Ônibus em Joinville: número de usuários cai enquanto passagem fica mais cara

Em dez anos, passagem teve aumento de 106% no valor ao mesmo tempo que registra queda no número de usuários; incentivar o uso dos ônibus é uma das alternativas para diminuir o preço

Entra ano, sai ano, a reclamação de quem mora em Joinville e depende do transporte coletivo é sempre a mesma: por que a passagem do ônibus está tão cara?

E não é para menos. Só nos últimos dez anos o valor sofreu um reajuste de 106% – passou de R$ 2,30, em 2010, para R$ 4,75, em 2020.

Ônibus em Joinville Valor da passagem aumentou significativamente enquanto cidade registra queda na quantidade de usuários – Foto: Luana Amorim/ND

O valor, inclusive, pesa no bolso dos joinvilenses. Se levar em conta que uma pessoa precisará ir trabalhar de ônibus cinco dias por semana, ela gastará, em média, R$ 47,50, se pagar a tarifa antecipada ou R$ 49 se comprar a embarcada – atualmente, o preço é de R$ 4,75 e R$ 4,90, respectivamente.

Em um mês, isso geraria um gasto aproximado de R$ 190, no uso da antecipada, e de R$ 196 na embarcada. O valor corresponde a 17,6% e a 18,1% do salário mínimo atual, que é de R$ 1.079.

Ao mesmo tempo que o valor aumentou, o número de usuários que utiliza o transporte caiu. Segundo os números repassados pelas empresas de ônibus ao ND+, houve queda de 71% na quantidade de passageiros pagantes nos últimos dez anos: de 39.356.214, em 2010, para 10.155.498, ao final do último ano.

Mas, como explicar um aumento tão drástico, ao mesmo tempo que os usuários buscam novas alternativas de transporte?

Como a tarifa é composta?

Antes de tentar buscar soluções para diminuir o valor é preciso entender como a tarifa é calculada. Ela é decidida após um acordo entre a Prefeitura e as empresas que administram o transporte coletivo da cidade, após um levantamento que aponta os custos com o serviço.

“Em cima disso, eles fazem uma conta que dá uma tarifa técnica, que basicamente tem o valor de custo por km rodado dividido pelo número de passageiros por km rodado. Essa divisão, então, dará o valor real por passageiro”, explica a doutora e professora do curso de Engenharia de Transportes e Logística da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) Joinville, Francielly Hedler Staudt.

Ou seja, quanto menor o índice de passageiros usando o transporte, maior a tarifa. Além disso, a especialista aponta outras particularidades.

“Nós temos uma cidade muito espalhada, o que faz com que se tenha grandes movimentos de deslocamento, gerando linhas mais longas. Por exemplo, pessoas saem do Sul para trabalhar no Norte. São viagens longas que faz com que sejam necessárias linhas longas, com uma grande quilometragem, o que pesa no custo [das empresas]. Os terminais ajudaram a reduzir esse problema, mas ainda assim não é suficiente”, pontua.

Ela ressalta, ainda, que o cálculo não leva em conta o número de passageiros não pagantes, como idosos, e de serviços como transporte eficiente, que faz a locomoção de passageiros que tenham algum tipo de deficiência física.

Pandemia também impactou nos números do transporte – Foto: Carlos Junior/Arquivo/NDPandemia também impactou nos números do transporte – Foto: Carlos Junior/Arquivo/ND

Busca por alternativas mais baratas impactam na queda

Entre os fatores que estão altamente alinhados com a queda no número de passageiros está o econômico, como pontua a especialista. “Ele é um dos que mais influencia na escolha do usuário. Por exemplo, é mais barato ir com uma carona compartilhada ou com um transporte por aplicativo, do que usar o transporte coletivo”, fala a professora.

Outra coisa que impacta na escolha é o tempo de deslocamento: “uma pessoa de classe média, que tem carro, não vai achar atrativo deixá-lo em casa, para usar o transporte, que às vezes demora muito para chegar ao destino. Por isso, é importante conhecer o perfil do usuário para apresentar alternativas para que o transporte coletivo seja mais atrativo”.

Nesse ponto, ela cita a realização de obras de infraestrutura, como corredores de ônibus e vias exclusivas, que deixariam o transporte mais rápido e eficiente.

Pandemia impactou no número de usuários

Além da queda no número de passageiros, em 2020, as empresas tiveram que enfrentar outro problema: a paralisação dos serviços devido à pandemia da Covid-19. Por aproximadamente 120 dias, os ônibus ficaram proibidos de circular em Joinville, uma medida para conter as taxas de contágio da doença.

A parada, inclusive, impactou diretamente no número de pagantes – de 29.209.792, em 2019, para 10.155.498, em 2020, uma queda de 65%. Isso também trouxe reflexos nas contas da empresa, que entrou com uma liminar na justiça pedindo que a Prefeitura cubra os prejuízos causados pela pandemia.

Na ação, o juiz Renato Roberge decidiu que a prefeitura deve promover “o levantamento e atualização do valor do déficit financeiro existente no sistema de transporte coletivo municipal enquanto perdurarem as restrições públicas impostas ao sistema em decorrência da Covid-19”.

Além disso, o Executivo também deve viabilizar o equilíbrio financeiro revisitando os números mensalmente para impedir a formação de passivo financeiro com as empresas.

Cerca de R$ 9,2 milhões já foram destinados às empresas para cumprir a decisão. Mesmo assim, a tarifa de 2021 ainda pode sofrer com os impactos dessa paralisação.

“O que aconteceu em 2020, devido ao fator externo, tornou impraticável a tarifa técnica. Então, provavelmente terá que se ter um acordo mútuo de como resolver esse problema sem impactar tanto no bolso do consumidor e continuar com o serviço em andamento, porque se aumentar demais, o transporte se tornará inviável, principalmente para as pessoas com menor renda”, pontua Francielly.

Mas quais as alternativas para reduzir o valor da passagem?

Alguns modelos podem ser adotados para melhorar o preço da passagem: adoção de tarifas para rotas diferenciadas, com o valor correspondente a região e ao quilômetro rodado; redução de custos e no número de linhas, o que impactaria diretamente na qualidade do serviço ou o repasse de subsídio para as empresas por parte da Prefeitura.

Mas, segundo a especialista, todas essas alternativas não seriam viáveis ao longo prazo. Por isso, o foco principal para reduzir o valor é aumentar o número de passageiros que usam o transporte, o que também refletiria na melhora da mobilidade urbana da cidade.

“O foco deve ser em aumentar o número de passageiros, porque isso irá impactar diretamente no valor da tarifa. Uma das ideias é reduzir [o valor], por um tempo, para ver como a população se comporta, fazendo com que as pessoas voltem a usar o transporte coletivo. Isso resolveria o problema, mas seria algo que ocorreria ao longo prazo, porém, é o caminho de sustentabilidade do transporte coletivo”, enfatiza.

Novo valor da tarifa ainda está em discussão em Joinville – Foto: Luana Amorim/NDNovo valor da tarifa ainda está em discussão em Joinville – Foto: Luana Amorim/ND

Ela complementa, ainda, que isso precisa partir de um esforço maior do poder público de rever e tentar entender qual é a melhor alternativa para o problema.

“Já se tinha uma necessidade na cidade de rever, repensar o transporte público, pensar em como oferecer serviços para aumentar a demanda. Não se tem uma resposta simples: é necessário um esforço do poder público e das empresas de entender a demanda. Esse é o ponto que ainda precisa ser compreendido”, explica.

Novo aumento da passagem continua em discussão

Tradicionalmente realizada no início do ano, ainda não há uma data de quando o novo valor da tarifa será anunciado pela Prefeitura e pelas empresas.

Uma decisão judicial determina que a prefeitura conceda o aumento indicado pelas planilhas de custo das empresas para evitar dívidas do município com as prestadoras do serviço. O ND+ chegou a solicitar a planilha, tanto para as empresas quanto à Prefeitura, mas não conseguiu acesso.

Por meio da assessoria, ambas afirmaram que o valor continua em análise.

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