Mudança de comportamento gera disparada no turismo regional

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Como um contraponto do incontável prejuízo da pandemia no setor, a Serra catarinense passou por um crescimento pontual no momento de crise, que pode significar um impulso no desenvolvimento da região

O turismo pode ser considerado um dos setores mais atingidos pela pandemia da Covid-19. No entanto, a Serra catarinense aparece como uma grande exceção. Uma junção de vários fatores proporcionou um impulso histórico no fluxo de pessoas pela região, e representa uma oportunidade única de desenvolvimento do turismo regional em Santa Catarina.

“Nos 22 anos que trabalho com isso, eu nunca vi um volume parecido com os últimos dois. Foi uma coisa que nem esperávamos”, revela a representante da ABIH (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis) na Serra catarinense, Mariléia Martins.

Amanhecer na cidade de São Joaquim, em Santa Catarina – Foto: Diorgenes Pandini/Estadão Conteúdo/NDAmanhecer na cidade de São Joaquim, em Santa Catarina – Foto: Diorgenes Pandini/Estadão Conteúdo/ND

Conforme os dados da central de turismo de Santa Catarina, o Almanach, os 18 municípios que compõem a Serra catarinense superaram a sua arrecadação de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) turístico nos meses de abril, maio e junho de 2021 quando comparados ao mesmo período em 2020.

Foram mais R$ 780 mil arrecadados em 2021 contra R$ 468 mil em 2020, um aumento de 67% na arrecadação turística.

No município de Urubici, por exemplo, o crescimento é ainda maior.

Houve um crescimento de 156% na arrecadação de ICMS turístico no mesmo período, o que representa R$ 97.355,08, de acordo com os dados da Santur. Bom Jardim da Serra, Ponte Alta, Anita Garibaldi e São Joaquim também tiveram destaque no aumento das rendas em 2021.

Esse cenário visto na Serra é exatamente o oposto do que foi observado na maior parte do setor na pandemia, como ressalta o turismólogo Rafael Freitag.

“Está horrível dentro do turismo, as pessoas passando fome, necessidades. Imagina a situação de um guia turístico durante a pandemia. Se até para os hotéis está muito complicado, imagina para aquelas pessoas dentro do setor que têm que trabalhar todo dia para comer”.

Arrecadação na Serra

Urubici – (março, abril, maio e junho)

  • 2019 R$ 78,6 mil  
  • 2021 R$ 120,8 mil 
  • VARIAÇÃO: 53,68%

Bom Jardim da Serra(março, abril, maio e junho)

  • 2019 R$ 49,5 mil  
  • 2021 R$ 67,7 mil
  • VARIAÇÃO: 36,76%

Impulso na estrutura da hotelaria

O altíssimo fluxo de pessoas é uma chance de conquistar turistas “fiéis”, que pensem em retornar com mais frequência.

No entanto, de acordo com a representante da ABIH, a estrutura dos espaços pode ser um desafio neste ponto.

“A gente ainda tem falta de estrutura nos hotéis. Porque o forte da região Serrana não é exatamente a hotelaria em si, mas o entorno, onde ela está inserida. As pessoas querem viver experiências, e elas estão em atividades no ambiente, como o ecoturismo, esportes de aventura, etc. Elas vêm para descobrir o melhor ângulo no canyon, a melhor trilha”.

Mariléia ressalta que o turismo na Serra é uma atividade recente, e o movimento já chamou a atenção de investidores.

“O turismo na Serra de Santa Catarina é muito jovem, ele não tem mais de 30 anos. Não temos ainda grandes resorts, porque até então não tínhamos fluxo para isso. A partir de agora, com esse aumento, é que a gente já vê um salto em função disso. As pessoas estão vendo a oportunidade de montar um negócio. Anos atrás isso era muito difícil. Não existia fluxo, demanda, dados, estatísticas, planejamento, nada”.

A gestão dos municípios Serranos também precisa se organizar para se adequar e conseguir manter o aumento no fluxo de turistas.

A secretária municipal de Turismo, Indústria e Comércio de São Joaquim, Adriana Cechinel Schlichting De Martin, destaca que há em andamento um trabalho para conseguir investidores no setor.

“Temos trabalhado muito para captar investidores no ramo de turismo, principalmente do hoteleiro e também com perspectivas promissoras para outros equipamentos turísticos.” 

O prefeito de São Joaquim, Giovani Nunes, cita a preparação de melhorias nas praças e projetos que visam melhorar a infraestrutura. “É perceptível o crescimento do enoturismo, fortalecendo o setor e, com isso, surgindo novos empreendimentos. É a novidade do que está por vir, aliada aos projetos de infraestrutura que são fundamentais para atrair o turista. Também há um estímulo bem forte no setor rural, com o Projeto Acolhida na Colônia realizado.”

Conjunto de fatores contribuiu para o grande fluxo na Serra

Mas, afinal, o que explica esse aumento exorbitante na Serra catarinense em tempos de crise sanitária e econômica? Para o turismólogo e mestre de turismo Rafael Freitag, trata-se de uma questão cultural, acima de tudo.

“Com a pandemia, as pessoas ficaram em casa, e o brasileiro não tem essa cultura de ficar em casa. Não temos preparo emocional para aguentar ficar meses e meses trancados. E a gente ficou impossibilitado de entrar em outros países, até a pessoa mais bilionária do país, no auge da pandemia, não podia ir para os Estados Unidos, por exemplo. E como o turismo é algo intrínseco do ser humano, uma necessidade, o comportamento mudou”.

Mariléia Martins, da ABIH, cita um conjunto de fatores que proporcionaram a movimentação recorde na Serra. “É uma demanda reprimida em função da pandemia, e uma junção de muitos fatores, como o aumento do dólar, as pessoas não conseguindo viajar para o exterior. Existe também a questão da Serra ainda ser uma novidade para muitas pessoas, principalmente no Estado, e a divulgação da internet.”

“Todos os hotéis na Serra são de pequeno porte, com contato com a natureza e sem aglomeração. Isso foi muito atrativo para as pessoas na pandemia”, pontua.

Urupema, na Serra, em 29 de julho de 2021 – Foto: Conradi/Estadão Conteúdo/NDUrupema, na Serra, em 29 de julho de 2021 – Foto: Conradi/Estadão Conteúdo/ND

Como fica o turismo na região depois da pandemia?

“Eu acredito que esse movimento tão intenso quanto vimos em 2021 não dure tanto. Temos uma perspectiva de que, dentro de um ano, estaremos em uma crescente. Porém, com o avanço da vacinação, o começo de permissão de turistas brasileiros em países, do retorno da vida ‘normal’, digamos assim, eu imagino que muita gente, como o pessoal do sudeste, nordeste, que tem vindo bastante, vai optar pelas viagens internacionais”, avalia Mariléia Martins, da ABIH.

Para o turismólogo Rafael Freitag, o impacto dos anos de sucesso no turismo é algo que deve ter reflexos no futuro imediato, e abre uma grande oportunidade de desenvolvimento da região.

“Hoje as pessoas estão indo para a Serra por falta de opção. A questão é que é uma grande oportunidade para os municípios se prepararem e se adequarem a esse novo perfil de turistas. Claro que sempre vai ter o público que gosta da coisa urbana mesmo, de ‘muvuca’, mas a demanda vai aumentar. A perspectiva para os próximos anos na Serra é de que realmente o movimento seja abaixo do que tivemos na época da pandemia, mas deve ser maior do que se tinha antes, até 2019”.

Presidente da Santur cita os passos a serem trabalhados 

Renê Meneses, presidente da Santur (Agência de Desenvolvimento do Turismo de Santa Catarina), celebrou o recorde de arrecadação na Serra catarinense. Ele menciona as obras na região como um dos pilares do desenvolvimento para os próximos anos.

A Santur criou uma central de dados do turismo, o Almanach. Com essa plataforma,  é possível monitorar dados do turismo como arrecadação de ICMS, número de empregos e também ocupação hoteleira, além de outras informações de interesse turístico. 

“Dentro disso, foi possível observar que a Serra catarinense, nos municípios indutores,  bateu recorde em arrecadação de ICMS turístico. A partir disso, o governo do Estado vem investindo forte em infraestrutura turística para oferecer mais segurança e  comodidade aos turistas”, diz Renê Meneses.

Quanto aos investimentos na área da comunicação digital, o presidente classifica como “fundamental”. Segundo ele, está sendo planejada uma reformulação no meio.

“Estar conectado com a forma como o turista encontra um destino é fundamental para a Santur. E todas as nossas pesquisas indicam que atualmente a promoção digital é essencial para definir a escolha para vir até Santa Catarina”, pontua ele.

Segundo o presidente da Santur, a evolução da vacinação no Estado, a melhora nos índices relativos à Covid-19 e o início do plano de promoção turística junto às plataformas digitais da Santur, do governo do Estado e com as agências de viagens on-line são pontos positivos para a retomada.

Limitação de acesso é um entrave

Apesar de a Serra catarinense ter tido um processo de desenvolvimento turístico, há uma limitação: o acesso. É uma verdadeira jornada para um turista que vem das regiões Nordeste ou Centro-oeste do país. Para chegar até a Serra em SC, ele terá que voar até São Paulo e depois a Florianópolis. Ao chegar à Capital catarinense, ele precisa de outro meio de transporte para subir a Serra. Se calcular o tempo, vai ser muito maior do que ir a Porto Alegre (RS) e viajar cerca de duas horas até Gramado, um dos destinos favoritos no Sul do país desses brasileiros.

“Na minha avaliação é preciso gerenciar e fazer estratégias de promoção vinculadas com a estratégia de acesso, sem contar que a passagem para Florianópolis é uma das mais caras do Brasil, mas são diversas estratégias para diminuir o tempo de chegada até o Estado, e diminuir o tempo de chegada até o destino final”, opinou o professor do IFSC, Tiago Mondo. 

Fomentar o aeroporto de Lages com voos diretos de São Paulo e melhorar o percurso de Florianópolis até a região serrana seria uma alternativa. Já que não tem um ônibus que faça esse roteiro.