Tragédia na Serra Dona Francisca: “Eles entraram em um ônibus para o fim da vida”

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Cinco anos se passaram desde a maior tragédia rodoviária de Santa Catarina; para os familiares, o tempo não ajudou a curar as feridas da ausência

REPORTAGEM: Adrieli Evarini
EDIÇÃO: Raquel Schiavini Schwarz

18h45. O relógio parou cerca de duas horas depois que o ônibus da Costa & Mar bateu contra o barranco da Serra Dona Francisca, se transformando na maior tragédia rodoviária de Santa Catarina. No pulso de Sônia Regina Vieira, de 45 anos, o relógio ainda continuou trabalhando até que, assim como a vida de 51 pessoas, cessou.

O relógio utilizado por uma das vítimas parou de funcionar uma hora depois da tragédia – Foto: Adrieli Evarini/ND

Essa foi uma das poucas lembranças que Ana Maria Pires, de 65 anos, conseguiu resgatar e guardar. Do braço da filha, a memória foi delicadamente guardada. Além da filha, Ana perdeu a sua “Lala”. A neta Lariana Regina Vieira morreu ao lado da mãe.

Os braços protetores da mãe, no entanto, foram fortes suficientes para salvar a vida do filho Arthur, de pouco menos de dois anos, no colo. O garoto foi um dos oito sobreviventes e hoje é o motivo que a aposentada precisa para seguir em frente.

O relógio se une às lembranças da época em que Sônia era atleta e Ana lembra com orgulho da filha. “Ela era jogadora de basquete, representava a cidade na juventude, jogou com a Hortência”, fala com lágrimas nos olhos enquanto mostra joelheiras, anotações, cadernos e apostilas. A filha era professora e era “quem dividia a cruz comigo”.

Lariana estava seguindo os passos da mãe. Aos 19 anos, fazia estágio em uma creche e era a alegria da casa de Ana. “Ela era toda contente, a risada dela era contagiante e, hoje, quando chega a hora do almoço, parece que ela vai chegar a qualquer momento com os cabelos compridos soltos e sorrindo para ver o Arthurzinho”, diz.

A dor de Ana não diminuiu. Passaram-se semanas, meses, anos, mas aquele final de semana continua vivo na memória como se tivesse acabado de acontecer. “Para uma mãe, para uma avó não existe, não tem como preencher esse vazio. Claro que preciso de força para ver os netinhos crescendo, mas não tem como esquecer”, fala.

Ana perdeu a filha Sônia e a neta Lariana e hoje tem no bisneto a força para continuar – Foto: Adrieli Evarini/ND

Ela lembra da filha e da neta com lágrimas correndo incessantemente enquanto está sentada, ao lado das imagens das santas, velas e Bíblia que mantém em casa. A fé é uma das âncoras na qual ela se agarra.

A outra tem olhos azuis, cabelos claros e é um dos milagres da tragédia. O bisneto Arthur, que a chama de Bibi, é a alegria da casa e um pedaço daquelas que partiram. “O que me dá bastante força é aquele pedacinho da minha neta. Ele diz pra mim: não me chame de Arthur, Bibi, me chame de teu pedacinho. E ele é. É um amor da minha vida”, conta.

“Minha filha não toma sopa até hoje”

A Serra Dona Francisca é a principal via de ligação entre o Planalto Norte e Joinville, mas desde o dia 14 de março de 2015, Rosymeri Ramos Chrisostemo nunca mais passou pela rodovia que corta a serra.

A penúltima curva deixou uma ferida aberta que dias, meses e anos não são capazes de fechar. “A tristeza é um quebra cabeça que, depois de montado, depois que você enterra as pessoas que não eram para morrer… ainda tinha formatura, tinha aniversário, tinham netos… eu tenho um filho que não vai conhecer a avó”, lamenta.

A dor de Rosymeri pulsa diariamente, mas a proximidade da data que marca a tragédia parece torná-la ainda mais latente. Naquela sexta-feira, há cinco anos, a mãe, Roseli Chrisostemo Souza Ramos, de 48 anos; o irmão mais novo, Renan Ramos Christostemo, de 19 anos, e a prima Ketlyn Vitória, de 17 anos, embarcavam em um ônibus para nunca mais voltar.

“Aquele sentimento de vazio e de desespero toma conta. Com o tempo, o desespero passa, mas o vazio nunca é preenchido”, diz a professora de educação física enquanto deixa as lágrimas tomarem conta do rosto enquanto olha a última foto da família reunida, feita pouco mais de dois meses antes. Agora, é a lembrança mais recente das vidas que foram tiradas e da vida que nunca mais será a mesma.

E nunca mais será a mesma a começar pela filha de Rosymeri, que tinha apenas dois anos na época do acidente, mas que carrega marcas da tragédia até hoje. “É doloroso chegar nessa data, todo ano é diferente. Eu tenho uma filha de sete anos. Ela dizia que quando crescesse iria casar com o ‘tio Nan’ e eu só consegui contar pra ela o que aconteceu no ano passado”, diz.

A casa de Roseli continua intacta. A família fez questão de manter o espaço que era tão bem cuidado por ela. “Eu gosto de manter tudo arrumadinho, ela era assim, a casa era um espetáculo e eu tenho a responsabilidade de manter tudo arrumado”, fala.

A ausência da mãe sempre será sentida por Rosymeri, que tinha nela o porto seguro, o alicerce da família. “Ela era aquela que chacoalhava todo mundo. Então, quando se perde alguém assim, alguém como eles cheios de vida e de alegria, você se questiona, mas não tem outro jeito, você tem que levar”, conta.

“Eu dei um beijo nela e disse: aproveita bem o passeio”

A tragédia interrompeu a vida da mãe, do irmão e da prima e deixou na família o sentimento de que o dia seguinte pode não chegar.  “Sabe aquele eu amo você, aquele até logo? A gente acaba não fazendo no dia a dia e eu lembro exatamente da última frase que eu disse para a minha mãe. Eu dei um beijo nela e disse: aproveita bem o passeio. Ela disse: vocês também, se cuidem. Deu um beijo na Heloísa [neta] e disse até segunda. No Renan, eu não pude fazer isso, nem na Ketlyn”, lembra.

Mas aquela segunda-feira nunca chegou.

A dor da ausência e o buraco deixado pela tragédia não amenizam e, para Rosymeri, a tragédia não foi destino ou acaso, foi uma soma de fatores que arrancaram a vida de 51 pessoas e marcaram para sempre a vida de muitas outras.

Rosimery guarda em retrato a última foto que fez com a mãe e o irmão – Foto: Adrieli Evarini/ND

“Quando os investigadores de Joinville vieram para cá e uma me perguntou: de quem você acha que é a culpa? E eu respondi que tinha sido deles, da polícia. Ela me olhou admirada e perguntou porquê. Eu respondi que ele não poderia estar dirigindo, o ônibus não tinha condições, eles passaram por posto de guarda, ele tinha carteira cassada, já tinha atropelado uma pessoa. Então, se tivessem feito o trabalho deles, ele não estaria dirigindo um ônibus e, por consequência, não teria sofrido um último acidente. Foi uma junção de muitas coisas: a fiscalização que não fez o trabalho correto, que vê um ônibus lotado passando, que está vendo a placa do ônibus passando sabendo que não poderia circular. E o motorista que não dormiu, e o ônibus que estava quebrado, e uma pessoa que organizou a excursão e não queria devolver o dinheiro. Eles entraram em um ônibus para o fim da vida”, lamenta.

Desde a noite em que ela teve de descer a rodovia para reconhecer os corpos dos familiares, ela nunca mais passou pela serra. “Eu não passei mais, não consigo nem pretendo”, diz Rosymeri.

“Ele disse: vou dar orgulho para a minha mãe e para a minha avó”

As notícias começaram a chegar desencontradas, pelo WhatsApp, mas não pareciam ser reais, afinal, os familiares já deveriam estar na praia, aproveitando o sol e o fim de semana. Mas enquanto Gilliard Roberto Ribeiro, de 40 anos, recebia notícias de um acidente envolvendo um ônibus na Serra Dona Francisca, a mãe Deonirce Margarete Fontana Lima, de 56 anos, a irmã Janaína Darcley Ribeiro, de 28 anos, a sobrinha Rafaelly Bollmann, de apenas 4 anos, e os primos Conrado Schier, de 58 anos, e Maise Antunes da Conceição Schier, de 53, estavam mortos, vítimas da maior tragédia rodoviária do Estado.

“A Rafinha era nossa alegria, ela nunca ficava sozinha, era alegre e sempre estava no meio da gente. Todos os dias ela passava aqui, saía da creche e já chegava aqui brincando, pedindo uma bolacha, uma fruta”, lembra.

Gilliard perdeu os alicerces da família. A irmã e a mãe costumavam reunir a família aos fins de semana – Foto: Adrieli Evarini/ND

Cinco anos se passaram desde que o açougueiro perdeu grande parte da família, família essa que nunca mais foi a mesma. Se antes, todos os fins de semana eram de reunião, brincadeiras, almoços e festa, agora as reuniões são escassas e as lembranças sempre tomam conta do pensamento.

“Cinco anos se passaram, mas pra nós parece que foram cinco dias. Elas estão muito presentes, parece que elas estão ali, parece que a qualquer momento vão virar a esquina, vão chegar no portão. A gente fica com a sensação de que elas vão estar de volta. Para mim, esses cinco anos não passaram, elas estão muito vivas, tenho elas a toda hora no pensamento e… saber que nunca mais…”, lamenta.

As fotos são guardadas com carinho, mas olhar para o rosto infantil da sobrinha e saber que ela não vai crescer, amadurecer e conhecer o mundo machucam o coração de Gilliard.

A mãe e a irmã eram alicerces e contagiavam a família. A dor, garante ele, não minimizou com os cinco anos. “Não tem como descrever, ainda dói muito. Elas fazem muita falta. Penso que elas se foram para um lugar bem melhor”, diz.

Janaína tinha outro filho, Ryan Guedes Lima, oito anos na época do acidente e ficou com o pai porque queria jogar videogame no final de semana. Hoje, aos 13 anos, ele emociona a família.

“Ele nos reuniu no fim do ano e disse uma coisa que marcou e emocionou. Ele disse: sabe, eu tinha dois caminhos, ou eu virava um sem vergonha ou eu dava orgulho pra minha mãe e pra minha avó e eu vou dar orgulho pra elas”, fala.

Rafinha tinha apenas 4 anos e era a alegria da família – Foto: Adrieli Evarini/ND

Ele lembra ainda que a irmã voltaria para o trabalho na segunda-feira, dia em que Ryan voltaria para a escola, com o caderno assinado por ela. “E ele lembrou disso na época, ele disse: nossa, minha mãe tinha que assinar meu caderno para eu voltar a estudar na segunda-feira, mas ela não vai assinar, não vai assinar nunca mais”, conta.

A dor da partida violenta da família marcou Gilliard, que passou por tratamento psicológico, mas abandonou porque as perguntas que ele têm nunca terão respostas. “Abandonei. Eles falavam coisas que a gente não entendia, eu queria uma explicação, mas ninguém pode dar essa explicação.”

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