Doce e destemida, ‘Anne With an E’ mostra o poder do amor, da liberdade e das mulheres

Com três temporadas, série da Netflix entrega ao público diversas lições de moral com pequenos ensinamentos cotidianos, e lembra que tudo vale a pena ser vivido

Ruiva, de olhos azuis e com uma bondade talvez nunca antes vista em uma protagonista. Obstinada e certa de seu caminho, é claro. Tão forte quanto uma adolescente pode ser. Essas e outras características compõem o quebra-cabeça perfeito que é Anne Shirley.

As possibilidades são infinitas para a pequena Anne Shirley, que em sua curta vida já teve mais provações do que muitos adultos da província onde vivia – Foto: @annewithane/Instagram/Reprodução/NDAs possibilidades são infinitas para a pequena Anne Shirley, que em sua curta vida já teve mais provações do que muitos adultos da província onde vivia – Foto: @annewithane/Instagram/Reprodução/ND

Foi em 2017 que a plataforma de streaming Netflix trouxe para seu catálogo as histórias de Anne de Green Gables, derivadas dos livros homônimos da escritora L. M. Montgomery. Apesar da adaptação não ser estritamente fiel às páginas, a narrativa de “Anne With an E” encantou do público jovem ao idoso.

Em três temporadas – tendo a quarta sido oficialmente cancelada pela empresa em 2019 – acompanhamos o crescimento e o descobrimento do mundo de Anne, uma menina órfã que é adotada “sem querer”, ou melhor, por engano, por dois irmãos camponeses.

O partilhar da vida entre recém conhecidos

De início, Marilla e Matthew Cuthbert entram na fila para adotar um menino que pudesse ajudá-los com as tarefas domésticas e do campo, visto que ambos já estavam com idade avançada e não conseguiam mais realizar as atividades sem dificuldades.

Entretanto, por conta de erros nas papeladas, os dois acabam abrigando em sua casa uma menina tempestuosa, de caráter e opiniões tão fortes quanto a cor exuberante de seus cabelos. Como já é de se imaginar, os primeiros dias de convivência entre os três não foram os melhores.

Em meio a brigas, discussões e lágrimas, o público acompanhava semanalmente como se dá o processo da criação de afeto, amor, companheirismo e união entre meros desconhecidos que se eventualmente se tornam uma família.

De forma tenra e carinhosa, o ato de adotar uma criança, que por si só já é emocionante, foi transformado pela série.

As cenas mais tocantes de toda a produção são, sem exclusividade, partilhadas pelos irmãos e por Anne. Para além do roteiro, a conexão entre o ator e as atrizes é tão profunda que transborda para fora da tela.

Isso, inclusive, é uma das peculiaridades mais lindas da série – que foi escrita com brilhantismo pela roteirista e produtora Moira Walley-Beckett – visto que, até nas cenas mais simples, somos bombardeados pelos vívidos sentimentos da menina.

Do feminismo ao primeiro amor

Apesar de configurar 50% da narrativa, a abordagem não se ancora apenas em questões familiares. Com um olhar feminino por trás das câmeras, “Anne With an E” também trata de temas considerados espinhosos para as adolescentes, como a autoaceitação.

Nos dias atuais, em um círculo de amigas, para muitas delas ser diferente é o que há de melhor. Entretanto, em 1870, período temporal da série, ter cabelo colorido e sardas no rosto não era enxergado como uma coisa boa porque trazia piadas preconceituosas.

Apesar de linda, a garota demorou a entender que a sua personalidade não era definida pela aparência. E com pequenos diálogos e pinceladas sutis da realidade, ela vai compreendendo, aos poucos, como a sociedade funciona, e que estava tudo bem ser ela mesma.

Com poucas, porém fiéis amigas, as moças desbravam o novo mundo que as aguarda. Se atualmente já não é fácil ser mulher, imagine em 1800. E a cada episódio as meninas tomam noção da imensidão que guardam dentro de si, e como isso é precioso.

Juntas, elas passam pelos mais clichês e fofos momentos, como o primeiro amor, o primeiro beijo, a primeira relação sexual, sem, é claro, perder o tom de ingenuidade e simplicidade que compõe toda a narrativa do seriado, perpassando por momentos leves e felizes, até os mais tristes.

Junto a isso, Anne também nos dá um espetáculo sobre como tratar com dignidade e respeito todas as pessoas ao nosso redor, independente da raça, credo ou orientação sexual. Pelo o que já deu para perceber, não faltam motivos para assistir essa obra de arte, ainda mais quando ela proporciona, ao mesmo tempo, risadas, romances, dramas e aventuras.

Mas antes de se aventurar junto à Anne com um “E”, é preciso entender que a partir do momento em que você der play na série, a menina mostrará, independente de sua vontade, que o cotidiano pode ser mais belo, simples e descomplicado.

De forma destemida, a menina nos ensina que, apesar das dificuldades, a vida vale a pena ser vivida na mais ampla e completa forma.

Participe do grupo e receba as principais notícias
da Diversa+ na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os
termos de uso e privacidade do WhatsApp.
+

Séries

Loading...