Pra que carros voadores se podemos caminhar?

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Ideias futuristas devem ficar apenas nos desenhos animados; conceito de mobilidade ativa e sustentabilidade são tendências dos próximos anos

Às vésperas da abertura dos Jogos Olímpicos, Tóquio assombrou o mundo com um novo tipo de transporte, muito mais rápido e eficiente que seus antecessores: o trem-bala. O ano era 1964. Cinquenta e sete anos depois, a capital japonesa voltou a sediar as Olimpíadas de Verão, mas desta vez a aposta foi na melhoria da infraestrutura e sistemas que já atendem ao fluxo de 37 milhões de habitantes da região metropolitana. 

Esta é uma realidade ainda distante do Brasil. Otimizar infraestrutura e espaços em Tóquio só foi possível porque lá já havia uma grande rede de mobilidade urbana com integração de múltiplos modais. É claro que estamos falando de países completamente diferentes — desde a geografia até a indústria e a economia —, mas o exemplo japonês pode inspirar o Brasil a (re)pensar a relação da população com o espaço público e os deslocamentos nas grandes cidades.

Brasil precisa repensar sua mobilidade urbana, segundo especialista – Foto: Arte/Fábio Abreu/NDBrasil precisa repensar sua mobilidade urbana, segundo especialista – Foto: Arte/Fábio Abreu/ND

“O que observamos em muitos países é o desenvolvimento de uma mobilidade urbana mais sustentável, priorizando pedestres e ciclistas. As cidades estão cada vez mais congestionadas, com poluição atmosférica e sonora, risco de acidentes e percursos pouco convidativos a caminhadas ou ao uso de bicicletas”, avalia Melissa Belato Fortes, arquiteta e urbanista, doutora pela USP.

“Uma tendência no mundo, hoje, é refletir sobre que cidades estamos construindo e como priorizar mais o ser humano nos transportes”, completa.

Quando pensamos em tendências para os próximos anos, o apontamento da pesquisadora de Mobilidade Urbana traz o público leigo de volta para a realidade.

Se no imaginário coletivo circula a ideia de que em breve teremos carros voadores nas cidades, na prática as discussões de quem está na vanguarda deste debate estão relacionadas a como ocupar e transitar pelos espaços urbanos sem aquela sensação de prisão ou imobilidade que os engarrafamentos causam.

“Diria que uma tendência seria buscarmos uma mobilidade ativa como primeira alternativa ao deslocamento. O ambiente urbano deve ser mais qualificado para permitir a caminhada, dentro de um contexto mais equilibrado na esfera social, econômica e ambiental”, afirma o professor Arnoldo Debatin Neto, do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Transportes e Gestão Territorial da UFSC.

Bernardo Meyer, coordenador do Observatório de Mobilidade Urbana da UFSC, concorda com a ideia do colega. “O que se defende é uma maior valorização dos modos ativos de transporte, aqueles em que você mesmo se locomove para os destinos, ou seja, os espaços de ciclistas e pedestres”, comenta.

“No Brasil, também precisamos de políticas públicas mais fortes de incentivo ao uso do transporte público, porque se continuarmos nessa taxa de veículos individuais, vai ficar ainda mais difícil trafegar nas cidades”, acrescenta.

“O que observamos é o desenvolvimento de uma mobilidade urbana mais sustentável, priorizando pedestres e ciclistas. As cidades estão cada vez mais congestionadas, com poluição atmosférica e sonora, risco de acidentes. Uma tendência é refletir sobre que cidades estamos construindo e como priorizar mais o ser humano nos transportes.”Melissa Belato Fortes, arquiteta e urbanista.

Cultura do automóvel trava, literalmente, as ruas

De fato, já não está fácil circular de carro nas principais cidades brasileiras. Em 2019, o Summit Mobilidade Urbana, importante fórum de debates do setor, apontou que os brasileiros gastam, em média, 32 dias trancados dentro de um carro esperando o motorista da frente andar alguns metros.

Dados como esse evidenciam que o carro particular, que um dia foi solução de transporte, hoje é um dos principais causadores de problemas na mobilidade urbana.

Veículo Leve sobre Trilhos, o VLT, usado no Rio de Janeiro, é apontado como solução aplicável a Florianópolis – Foto: Bruno Bartholini/Divulgação/NDVeículo Leve sobre Trilhos, o VLT, usado no Rio de Janeiro, é apontado como solução aplicável a Florianópolis – Foto: Bruno Bartholini/Divulgação/ND

“O carro é o sonho de consumo de todo brasileiro, talvez com exceção da geração mais nova. Ainda que possa haver uma mudança nesse sonho de consumo, o transporte individual vai continuar predominante”, avalia Aldo von Wangenheim, professor do Centro Tecnológico da UFSC, que orienta um projeto de desenvolvimento de veículo autônomo.

“Uma tendência que possivelmente vai pegar no Brasil é o táxi ou uber autônomo”, completa.

Algumas cidades brasileiras vêm investindo na ampliação e aprimoramento do sistema de transporte público, como o BRT (Bus Rapid Transit, na sigla em inglês) de Curitiba ou a expansão da malha metroviária em São Paulo, mas isto está um pouco distante da realidade de boa parte dos municípios, inclusive Florianópolis.

“No transporte coletivo não consigo imaginar grandes mudanças. Os locais que têm grande infraestrutura, com BRTs, trens e metrôs, investiram nisso 70, 80 anos atrás. De lá para cá, foram expandindo”, comenta Wangenheim.

“Aqui em Florianópolis, seria fantástico algo como o VLT [Veículo Leve sobre Trilhos, parecido com os bondes], mas não tem mais espaço nas nossas principais vias. As pessoas se acostumaram com o transporte individual. O que consigo ver é ele se tornando mais ecológico e autônomo”, complementa.

Na Ilha de Santa Catarina, transporte marítimo é cereja do bolo intermodal

Voltemos a Tóquio. Não é segredo que o desenvolvimento industrial e tecnológico faz do Japão uma referência no mundo quando o assunto é inovação.

Por lá, se hoje não há novidades significativas em termos de modalidades de transporte, a aposta é na integração multimodal, que é o uso de mais de um meio de transporte em um mesmo trajeto.

Amplas vias de pedestres e ciclistas, bicicletários nas centenas de estações de trem e metrô, ônibus com prioridade no trânsito e pedágios urbanos para diminuir o tráfego de veículos individuais.

Essa é a receita que Tóquio encontrou para melhorar o fluxo de quase 40 milhões de pessoas.

Proposta para Florianópolis está em análise, com pelo menos cinco rotas; na foto, um dos testes, realizado em 2018 – Foto: Flávio Tin/Arquivo/NDProposta para Florianópolis está em análise, com pelo menos cinco rotas; na foto, um dos testes, realizado em 2018 – Foto: Flávio Tin/Arquivo/ND

Essa conexão entre diferentes modalidades de transporte também pode ser realidade na Capital catarinense.

Anos de estudos e debates culminaram com um projeto de transporte marítimo na Grande Florianópolis, que prevê a integração com outros modais, com cooperação do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

“É de se esperar que surja um transporte aquático num futuro próximo, mas é importante que haja integração física e tarifária ao sistema de ônibus terrestre e às ciclovias e ciclofaixas para favorecer a locomoção dos passageiros e facilitar o pagamento das tarifas”, analisa Bernardo Meyer.

O projeto em Florianópolis ainda está em desenvolvimento, e a Secretaria de Estado da Infraestrutura e Mobilidade analisa cinco possíveis rotas. Entre as necessidades, estão a implementação do sistema de barcas e ferry boat, a concepção de terminais, a intermodalidade, o transporte elétrico e o modelo de negócio.