Como estava a vida de Oscar do Rosário após ser condenado injustamente

Condenado injustamente pela morte da menina Gabrielli, Oscar morreu atropelado na noite de quinta-feira (29), no Rio Grande do Sul

“Ele foi reconstruindo a vida do zero e tentando esquecer tudo que passou. Eu sempre dizia pra ele: você é meu piazinho”. Aos 35 anos, Oscar Gonçalves do Rosário passou os últimos 10 anos tentando esquecer tudo que passou de 2007 a 2010. Acusado e condenado injustamente, Oscar passou três anos e 14 dias preso até a anulação do julgamento que o havia sentenciado a 20 anos de prisão.

Maria Gonçalves do Rosário ainda lembra do dia que Oscar foi injustamente preso – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

Pedreiro à época, ele foi preso após ser apontado como o responsável pela morte de Gabrielli Cristina Eichholz. Todo o processo foi anulado pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina, mas Oscar passou 1.109 dias no Presídio Regional de Joinville e a família não sabe, até hoje, o que ele viveu dentro do cárcere. 

“O que ele passou, só ele sabe porque nunca contou nada. A única vez que ele falou alguma coisa foi dias atrás quando me viu chorando. Ele disse: pra tudo tem solução, Ma. Eu passei 15 dias apanhando, já não aguentava mais, tentei me matar, não consegui e as coisas foram se ajeitando”, lembra Maria Gonçalves do Rosário, irmã de Oscar.

Era “Ma”, como ele a chamava, que estava com ele em casa no momento em que foi preso. À época com 15 anos, ela ainda lembra e ressalta que nunca vai esquecer do momento em que seu irmão foi levado pela polícia e só voltou três anos depois, diferente. “No começo ele ficava assustado, parecia que já vinham buscar ele, no começo era assim, mas então ele começou a trabalhar e foi reconstruindo a vidinha dele”, diz.

Pouco depois de voltar para casa, em Canoinhas, no Planalto Norte, Oscar conheceu a companheira e logo viu o nascimento do primeiro filho, hoje com nove anos. Além dele e da companheira, ele deixa, ainda, uma filha de pouco mais de um ano que, como conta a irmã, “era o grude dele”. “Ela ficou ontem chamando por ele o dia todo, era um grude só”, fala.

Oscar tinha três irmãos e os pais, todos morando no mesmo bairro. A irmã conta que até recentemente, ele trabalhava em uma tabacaria, mas com o término do contrato, passou a trabalhar como ajudante de caminhoneiro com o irmão e com um amigo, com quem estava no momento em que foi atropelado no Rio Grande do Sul. Era o primeiro passo de um dos sonhos que Oscar tinha. “Ele tinha muitos sonhos, um deles era ser caminhoneiro”, diz.

Oscar Gonçalves do Rosário foi preso em 2007 e condenado injustamente. Três anos depois, TJSC anulou o julgamento – Foto: Arquivo/ND

A notícia da morte de Oscar abalou a família. Maria lembra que, cerca de um ano após ser libertado, ele sofreu um grave acidente de moto que o deixou em coma. “Na hora que eu recebi a notícia, não acreditei, achei que era mentira, engano porque no dia do acidente de moto também falaram que ele tinha morrido. Só que agora meu irmão e meu pai já foram pra lá e estão voltando. É ele, não é engano, não tem o que fazer”, lamenta.

Oscar morreu ao ser atropelado por uma camionete na noite de quinta-feira (29), em Porto Alegre. Ele será sepultado às 11h de sábado (31), no Cemitério Municipal de Canoinhas. “A memória que eu vou ter dele é de um piá alegre, que gostava de ajudar o outro. Qualquer um sabia que poderia contar com ele a hora que fosse. Ele era companheiro”, finaliza.

Quando sair, indenização será direcionada aos filhos

Preso, acusado e condenado. Injustamente. O julgamento de Oscar foi anulado pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina, mas apesar disso, ele já havia ficado mais de três anos preso e sua imagem circulado por todo o país. 

O pedido de indenização ao Estado feito pela defesa foi acatado pela Justiça. Em primeira instância o Estado foi condenado a pagar R$ 40 mil por danos morais, uma vez que Oscar sofreu humilhações públicas. O valor foi dobrado pelo TJSC, que fixou a indenização em R$ 80 mil. 

Apesar disso, o Estado recorreu ao STJ, solicitando a redução para R$ 5 mil, mas o pedido foi negado. Embora o Estado tenha “aceitado” a condenação, continua pleiteando e entrando com recursos para tentar baixar o valor da indenização.

Antônio Anacleto, advogado de Oscar, explica que o processo ainda deve se arrastar por anos, com recursos, agravos e até que, de fato, o valor indenizatório seja colocado no orçamento. “A primeira briga era para mostrar que ele era inocente e que o Estado errou”, lembra.

Com a morte de Oscar, o valor da indenização é repassado aos filhos e à companheira. No entanto, o pagamento, efetivamente, ainda deve demorar anos para ser realizado e pode, ainda, ser feito em “parcelas”.

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