Prestes a completar um mês, tragédia com ônibus reacende os perigos que moram na BR-376

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Acidente que matou 19 pessoas revela os riscos que a principal via de ligação do Sul do país oferece aos motoristas; especialistas apontam que imprudência tem sido a maior causa de desastres

Produção: Milena Amaral / Luana Amorim
Colaboração: Juan Todescatt 

“Filho, sofremos um acidente, eu ‘tô’ bem, não quebrei nada.” 

Era cerca de 9h da manhã de uma segunda-feira quando o filho da professora Andreá Lédo recebeu um áudio de oito segundos em um aplicativo de mensagem. Nele, a mãe contava que acabara de sofrer um acidente no km 668 da BR-376, em Guaratuba, no Paraná, principal via de ligação com o Sul do país.

A voz preocupada veio acompanhada de uma foto, que mostrava o rosto da professora com hematomas e ferimentos.

Andréa mandou a foto para o filho pouco depois do acidente – Foto: Arquivo PessoalAndréa mandou a foto para o filho pouco depois do acidente – Foto: Arquivo Pessoal

Em um primeiro momento, as escoriações no rosto de Andréa podem não dar a dimensão da gravidade do acidente. Mas ela integra a lista dos 33 sobreviventes da tragédia do dia 25 de janeiro de 2021: um ônibus de turismo, que vinha do Pará e tinha como destino o litoral catarinense, tombou no quilômetro conhecido como ‘curva da santa’ e caiu em uma ribanceira.

Andreá sobreviveu. Mas, 19 pessoas – entre elas crianças e adolescentes – não. A colisão aconteceu a poucas horas de distância do destino final e entre as duas áreas de escape disponíveis na rodovia para evitar graves acidentes.

“Em determinado momento, o motorista auxiliar veio atrás do ônibus para mexer em algumas malas. Foi aí que a gente sentiu a velocidade aumentar muito rapidamente. Depois disso só tenho a memória do acidente, dos gritos, das coisas retorcidas, da estrada, de gente no meio do nada. Tudo aconteceu em cerca de três, cinco minutos, no máximo”, relata a professora.

Parte superior da frente do ônibus ficou completamente destruída – Foto: Ricardo Alves/NDTVParte superior da frente do ônibus ficou completamente destruída – Foto: Ricardo Alves/NDTV

Os passageiros do ônibus, que minutos antes do acidente riam e cantavam no veículo, fazem parte de uma triste estatística da 376. Segundo dados da PRF (Polícia Rodoviária Federal) do Paraná, entre os anos de 2018 e 2020, 19 pessoas perderam a vida no trecho, que corresponde aos quilômetros 660 e 675.

São Josés, Joãos, Julianes, Geovanas, Andreias e Thiagos que partiram em questão de segundos, seja por falha mecânica, imprudência ou descuido em uma das rodovias mais perigosas do país.

Serra da BR-376 é um dos trechos mais perigosos do Sul do país – Imagens cedidas por Marcelo TomazelliSerra da BR-376 é um dos trechos mais perigosos do Sul do país – Imagens cedidas por Marcelo Tomazelli

Borracha queimada e a ‘sinfonia’ dos freios

O cheiro forte de borracha queimada, o som dos freios e o clima que muda rapidamente, trazendo neblina e chuva inesperadamente, fazem parte da rotina dos milhares de motoristas que transitam todos os dias nos 15 km da Serra de Guaratuba. As curvas sinuosas assustam. Em dias de chuva, apavoram. E para alguns, pode ser o destino final.

Centenas de caminhões usam a BR-376 diariamente – Foto: Luana Amorim/NDCentenas de caminhões usam a BR-376 diariamente – Foto: Luana Amorim/ND

Entre estes motoristas está o morador de Palhoça, na Grande Florianópolis, Ricardo Luiz Mendonça. Há dois anos, ele pega a sua carreta, carregada com oxigênio, e desce ao menos quatro vezes a BR-376.

A cada descida, ecoa na mente os ensinamentos do tio, que deu um conselho importante ao saber que o sobrinho também se aventuraria pelas estradas com um caminhão.

“Caminhoneiro por 50 anos, ele dizia: ‘você nunca brinca com a Serra. Porque o dia que você brincar com a Serra, você vai morrer‘”, relembra.

O conselho não é em vão. Ao longo dos anos, o trecho da rodovia, que corta o município de Guaratuba, já registrou outras dezenas de tragédias. Em novembro de 2012, por exemplo, sete pessoas morreram após o veículo onde estavam ser atingido por um caminhão sem freios.

Uma das vítimas, que era natural de Itajaí, voltava de uma viagem a Foz do Iguaçu, onde comprou o enxoval do filho que nunca viu nascer.

Acidente em 2012 matou sete pessoas no mesmo trecho da Serra – Foto: Arquivo/NDTVAcidente em 2012 matou sete pessoas no mesmo trecho da Serra – Foto: Arquivo/NDTV

Ricardo conta que descer a Serra é um dos momentos de mais apreensão em toda a viagem e que o alívio só vem ao chegar no primeiro ponto de pedágio da BR-101, já em Santa Catarina.

“Toda vez que desço, o meu alívio só vem quando passo o pedágio em Garuva. Porque daí vem o sentimento: agora sim, acabou a Serra, agora vamos só no sobe e desce”, diz enquanto olha para longe.

Segundo José Júnior, gerente de operações da Arteris Litoral Sul, cada trecho da estrada merece a atenção dos condutores.

“Ela [a Serra] é um trecho que requer mais cuidado dos motoristas. É um declive acentuado, com várias curvas em poucos quilômetros, o que requer habilidade do condutor e manutenção do veículo”, conta.

Os anos de estrada também fizeram com que Ricardo presenciasse perigos e erros de outros motoristas que andam pela rodovia, principalmente no que se diz respeito a velocidade.

“Quem usa essa Serra tem que respeitar. Se seguir a sinalização, você vai fazer ela tranquila. Mas você vai ver que eles [motoristas] não descem a 60 km/h por hora [velocidade permitida no trecho]. E tem lugares que mesmo que seja essa a velocidade padrão, você tem que andar ainda mais devagar”, ressalta.

O ND+ desceu a Serra da BR-376 e acompanhou por um dia a rotina na rodovia. Durante os quase 30 minutos em que a reportagem esteve no local, flagrou vários motoristas andando acima da velocidade permitida e realizando ultrapassagens proibidas.

Velocidade permitida no trecho é de 60km/h – Foto: Luana Amorim/NDVelocidade permitida no trecho é de 60km/h – Foto: Luana Amorim/ND

A dor que ficou marcada na pele e nos ponteiros do relógio

A busca de uma nova vida no Sul do Brasil fez com que Andréa deixasse o Pará no dia 22 de janeiro rumo a Santa Catarina. Por ter medo de viajar de avião, a professora decidiu fazer o trajeto de mais de 3.300 km até Joinville, no Norte catarinense, por terra.

Desde que sentou em um dos bancos do ônibus, ela tinha consciência dos perigos da rodovia e das curvas que enfrentaria ao chegar no trecho da BR-376.

“Eu sabia que havia um longo trecho de serra porque motoristas e pessoas que viajavam por ali sempre comentavam. Então, tinha a consciência de que haveria um momento de decida e de curvas, mas jamais imaginei que pudesse acontecer algo”, conta.

Era cerca de 8h30 quando aconteceu o acidente. Imagens, as quais o Grupo ND teve acesso, mostram o momento exato em que o veículo faz o trecho em alta velocidade e colide com a mureta de proteção da rodovia.

Andréa não imagina o que pode ter causado o acidente, sobretudo porque o ônibus não teria apresentado problemas durante toda a viagem.

Em depoimento, o motorista afirmou que o acidente aconteceu após o veículo apresentar uma falha em um dos freios. Segundo a empresa, antes da viagem, o ônibus teria passado por uma vistoria. A Polícia Civil do Paraná segue investigando o caso para apurar as causas e as responsabilidades pela morte dos 19 passageiros.

Para a professora, as lembranças vão além das marcas na pele e na memória. Em uma das mãos, ela segura o relógio que marcou o momento exato do acidente.

“Era para o meu filho ter vindo junto. Mas houve uma confusão no embarque, ele desistiu da viagem e eu acatei a decisão. Isto eu considero um milagre. Eu mesma pensei em desistir, mas não arredei o pé da ideia”, fala.

Relógio de Andréa parou no exato momento do acidente – Foto: Arquivo pessoal/NDRelógio de Andréa parou no exato momento do acidente – Foto: Arquivo pessoal/ND

Apesar das mortes, PRF registra queda no número de ocorrências

Ao longo dos anos, após as inúmeras tragédias, a rodovia sofreu uma série de alterações em sua estrutura. Entre elas, a implantação de controles de velocidade, iluminação e a criação de áreas de escape.

As mudanças estão refletidas na redução das ocorrências atendidas entre os quilômetros 660 e 675 nos últimos três anos, que correspondem a 47%, ou seja, passou de 145, em 2018, para 76, em 2020.

“No ano passado, chegamos a ficar sete meses sem registrar mortes na BR-376. O que demonstra que todo o trabalho preventivo tem mostrado resultados”, afirma o gerente de operações da concessionária que administra a rodovia, José Júnior. O acidente com o ônibus paraense foi o primeiro de 2021 na curva da santa.

As áreas de escape nos quilômetros 671,7 e 667,3, inclusive, são tidas como uma “vitória” na luta para diminuir o grande número de acidentes no trecho. Até o final de janeiro, segundo a Arteris, 129 vidas já foram salvas pelos dispositivos.

Curva onde ocorreu o acidente que matou 19 pessoas na BR-376 – Foto: Luana Amorim/NDCurva onde ocorreu o acidente que matou 19 pessoas na BR-376 – Foto: Luana Amorim/ND

Imprudência, falta de atenção e alta velocidade: os fatores que mais contribuem para as mortes

Mesmo com todas as melhorias no trecho, ainda é constante o registro de acidentes. E segundo a PRF, especialistas e motoristas tudo isso está ligado a um principal fator: a imprudência.

“Há grande parcela de responsabilidade do usuário, ou seja, do condutor, em manter um comportamento seguro. Ele precisa pensar que não está sozinho na rodovia”, pontua José Júnior.

Os dados da polícia apontam que as principais causas presumíveis de acidentes no trecho ocorrem por defeito mecânico, falta de atenção à condução e velocidade incompatível. Já Márcia Pontes, especialista em trânsito, pontua, ainda, que eles acontecem, na maior parte, durante o dia, com tempo seco e “pista boa”.

“Por exemplo, um caminhão. O ponto cego do veículo é muito mais complicado e difícil. Por isso, o motorista tem que ter cautela. Não pode ficar atrás ou na lateral. Além disso, tem que compreender que este tipo de veículo demora muito mais para frear e, quando tem outras composições, em uma frenagem muito rápida, aquilo vai fazer um L, tombando e empurrando tudo o que tem na rodovia”, relata.

Além disso, o desrespeito a sinalização e a velocidade permitida também são fatores fundamentais para a série de acidentes que ocorre no trecho. Por isso, Pontes reforça que o motorista precisa ter consciência dos cuidados no trânsito.

“Dirigir é comportamento. Não interessa se é um veículo de duas, quatro, dezoito ou mais rodas. A rodovia não mata ninguém. É gente matando gente por falta de prevenção e cuidados”, fala.

Mas como prevenir os acidentes no trecho?

Pensando na redução de acidentes e, consequentemente, no número de vítimas, a PRF faz uma série de recomendações para quem trafega pela rodovia. Confira:

  • Realizar as revisões periódicas no veículo, dando atenção aos itens de segurança como pneus, sistema de freios, suspensão e barra de direção;
  • Respeitar os limites de velocidade;
  • Manter distância de segurança em relação aos demais veículos;
  • Ultrapassar apenas quando houver plenas condições de segurança;
  • Não desviar a atenção do trânsito;
  • Respeitar as demais leis e normas de trânsito e a sinalização presente no local;
  • Não dirigir cansado ou com sono, no caso dos motoristas profissionais, respeitar a lei do descanso;
  • Não ingerir bebidas alcoólicas;
  • Utilizar cinto de segurança e o dispositivo de retenção adequado;
  • Em caso de restrição de visibilidade em razão de condições climáticas desfavoráveis, a orientação é diminuir a velocidade, sem freadas bruscas; manter o farol baixo ligado (nunca usar farol alto);
  • Manter sempre uma distância segura em relação ao veículo que está à frente;
  • Sinalizar qualquer mudança de direção;
  • Não parar no acostamento (mas se precisar, procurar fazer o mais afastado possível da pista) e após imobilizado, ligar o pisca-alerta e colocar o triângulo a pelo menos 30 metros do veículo.
Ricardo salienta sobre a importância de fazer a manutenção do veículo a todo o momento – Foto: Luana Amorim/NDRicardo salienta sobre a importância de fazer a manutenção do veículo a todo o momento – Foto: Luana Amorim/ND

“Quem usa a Serra, tem que respeitá-la”

Ao terminar de descer a Serra, Ricardo para em um posto de combustível, às margens da rodovia, e inicia o processo de manutenção antes dos 15 minutos de descanso: bate pneu, confere os freios e motor para garantir que os últimos quilômetros ocorram sem problemas.

“Eu sei que com o meu caminhão, a cada três abastecimentos, eu preciso fazer essa revisão. Então eu desço e faço toda essa conferência, que costumo chamar de volta olímpica. A revisão é sempre”, afirma.

Mesmo com todos os cuidados, ele não esconde o medo e a insegurança que não é só dele, mas de dezenas de outros motoristas:

“Repórter: O motorista que sai para pegar este trecho sabe que corre o risco de não voltar então?

Ricardo: Sabe. Quem conhece o trecho, sabe.”