“Eu renasci na Curva da Santa”: o relato de quem sobreviveu ao grave acidente na BR-376

Andréa Lédo estava no ônibus que capotou com mais de 50 passageiros em Guaratuba e conta como foi o momento do acidente

O relógio de Andréa Lédo está parado desde às 8h31 da última segunda-feira (25). Naquele dia, naquele exato minuto, o ônibus em que ela estava com outras 52 pessoas tombou na Curva da Santa, em Guaratuba, deixando 19 pessoas mortas e dezenas de feridos. 

Relógio de Andréa parou no exato momento do acidente – Foto: Arquivo pessoal/NDRelógio de Andréa parou no exato momento do acidente – Foto: Arquivo pessoal/ND

Andréa sobreviveu, foi levada para o Hospital São José, em Joinville, e se recupera de fraturas em duas costelas, de uma fissura no fêmur e de dores na lombar. Três dias após o acidente, ela ainda tenta processar tudo o que aconteceu durante a viagem que representava a oportunidade de mudar de vida em um novo estado.

A mudança para Joinville

Professora universitária, Andréa estudou muito para onde iria se mudar até se decidir por Joinville, no Norte de Santa Catarina. Ela quer fazer doutorado e escolheu a maior cidade do Estado para viver com o filho de 13 anos. “Como eu vinha com ele, queria estar em uma cidade mais tranquila”, conta.

“Quando tomei a decisão de vir, me preocupei em conhecer outros paraenses que já estavam aqui pelas redes sociais. Nesses grupos, há uma oferta muito grande de viagens”, fala. Foi por lá que ela soube do ônibus que sairia de Ananindeua no dia 22 de janeiro.

Antes da viagem, Andréa não conhecia nenhum dos passageiros. “Conheci todos na hora e acabamos formando uma grande família. A viagem foi muito boa e estava sendo tranquila até o momento do acidente”, relembra.

Andréa veio para Joinville para buscar oportunidades profissionais – Foto: Arquivo pessoal/NDAndréa veio para Joinville para buscar oportunidades profissionais – Foto: Arquivo pessoal/ND

Confusão no embarque

Andréa conta que durante a viagem não se notou nenhum problema em relação ao ônibus, mas que na hora do embarque o acompanhante de um passageiro teria notado um problema no para-brisa e reclamado. “Eu tentei não me ligar muito nisso, olhei de longe e achei que não daria problema”, diz. Segundo ela, o problema teria sido resolvido antes mesmo da saída do veículo.

Além disso, também havia problemas no controle dos passageiros. Andréa explica que viria com o filho de 13 anos para Santa Catarina e que, poucos dias antes da viagem, fez um depósito para pagar a passagem dele, além de passar todos os dados sobre o filho. Apesar disso, no momento do embarque, apenas o nome dele constava na lista de passageiros, enquanto o dela não aparecia.

O filho acabou não embarcando no ônibus, já que ficou com medo. “Eu também disse que não iria, mas alguma coisa dizia que, como eu queria vir atrás das minhas oportunidades, deveria ir”, lembra Andréa. Ela embarcou no ônibus e sua poltrona estava marcada para a parte superior do veículo. “Olhei a poltrona, não gostei, pedi se poderia escolher outra e decidi ficar embaixo”, fala.

“Durante a viagem estava tudo bem, tudo tranquilo, não senti nenhum sinal de problema no ônibus. O motorista auxiliar dirigia bem, até mesmo o senhor que estava conduzindo também dirigia bem o ônibus, não vimos nada de errado”, fala.

O momento do acidente

Minutos antes do acidente, o ônibus parou em um posto para que os passageiros tomassem café. “O motorista auxiliar falou pra mim que ia levar o ônibus para ver os pneus e os freios direitinho porque íamos descer a serra e tinha que estar tudo certo. Ele levou e depois retornou e não houve nenhum comentário de problema”, relembra Andréa.

Ainda tentando processar as informações, a professora conta como foi o momento do acidente. “O motorista auxiliar tinha ido atrás do ônibus junto com outro rapaz que estava acompanhando a viagem. Eles foram mexer em uma bagagem, e como era o repouso dele, ficou conversando algumas coisas sobre o tempo que era pra descer. Estávamos todos alegres”, fala.

“Eu senti quando ele estava próximo de mim que notou alguma coisa estranha e disse ‘esse cara tá doido’ e saiu correndo lá pra frente”, relembra. “Foi tudo muito rápido. Nesse momento, eu vi que um bebê caiu porque o ônibus virou para a direita. Eu gritei ‘para’ e me joguei para pegar a criança, de maneira meio intuitiva. Depois disso, não sei mais, creio que eu desmaiei”, fala Andréa.

Acidente ocorreu no km 668 da BR-376, no trecho conhecido como Curva da Santa – Foto: Ricardo Alves/NDTVAcidente ocorreu no km 668 da BR-376, no trecho conhecido como Curva da Santa – Foto: Ricardo Alves/NDTV

A primeira memória dela após o acidente é de estar abaixada, em meio aos vidros no chão do ônibus e à muita coisa retorcida. Chamada de professora pelos passageiros, Andréa ouviu vários gritos chamando por ela e também por outras pessoas que estavam no veículo, como um homem que procurava pela sua companheira. 

Quem a ajudou a sair do ônibus foi o guincheiro Cleiton Santos Alves, que mora perto do local do acidente e foi um dos primeiros a chegar. “Ele dizia para eu pular e não conseguia porque estava doendo muito o meu quadril. Ele foi muito gentil, ainda procurou um chinelo porque tinha muito vidro e me carregou com a ajuda de um outro rapaz”, fala Andréa.

Considerado um herói pela família, Cleiton ainda ajudou a professora a entrar em contato com a família. “Eu estava muito nervosa e me preocupava muito com os meus dois filhos. Ele me deu o telefone e eu digitei os números. Ele me ajudou muito mesmo, foi um anjo”, destaca Andréa.

Andréa recebeu alta do hospital e vai ficar em Joinville – Foto: Arquivo pessoal/NDAndréa recebeu alta do hospital e vai ficar em Joinville – Foto: Arquivo pessoal/ND

A recuperação após a tragédia

“Eu faço contagem assim agora: 24 horas após o acidente, 48 após o acidente. Tem sido muito difícil”.

Menos de uma semana após a tragédia, Andréa recebeu alta do hospital e tenta se recuperar do abalo físico e emocional na nova cidade que escolheu para morar. “Eu disse que viria para Joinville atrás de oportunidades. Cheguei em Joinville de ambulância e permanecerei aqui nessa cidade. Eu renasci na Curva da Santa”, destaca.

Até agora, ela diz não ter recebido nenhum tipo de apoio da empresa responsável pela viagem. “Eu soube que estiveram na direção do hospital, mas não me procuraram. Estou aguardando”, fala. Apesar disso, ela tem encontrado apoio com a equipe do Hospital São José e outras pessoas que a encontram. “O hospital é incrível. A assistente social providenciou uma muda de roupa e itens de higiene pra eu sair, já que não tenho nada, nem um documento, nem um chinelo. A psicóloga está me acompanhando. São tantos profissionais maravilhosos, os médicos, os técnicos de enfermagem, a equipe de limpeza. Acho que eu renasci dentro do hospital”, fala.

Andréa se apega à fé para superar a tragédia. “O relógio está todo quebrado, mas meu cordão com minha Nossa Senhora de Nazaré estava intacto no meu pescoço”.

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