Mortes por afogamento em quatro dias acendem alerta em Canasvieiras

Obra de alargamento modifica morfologia da praia e confunde banhistas; reunião entre órgãos públicos define medidas de emergência para alertar turistas

Cinco afogamentos, sendo dois com resultado de morte, que ocorreram em menos de uma semana em Canasvieiras, no Norte da Ilha, acenderam o alerta do Corpo de Bombeiros Militar.

Reunião na manhã de sábado tratou de medidas para evitar afogamentos em Canasvieiras – Foto: Divulgação/PMF/NDReunião na manhã de sábado tratou de medidas para evitar afogamentos em Canasvieiras – Foto: Divulgação/PMF/ND

O primeiro afogamento com morte foi na véspera do Natal, na tarde de 24 de dezembro. A vítima foi o turista gaúcho Anderson Francisco de Souza Martins, de 51 anos. Ele foi retirado do mar por um bombeiro argentino e recebeu atendimento na areia, mas não resistiu.

A segunda morte ocorreu na noite de sexta-feira (27), quando não havia mais expediente de guarda-vidas na praia. A vítima, identificada como Pitter Deivis Silva, de 21 anos, vestia calça e camiseta.

De acordo com os bombeiros, outros três afogamentos em que as vítimas foram salvas ocorreram nesse período.

Uma reunião em caráter emergencial que ocorreu na beira da praia na manhã deste sábado (28) mobilizou órgãos públicos para definir medidas de emergência no intuito de alertar os banhistas.

O que acontece é que a obra de engordamento da faixa de areia em Canasvieiras modificou a morfologia da praia. Conforme o comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar, coronel Charles Alexandre Vieira, as pessoas eram acostumadas com a praia rasa. Canas não é um local com tradição de afogamento, justamente por isso.

Porém, a obra de engordamento fez com que se formasse um declive mais profundo após 30 metros de distância da faixa de areia. Isso numa situação de maré baixa. Quando a maré está alta, a distância para a inclinação é de 50 metros.

Obra de engordamento da faixa de areia – Foto: Schirlei Alves/NDObra de engordamento da faixa de areia – Foto: Schirlei Alves/ND

Reunião mobiliza órgãos na praia

A reunião que contou com a presença do prefeito Gean Loureiro, mobilizou além dos bombeiros, os responsáveis pela Prosul – empresa que executa a obra, o IMA (Instituo do Meio Ambiente), a Defesa Civil, a Guarda Municipal e a Polícia Militar.

“Mesmo sabendo que a obra não é a causadora dos afogamentos, ela traz características diferentes. Se o talude (declive) vai estar há 20 m ou 50 m, ele existe. Então, o primeiro ponto é trazer informações mais detalhadas e em maior quantidade”, destacou o prefeito.

O comandante Vieira se mostrou bastante preocupado com a situação, uma vez que a temporada de verão está só começando e Canasvieiras é uma das praias mais frequentadas por turistas no Norte da Ilha.

“As pessoas que vinham à praia costumavam caminhar longa distância até chegar na área funda. O nosso alerta acendeu quando houve o primeiro óbito (em local onde já foi finalizado o engordamento). Começamos a nos preocupar porque não era normal, fazia 20 anos que não tinha afogamento aqui”, destacou o comandante.

“Hoje, você caminha e de repente tem uma queda brusca. Se a pessoa não sabe nadar, pode se afogar. A ideia não é encontrar culpados e sim adotar medidas para evitar que isso aconteça”, completou.

Cadeirões para melhorar visibilidade dos bombeiros estão sendo instalados – Foto: PMF/Divulgação/NDCadeirões para melhorar visibilidade dos bombeiros estão sendo instalados – Foto: PMF/Divulgação/ND

Medidas de emergência

Medidas de prevenção foram definidas na reunião e devem ser implementadas até, no máximo, segunda-feira, dependendo da complexidade de cada uma delas.

A primeira precaução já posta em prática é o reforço da segurança na praia com a Guarda Municipal. Os guardas devem apoiar o trabalho dos bombeiros no alerta aos banhistas.

A praia que costumava contar com a atuação de três a quatro guarda-vidas, conta agora com uma equipe de 10 profissionais.

Pelo menos cinco cadeirões devem ser montados ao longo da extensão de areia para que os bombeiros tenham maior visibilidade dos banhistas durante a temporada. A Prefeitura de Florianópolis ficou responsável de conseguir o material.

O comandante Vieira reforçou a necessidade de providenciar sinalização com boias no local do declive para que o banhista não caia na área mais profunda.

A prefeitura também se comprometeu a produzir material informativo em forma de panfleto para distribuir na praia. Loureiro também quer falar com a PM para reforçar as rondas à noite, já que uma das mortes ocorreu fora do expediente dos guarda-vidas. O prefeito também reforçou que a iluminação da praia ficou pronta.

A Defesa Civil Municipal se comprometeu junto com a empresa a providenciar estruturas que facilitem o escoamento da área para o mar e evitem que a água fique turva – o que facilita a visibilidade do banhista. O órgão também pretende instalar placas de sinalização e raias no perímetro da obra para evitar que os banhistas adentrem a área.

Os órgãos também avaliam a possibilidade de providenciar quadriciclos para agilizar o trabalho dos guarda-vidas no monitoramento.

Alerta aos banhistas

Os bombeiros estão fazendo um alerta aos turistas e moradores que frequentam a praia de Canasvieiras. O objetivo é conscientizar os banhistas de que a praia está diferente em relação ao que era antes da obra de engordamento.

Com o tempo, a praia deve voltar ao normal. Pelo menos é o que indica o estudo da empresa responsável pela obra. Só que, até lá, os bombeiros reforçam a necessidade de atenção com a sinalização de local perigoso.

A advogada Janaína Jacob, 45 anos, estava bem atenta aos dois filhos pequenos que se banhavam no mar com o pai na manhã deste sábado (28). Ela soube que a praia estava diferente pelos funcionários do hotel onde está hospedada. “Acho que precisa de mais sinalização na praia”, reforçou a turista.

Fiscalização

Um dos órgãos fiscalizadores da obra e responsável pelo licenciamento ambiental, o IMA pretende fazer nova vistoria para verificar se os 44 itens previstos no termo técnico da licença estão sendo cumpridos.

Segundo o gerente da região da Grande Florianópolis, Luiz Cláudio Borges, a questão do impacto ambiental já está estabelecida e prevista no licenciamento.

“A preocupação hoje é unica: segurança dos banhistas. O índice de ocorrências nos últimas dias, em uma praia tradicionalmente tranquila, tem trazido preocupação aos órgãos. Nossos técnicos já estão vistoriando se as condicionantes do termo estão sendo cumpras”, disse o gerente.

Faixa de areia com engordamento – Foto: Schirlei Alves/NDFaixa de areia com engordamento – Foto: Schirlei Alves/ND

Futuro

A previsão é de que a praia volte a ter forma semelhante à nativa no período de seis meses a um ano. A tendência, segundo o oceanógrafo contratado pela Prosul, Rafael Bonanata, é de que o declive reduza e não surpreenda mais os banhistas como está ocorrendo na fase de obra.

“Pelo fato de as características da areia da jazida serem muito parecidas com as da areia nativa, estima-se que ao longo tempo, as ondas vão moldando o perfil até atingir o equilíbrio da praia nativa. Nesse momento de obra é o estágio com o máximo de desequilíbrio”, explicou o especialista.

A expectativa é de que o engordamento termine até a primeira quinzena de janeiro. Houve atraso no início da obra por questões burocráticas.

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