Os mistérios da Via Crucis: o caminho de Cristo da condenação à Ressureição

No calendário cristão é na Semana Santa que ocorrem as principais celebrações, com milhares de peregrinos percorrendo o caminho de Cristo rumo à crucificação

Conhecida mundialmente há séculos como “Cidade Santa”, “Cidade dos Profetas e “Cidade da Paz”, Jerusalém é a única no mundo considerada sagrada por judeus, cristãos e muçulmanos.

Foi ali que Jesus Cristo viveu os últimos dias, desde a chegada triunfal celebrada no Domingo de Ramos até a morte e ressurreição.

Vista da Basílica do Santo Sepulcro – Foto: Moacir Pereira/Arquivo PessoalVista da Basílica do Santo Sepulcro – Foto: Moacir Pereira/Arquivo Pessoal

É conhecida e preservada pelos judeus como a cidade de David, do  patriarca Abraão e do Templo de Salomão. E defendida pelos muçulmanos
por suas mais caras tradições.

Ali se encontram um dos fundamentos do islamismo, o local onde o profeta Maomé teria ascendido ao céu. Uma maravilhosa mesquita – Domo da Rocha – ao lado do Muro das Lamentações, com sua esplêndida
cúpula dourada, destaca-se no cenário milenar.

O caminho de Cristo

No calendário dos cristãos é na Semana Santa que se realizam as principais celebrações, com milhares de peregrinos participando da Via Dolorosa.

A Via Crucis é o mesmo caminho percorrido por Cristo, desde a condenação até a Ressureição, revelada pela imponência arquitetônica, artística e religiosa do Santo Sepulcro.

Cristo crucificado na Colina do Gólgota (Calvário) – Foto: Moacir Pereira/Arquivo PessoalCristo crucificado na Colina do Gólgota (Calvário) – Foto: Moacir Pereira/Arquivo Pessoal

Em março de 2019, acompanhei um grupo aqui de Florianópolis e região, liderado pelo agente Guido Becker, visitando Israel, roteiro que começou
pela Cidade Santa.

Em toda a viagem ficou a constatação de que em Jerusalém e nas cidades israelenses percorridas, tudo é história com mais de 2.000 anos.

Jornalista Moacir e a mulher, Adir, na viagem à Terra Santa – Foto: Moacir Pereira/Arquivo PessoalJornalista Moacir e a mulher, Adir, na viagem à Terra Santa – Foto: Moacir Pereira/Arquivo Pessoal

As fotos foram tiradas durante a visita. O circuito do Calvário fica integralmente dentro dos muros da cidade antiga de Jerusalém, dividida em duas partes. Começa no bairro muçulmano e avança no bairro
cristão.

Repete-se em solene procissão todas as sextas-feiras. Grupos de fiéis,  vindos de várias partes do mundo, incorporam-se ao ato religioso,  criando um clima de emoção pelas orações coletivas e, sobretudo, pelas músicas dos corais improvisados.

A tradição dos peregrinos seguirem os mesmos passos de Jesus Cristo data do período bizantino, entre os séculos 4 e 7. As procissões dos crentes começam na sala sagrada onde registrou-se a Última Ceia até atingir o Gólgota.

Sepulcro na Edícula – Foto: Moacir Pereira/Arquivo PessoalSepulcro na Edícula – Foto: Moacir Pereira/Arquivo Pessoal

A rota atual foi iniciada pelas Cruzadas no século 13. A Via Dolorosa é  integrada de 14 estações, lembrando os fatos mais relevantes do sofrimento de Cristo até a crucificação, local preservado no Santo Sepulcro, onde se concentram cinco estações.

Ao longo do trajeto foram construídos templos e placas esculpidas nas paredes, com indicações em algarismos romanos.

Símbolo esculpido da Cruz dos Franciscanos – Foto: Moacir Pereira/Arquivo PessoalSímbolo esculpido da Cruz dos Franciscanos – Foto: Moacir Pereira/Arquivo Pessoal

É comum, durante todo o ano, o registro de grupos de turistas, orientados por guias profissionais orientando todo o trajeto. Ou de peregrinos,  rezando e cantando ao longo do percurso.

O caminho está ocupado por centenas de lojas com produtos religiosos, artesanato regional e arte árabe; de bares, restaurantes, residências
e escritórios de profissionais, uma intensa área comercial.

O Santo Sepulcro é o mais visitado. Concentra centenas, às vezes milhares, de peregrinos ou turistas, em extensas filas no interior, muitas vezes chegando à área externa.

As estações da Via Dolorosa – Foto: NDAs estações da Via Dolorosa – Foto: ND

Helena e o Santo Sepulcro

O Santo Sepulcro é o espaço cristão mais sagrado em Jerusalém. A igreja contém as estações da cruz, a Capela do Gólgota e os locais onde ocorreu o sepultamento e a ressureição de Cristo. Por isso, os árabes a chamam também de “Igreja da Ressureição”.

O complexo cristão não tem a mesma imponência, as dimensões, o esplendor artístico e o valor cultural e religioso das Basílicas de São Pedro (Vaticano), de São Paulo (Londres), São Marcos (Veneza), Aparecida (São
Paulo), todas em áreas amplas, em pontos estratégicos.

Ou mesmo as famosas catedrais de Santiago de Compostela (Espanha), de Milão (Itália) e tantas outras espalhadas pelo mundo.

A Basílica do Santo Sepulcro fica apertada entre monumentos antigos de Jerusalém, sem jardins ou grandes praças ao redor. Todo o complexo é administrado por entidades seculares e igrejas cristãs, católicos romanos,
ortodoxos gregos, armênios.

A construção deve-se a Helena, mãe do imperador romano Constantino 1º, o Grande, pagão que se converteu ao cristianismo e adotou a religião como oficial no Império.

Há duas versões sobre a histórica peregrinação de Santa Helena, partindo de Roma, em direção à Terra Santa, para seguir os caminhos de Jesus.

A primeira, de que realizou penitência por Constantino. Traído pela  mulher, madrasta do filho, mandou matá-los. Ele, envenenado. E ela, sufocada no banho a vapor.

A segunda versão é a de que Helena foi incentivada e financiada pelo filho,
levando consigo uma equipe de pesquisadores e arqueólogos. Percorrendo os caminhos de Cristo com orientação, Helena chegou ao Gólgota, estruída pelos romanos no período de perseguições dos cristãos e, no
local, erguidos templos pagãos.

Ela determinou escavações, culminando com a localização da verdadeira cruz da crucificação. Ao longo dos séculos, a igreja inicial foi destruída e reconstruída nos embates entre cristãos e muçulmanos.

Fixou-se como local sagrado na primeira Cruzada, quando ocorreu a inédita peregrinação no século 11.

A Basílica tem singular riqueza histórica, religiosa e artística, única no mundo cristão. As capelas são decoradas com belíssimos castiçais de ouro e prata, de diferentes estilos e períodos históricos, candelabros maravilhosos de vários artistas e nacionalidades, cálices de ouro,
ícones de prata, obras de arte que cobrem paredes e centenários trabalhos em mosaico.

Abaixo das duas capelas há a Rotunda, minicapela chamada Edícula, do século 9, onde está o Santo Sepulcro. Tem dois quartos: o primeiro é a Capela do Anjo, local onde estaria um fragmento da
pedra que selou o túmulo.

E o segundo, o próprio túmulo. De todos os incontáveis locais sagrados de Jerusalém e de várias comunidades cristãs de Israel, na Judéia, na Samaria ou na Galiléia, é o que proporciona maior emoção.

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