Procura por bicicletas aumenta em Blumenau durante a pandemia

Produção dobrou em uma fábrica de bicicletas da cidade, por falta de ônibus. Só 7,8% das vias da cidade têm faixa para ciclistas

As dificuldades enfrentadas pelos passageiros do transporte coletivo, com a suspensão e posterior retomada parcial dos ônibus, refletiu diretamente na produção de bicicletas em Blumenau.

Na contramão da crise trazida pelo novo coronavírus, fabricantes do produto registraram crescimento expressivo nas vendas. Previstas normalmente para o final de setembro, por conta do Dia das Crianças e do Natal, as admissões iniciaram em julho.

Blumenau registra aumento na produção e venda de bicicletas durante pandemia – Foto: Gabriela Milanezi/NDTV

Na fábrica da Mormaii, uma das empresas da cidade – que atua como fornecedora, mas também faz a venda direta ao consumidor-, a contratação de funcionários temporários precisou ser antecipada.

Foram preenchidas 70 vagas e outras 10 ainda estão abertas. Hoje são aproximadamente 230 trabalhadores para dar conta de uma produção média de 20 mil bicicletas ao mês. É o dobro em relação ao ano passado, afirma a gerente Fabricia Schulz Bilck.

Este é um cenário bem diferente do início da pandemia, quando foi preciso fechar as portas temporariamente, houve cancelamento de alguns pedidos e o estoque chegou a ficar cheio.

No entanto, conforme as atividades econômicas puderam retornar e os ônibus não, aderir ao pedal se tornou alternativa para a locomoção.

Fábrica de bicicletas de Blumenau registrou aumento na procura nos meses de julho e agosto – Foto: Gabriela Milanezi/NDTV

“A bicicleta como meio de transporte está sendo essencial nesse período. Eu estou quase sem produto na loja e a fábrica não consegue informar se vai me abastecer.

Em julho e agosto batemos recordes de vendas. A procura foi muito grande por bicicletas adultas”, afirma Fabricia, ao pontuar que a empresa só recebe pedidos agora para 2021.

Aumento de ciclistas

No dia 14 de março, pouco antes da pandemia, a ABC Ciclovias (Associação Blumenauense Pró-Ciclovias), em parceria com uma empresa de Curitiba, instalou um medidor na rua Antônio da Veiga, onde fica a Furb (Universidade Regional de Blumenau), para saber quantas pessoas passam pela ciclovia diariamente.

Os números mostraram o aumento no uso da bike quando os ônibus precisaram parar. No primeiro mês o equipamento apontou a passagem de 3.041 ciclistas. Em abril chegou a 7.428, e em maio, período com maior registro, contabilizou 8.931.

Os horários com mais fluxo são 7h e 17h, o que, na opinião da ABC Ciclovias, demonstra a utilização para ir e voltar do trabalho.

“A contagem nos primeiros dias marcava, em média, 200 passagens de ciclistas por dia. Posteriormente, tivemos picos de 400. Em alguns momentos o gráfico fica bem ‘montanha-russa’, pois temos no meio do caminho o retorno e nova paralisação dos ônibus, assim como dias de chuva e de frio extremo”, explica Alessandro Ricardo Braun Amaro, da ABC Ciclovias.

Ellen Daiane de Paula é exemplo de adesão ao pedal. Ela conta que sempre usou o ônibus para trabalhar, mas quando o serviço foi interrompido, recorreu pela primeira vez à bicicleta.

São cerca de 15 quilômetros por dia entre o bairro Passo Manso e a Itoupava Seca e quase 20 minutos a menos na estrada, pois antes enfrentava o congestionamento com o ônibus em partes do trajeto.

Atualmente, mesmo com a retomada do transporte coletivo em Blumenau, a auxiliar de escritório segue de bike. É que os ônibus circulam apenas nos momentos de pico e não encaixam no horário de trabalho dela.

Ellen aderiu à bicicleta em virtude da suspensão do transporte coletivo – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução

Quando o retorno for integral, Ellen diz que pretende voltar a usar o serviço, por uma questão de segurança. Isso porque, faltam espaços destinados aos ciclistas em todo o percurso dela, o que, segundo ela, a faria manter o hábito.

“No início deu bastante medo, porque eu ia só pela calçada. Ali na rua Frei Estanislau Schaette é horrível, onde não tem mato é muito buraco. Aí troquei e estava indo pela Humberto de Campos, mas quando chego na General Osório é bem ruim. Agora já consigo ir pelo asfalto mesmo, mas é com bastante cuidado, os carros e motos não querem nem saber”, conta.

Infraestrutura é um desafio

Para a ABC Ciclovias, infraestrutura é o maior problema enfrentando pelos ciclistas. Na visão de Alessandro, a malha cicloviária de Blumenau não foi pensada de forma a levar as pessoas de um local a outro com segurança.

“Temos ciclovias que acabam no nada, ciclofaixas com espaço minúsculo e calçadas compartilhadas sem espaço para que pedestres e ciclistas se locomovam com segurança”, destaca.

Blumenau tem 1.424 quilômetros de via urbana. Destes, 111 quilômetros são de faixas para quem usa bicicleta, conforme dados da Secretaria de Planejamento Urbano.

Rua Frei Estanislau Schaette não tem espaço destinado aos ciclistas – Foto: Gabriela Milanezi/NDTV

A prefeitura planeja entregar ainda este ano algumas obras que contemplam ciclovias, como o binário da rua Chile, a revitalização da República Argentina, bem como a General Osório e a Guilherme Scharf. Para 2021, a projeção é chegar a 131 quilômetros destinados aos ciclistas.

A interligação delas é uma meta. Segundo o diretor de Mobilidade Urbana, Julian Plautz, a Administração Municipal prevê esse trabalho e tem alguns projetos.

É o caso das marginais da Via Expressa com a rua Francisco Vahldieck e da República Argentina com a Avenida Beira-Rio.

Na Frei Estanislau Schaette, por onde passa a ciclista Ellen Daiane de Paula, a prefeitura ainda não tem o projeto.

Entretanto, acredita que quando a rua for reurbanizada haverá a implantação de um passeio compartilhado para pedestres e ciclistas. Isso porque, segundo Plautz, a largura da estrada pode não permitir uma faixa exclusiva.

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