Vital para o desenvolvimento, BR-470 é o retrato do descaso

Atrasos na duplicação e asfalto deteriorado nas rodovias catarinenses, em especial na BR-470, afastam a abertura de novos negócios, impedindo a geração de emprego e renda

Mais do que uma rodovia, a BR-470 é um caminho de incertezas, promessas vazias, atrasos e descaso com uma região que, somente no ano passado, foi responsável por gerar uma corrente comercial estimada em U$S 13,5 bilhões.

BR-470 mostra descaso das vias catarinenses com motoristas – Foto: Reprodução/NDTVBR-470 mostra descaso das vias catarinenses com motoristas – Foto: Reprodução/NDTV

Pela rodovia circulam alimentos, móveis, produtos têxteis, matéria-prima para a construção civil, artigos de metalmecânica, borracha, plásticos, minerais, madeira, máquinas e equipamentos.

É o corredor central vital para impulsionar a economia de uma ponta a outra do Estado. No ano passado, as cidades do entorno da BR-470 mandaram para os cofres públicos estaduais mais de R$ 4 bilhões em ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços).

Para o governo federal, a geração de tributos passou de R$ 23 bilhões. A Fiesc (Federação das Indústrias de Santa Catarina) diz que os municípios cortados pela rodovia respondem por 26% do PIB (Produto Interno Bruto) de Santa Catarina.

Com tanto dinheiro, a população do Vale do Itajaí e do Alto Vale esperava pelo menos ter a duplicação de 73 quilômetros da rodovia entregues dentro do prazo. Mas são quatro anos de atraso. “A situação em que se encontra a BR-470 é uma inibidora do crescimento da nossa região e da nossa cidade”, desabafa o prefeito de Blumenau, Mário Hildebrandt.

Investidores têm desistido de novos negócios próximo da 470 pela precariedade da infraestrutura. “Eu já enfrentei a perda de empresas que sentaram aqui no meu gabinete, conversaram comigo, falaram que tudo aqui em Blumenau estava ótimo, inclusive a qualidade da mão de obra, mas infelizmente, por causa da não duplicação da BR-470, tinham uma opção diferenciada próxima ao litoral”, lamenta Hildebrandt.

Duplicação em capítulos

A novela para duplicar o trecho de 73 quilômetros da rodovia, entre Navegantes e Indaial, começou a ser escrita em 2007. Naquele ano, finalmente depois de inúmeros apelos da sociedade catarinense e do setor produtivo, a obra foi incluída pelo governo federal no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Ninguém imaginava que pela frente viriam sucessivas promessas e atrasos. Os estudos de viabilidade técnica, o primeiro passo para liberação de uma obra de engenharia, só foram concluídos em 2010.

Outro levantamento importante, o Estudo de Impacto Ambiental, ficou pronto apenas em 2011, mesmo ano em que foram realizadas as audiências públicas para apresentar e discutir com a comunidade local o projeto dividido em três lotes.

Reformas na BR-470 datam desde 2007 – Foto: Reprodução/NDTVReformas na BR-470 datam desde 2007 – Foto: Reprodução/NDTV

Em 2013, as licitações foram lançadas e a obra começava a sair do papel. No mesmo ano, máquinas e operários iniciaram os trabalhos previstos para serem finalizados em 2017. A previsão de custos feita pelo Ministério da Infraestrutura para duplicar a rodovia era de R$ 1,2 bilhão.

Quatro anos se passaram e nada da obra estar pronta. Até agora, o DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) entregou metade da duplicação. Em oito anos, a obra parou diversas vezes e ainda não se tem garantia de dinheiro para terminá-la.

“A 470 é um retrato da impossibilidade do governo realizar os investimentos necessários”, comenta o gerente de Logística e Sustentabilidade da Fiesc, Egídio Antonio Martorano. Um levantamento da Secretaria de Infraestrutura de Santa Catarina aponta que faltam R$ 662 milhões para concluir a duplicação.

São necessários ainda outros R$ 200 milhões para desapropriações. Sem dinheiro em caixa, o governo federal receberá R$ 300 milhões em recursos de Santa Catarina para acelerar a duplicação. O acordo foi assinado na semana passada e o repasse da verba tem autorização da Assembleia Legislativa.

Os lotes 1 e 2 receberão R$ 100 milhões cada, e os lotes 3 e 4 ficam com R$ 50 milhões cada um. O valor das desapropriações e o restante do dinheiro para finalizar tudo ficará a cargo do governo federal que, por enquanto, sinalizou apenas com promessas de entregar a obra no ano que vem.

Capacidade esgotada

O trecho catarinense tem 358 quilômetros entre Navegantes até a divisa com o Rio Grande do Sul. A rodovia foi projetada na década de 1970, para atender um fluxo diário de cinco mil veículos.

BR-470 carece de melhores condições – Foto: Arte Rogério Moreira/NDBR-470 carece de melhores condições – Foto: Arte Rogério Moreira/ND

Meio século depois, a demanda na BR-470 é sete vezes maior da prevista no projeto original. Atualmente, circulam todos os dias por lá em torno de 35 mil automotores. O tráfego pesado responde por 40% do movimento.

Com mais circulação de carros, motos, caminhões, além da travessia de pedestres e ciclistas, a principal ligação do Vale e Alto Vale com as outras regiões catarinenses acumula números negativos nas estatísticas de trânsito.

Ano passado, a 470 ocupou a terceira posição no ranking de acidentes e mortes no Estado. Foram 1.240 acidentes e 81 vidas ceifadas no asfalto. “Hoje, temos uma insegurança muito grande. É risco para qualquer um de nós entrarmos na BR-470”, alerta o empresário André Odebrecht.

Desenvolvimento ameaçado

Deformações no pavimento, asfalto trincado e buracos. Por onde a duplicação não chegará, o que se vê é um rastro de problemas e remendos. De acordo com a Fiesc, o pior trecho é entre Indaial e Campos Novos, onde há sinais claros de desgaste e abandono.

Buracos e estradas defeituosas marcam a BR-470 – Foto: Reprodução/NDTVBuracos e estradas defeituosas marcam a BR-470 – Foto: Reprodução/NDTV

“Mais de 60% do trecho exige recuperação, porque o pavimento está desgastado com a ação do tempo, com a ação da água, do uso em si”, constata Martorano. Em registros da Fiesc, é possível observar as pistas trincadas em Indaial, Rodeio, Ascurra, Apiúna, Lontras, Rio do Sul e Trombudo Central.

Prefeituras da região reclamam que falta o básico na BR-470. O prefeito de Rio do Sul, José Eduardo Thomé, contesta o baixo investimento em manutenção feito pelo DNIT. “Agora, tem um novo contrato de manutenção de rodovia, mas que não prevê 20% do necessário”, ressalta.

A deficiência na infraestrutura forma uma barreira para o desenvolvimento de todas as cidades do entorno. “Ela nos deixa distante de polos, onde a gente consegue efetivamente gerar interlocução de possibilidades de inovação, possibilidades de logística mais adequada”, alerta Odebrecht.

Outro problema é a lentidão provocada pelo movimento na rodovia. Segundo o presidente da ACIRS (Associação Empresarial de Rio do Sul), tem dias que o deslocamento entre Rio do Sul e Blumenau chega a levar três horas.

Normalmente, o trecho com 96 quilômetros se percorre em uma hora e 45 minutos. “No momento, a BR-470 está horrível. Você tem além do problema da logística, muitos buracos. Você pode ter um carro e caminhões com problemas”, salienta.

SC não pode parar

A BR-470 passa a fazer parte do movimento SC Não Pode Parar, lançado em julho pela Fiesc e pelo Grupo ND. A campanha que começou pela BR-101 se estendeu para a 163 e 282, e agora chega ao Vale e Alto Vale do Itajaí para mobilizar toda a sociedade em torno dos problemas e na busca das soluções para melhorar a rodovia.

“É essa rodovia que traz toda a carga do Oeste catarinense, passa pelo Vale do Itajaí e entrega na BR-101. Então, é fundamental para Santa Catarina. E essa campanha que vamos fazer na região do Vale do Itajaí vai discutir com a sociedade local quais são as questões que podemos trabalhar para melhorar a nossa BR-470”, enaltece o presidente da Fiesc, Mario Cezar de Aguiar.

O Grupo ND mobilizará ações editoriais em todas as suas plataformas – TV, impresso, digital – para levantar a situação da 470 e fortalecer a cobrança pelos investimentos necessários para reestruturar a rodovia.

“Há uma maturidade no setor empresarial, político e na sociedade, e a imprensa está aqui para isso, exatamente para fazer esse movimento e ligar essas pontes. A partir daí, fará a devida pressão para que as coisas realmente aconteçam”, complementa o presidente-executivo do Grupo ND, Marcello Corrêa Petrelli.

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