainda não recebeu”, relata.

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